Atlético-MG, Cruzeiro

Precisamos falar sobre homofobia

Por Breiller Pires

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Provocações com contornos discriminatórios enrustidas em apelidos jocosos como “maria”, “franga”, “bambi” e “bicha” são usadas e banalizadas por diversas torcidas. Mas pode-se dizer que o futebol em Minas Gerais “bolsonarizou”.

Curiosa e preocupante a guinada homofóbica dos últimos anos no estado, ironicamente conhecido como um dos mais acolhedores do país. “Bolsonarizar” é ignorar que preconceitos existem e que, a essa altura do campeonato, não podem mais ser encarados com normalidade.

Ignoramos os fatos: não há nenhum jogador declaradamente gay no futebol brasileiro. Não há um ídolo declaradamente gay entre os 20 times da primeira divisão. Você, homem ou mulher, que adora chamar cruzeirense de maria ou atleticano de franga, realmente acha que um gay nunca vestiu as cores do seu time?

Contente-se com a realidade. É bem provável que você já tenha comemorado gols de um artilheiro que prefere homens a mulheres, embora atitudes machistas como a sua contribua para a perpetuação da cultura repressora que se estende do vestiário às arquibancadas.

No ano passado, entrevistei um dos diretores de uma organizada do Cruzeiro. O sujeito disse que em nenhuma hipótese aceitaria um homossexual jogando pelo clube. Imagina o preço a ser pago pelo jogador que resolva sair do armário? Vai pagar com a reputação? Com a carreira? Com a própria vida?

Em um cenário em que “torcedores” ainda são capazes de matar outro apenas por envergar uma camisa diferente da sua, e em que gays continuam sendo diariamente agredidos e achincalhados por religiosos extremistas e “homens de bem” de todos os cantos, não é de se esperar algo diferente.

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“Ah, mas não é homofobia chamar um heterossexual de gay!”

Depois de muitos anos, torcedores do Grêmio, pelas vias tortas do caso Aranha, perceberam que chamar o rival de “macaco”, não importa a cor de sua pele, é um gesto racista. Organizadas do clube baniram o termo de seus cânticos. Em Minas, a música que embalou a conquista da Copa do Brasil pelo Atlético começa com “maria”. Alguns jornais, inclusive, reproduzem a expressão como se fosse algo inofensivo, normal. Não é.

Nossos netos e bisnetos um dia vão olhar para trás e sentirão vergonha do período em que vivemos, assim como hoje nos envergonhamos – embora alguns não pareçam se envergonhar – da escravidão. Ainda nos envergonharemos de piadas sem graça e dos gritos de “bicha” no estádio.

Em setembro, o STJD abriu inquérito para investigar os cânticos homofóbicos das torcidas de Corinthians e São Paulo no último clássico. Ninguém foi punido ou denunciado. Mas, ainda que vagarosamente, parte da sociedade começa a se posicionar contra o viés preconceituoso acobertado pelo futebol.

Por mais que se tente negar, justificar ou atribuí-los ao vocabulário politicamente incorreto do torcedor, termos como “maria”, “rosana”, “franga” e “lurdinha”, todos eles, independentemente do lado, têm conotação homofóbica.

Aproveite o Natal para refletir, para se tocar da realidade de privações e preconceitos que homossexuais encaram no dia a dia até serem inferiorizados, de graça, em nome de provocações tolas camufladas na rivalidade.

Aproveite a virada do ano para evoluir e tirar sarro do rival sem que sua provocação desdenhe da orientação sexual do outro. Estamos quase em 2015. E agora, José?

Imagem de capa: Galo Queer


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Atlético-MG, PLACAR

Um chutão na intolerância

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Galo Queer. É esse o nome do movimento encabeçado por torcedores do Atlético-MG para combater a homofobia e o sexismo na torcida alvinegra, nos estádios, no futebol, enfim.

O esporte mais popular do país é historicamente machista e preconceituoso em todos os rincões do mundo. Não se trata de um produto tipicamente brasileiro – o jogador norte-americano Robbie Rogers preferiu abandonar a carreira a lutar contra a discriminação depois de se assumir homossexual em fevereiro –, mas deveria nos encher de vergonha.

Muitos torcedores atleticanos, porém, não se envergonham em descer a bronca na página do movimento no Facebook. Recusam-se a aceitar que a homofobia se expressa em pequenos atos cotidianos, que os tempos mudaram, que todos deveriam ter direitos e deveres iguais. Fecham os olhos para o preconceito nosso de cada dia e relativizam o fato de se referirem aos rivais cruzeirenses como “marias”.

Preciosismo do politicamente correto? Talvez, se não houvesse gente que ainda luta pelo direito legítimo de poder se casar com uma pessoa do mesmo sexo, se não houvesse gente vista como descendente de uma maldição por alguns religiosos, se não vivêssemos em uma sociedade tão intolerante.

Richarlyson, jogador que representa o Atlético, dos preconceituosos aos corajosos apoiadores da Galo Queer, sente na pele a dor de um ódio inexplicável. Nunca se declarou homossexual, pelo contrário, mas é alvo constante de piadas de rivais e, na época em que atuava pelo São Paulo, era ofendido por torcedores do próprio time e até por dirigentes.

Pioneira, Galo Queer quer estender bandeira da diversidade nos estádios
Pioneira, Galo Queer quer estender bandeira da diversidade nos estádios

Para um indivíduo ser tratado como “gay” perante os outros é preciso o atestado da autodeclaração, não o das aparências, evidências ou quaisquer diagnósticos alardeados por terceiros. Não é o caso de Richarlyson. E se fosse? O que a orientação sexual interferiria em seu desempenho em campo?

O gaúcho Vilson Zwirtes foi o primeiro jogador profissional a se assumir homossexual no Brasil. Ele chegou a atuar três temporadas pelo Lajeadense. Hoje aos 33 anos, o atacante joga somente em times amadores do interior do Rio Grande do Sul. Em depoimento ao blog, ele conta o que o levou a revelar sua orientação sexual.

“Existem vários homossexuais no futebol, mas eles não se assumem por medo, ficam trancados no armário. Eu dei a cara à tapa para tentar quebrar o preconceito que existe no meio.”

A edição de PLACAR deste mês traz uma longa apuração sobre casos de violência sexual no futebol. Mais especificamente nas categorias de base. As vítimas são crianças e adolescentes. Marcelo, goleiro do Atlético em 2010, foi um dos jogadores ouvidos na reportagem.

Em 2005, em uma entrevista coletiva no Corinthians, ele revelou ter sido assediado na base do Vasco, aos 12 anos. Depois da revelação, em vez de receber apoio dos companheiros de clube, virou motivo de piada.

“Fui zoado pra caramba. Os caras pensaram que ele [o preparador de goleiros que o assediou] quis me comer. Mas, na verdade, ele queria que eu o comesse”, contou à PLACAR.

Um dos principais motivos para que casos de abuso sexual no futebol permaneçam cada vez mais velados é a homofobia enraizada nos campos e vestiários. Com medo de que duvidem de sua masculinidade, garotos abusados na base sofrem em silêncio, enquanto molestadores se aproveitam da atmosfera machista para reinarem impunes.

Que iniciativas como a Galo Queer abram os olhos de quem ainda não percebeu que futebol é amor à camisa, ao jogo sagrado e, por que não, à diversidade.

ATUALIZAÇÃO: 12/4, 14h16

E depois da Galo Queer…

* Cruzeiro Anti-homofobia

* Palmeiras Livre

* Corinthians Livre

* Bambi Tricolor