Cruzeiro, Mineirão

O churrasco que mudou o destino de Alex

Em uma carta escrita ao ótimo blog Trem Azul, do ESPN FC, o ex-meia Alex relembra um dos episódios mais frustrantes de sua carreira: a dispensa do Cruzeiro, em 2001.

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“Para ‘ajudar’, o Cruzeiro espera até o último dia de férias para, num gesto covarde, o mais covarde que sofri no futebol, me mandar embora pelo telefone. Sem ao menos me dar o direito de pegar minhas coisas e me despedir dos companheiros”, contou o agora comentarista da ESPN Brasil, que fará um jogo de despedida com a camisa celeste neste sábado, no Mineirão.

O que pouca gente sabe é que um churrasco na concentração do Palmeiras, alguns meses antes desse episódio, e a preferência de um treinador rancoroso por outro camisa 10 teriam sido os verdadeiros motivos da demissão de Alex.

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Foi o próprio ex-jogador quem revelou sua versão da história à PLACAR , em 2013, quando ainda defendia o Coritiba. Uma ironia do destino que, nas palavras de Alex, acabou sendo decisiva para sua volta ao clube estrelado e para o seu “melhor ano”:

“O único problema que eu tive com treinador no Brasil foi com o Marco Aurélio, no Cruzeiro. O Marco tinha sido meu treinador no Palmeiras, no começo de 2001. Quando eu saí do Flamengo e voltei para o Palmeiras, ele não me queria. Queria o Adrianinho, da Ponte Preta, que também era camisa 10 e tinha sido atleta dele. Como eu havia jogado no Palmeiras seis meses antes, e o Palmeiras ganhou tudo, o Mustafá [Contursi, ex-presidente] bancou minha volta e passou por cima do Marco, que acabou ficando pouco tempo no clube.

Ele saiu com o sentimento de que Argel, Galeano, Marcão e eu o derrubamos. Teve um treino em Jarinu e, depois da atividade, fizemos um churrasco. Veio a notícia de que o Marco Aurélio tinha caído. Mas o churrasco continuou… Não tinha motivo pra não continuar. E ele entendeu que nós quatro pedimos a cabeça dele ao Mustafá. Eu conversei com o Mustafá quatro vezes na minha vida. Todas as quatro para assinar contrato com o Palmeiras. Depois, nunca mais o vi. Dos presidentes de clube que eu tive, foi o que eu menos encontrei. O que Marco imaginou não tinha lógica.

Passaram-se seis meses e eu fui para o Cruzeiro, contratado pelo Carpegiani. Ele caiu, veio o Ivo Wortmann, que também caiu. E depois, veio quem? O Marco Aurélio. O último jogo do Brasileiro seria contra o Inter, para cumprir tabela. O Marco disse pra eu sair de férias, disse que contava comigo para a próxima temporada. Maravilha. No embarque para a reapresentação, toca o meu telefone e o meu advogado falou assim: ‘Alex, não vai pra Minas porque o Cruzeiro te mandou embora. Não querem nem que você se reapresente’. Depois, o Eduardo Maluf [ex-diretor de futebol] me disse que o pessoal tinha feito uma reunião e chegou à conclusão de que não contaria mais comigo. E não quis nem me receber para rescindir o contrato.

 

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Alex comemora gol com Luxemburgo em 2003. Técnico bancou seu retorno à Toca

Não falei com o Marco, nem com os Perrellas. Mas, para mim, quem me mandou embora foi o Marco [No fim do ano passado, o técnico, que atualmente está sem clube, afirmou que não teve influência na demissão de Alex]. Só voltei ao Cruzeiro em 2002 porque o [Vanderlei] Luxemburgo era o treinador. Foi ele quem me bancou. Eu saí fritado do clube. Ninguém me queria de volta. Nem torcedor, nem diretoria. Só o Luxemburgo. Acabou que a temporada seguinte foi uma das mais vitoriosas da minha carreira e a que eu mais joguei bola. Na Turquia, eu joguei muito. Mas, de lembrança para o torcedor brasileiro, 2003 foi meu melhor ano.”

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Cruzeiro

Tinga dá a volta por cima

PLACAR CRUZEIRO 2014

O jogo contra o Real Garcilaso ficará marcado para sempre na história de Tinga. Não como um trauma, por causa dos grunhidos de macaco que ouvia da torcida peruana cada vez que tocava na bola. Mas pela virada que o episódio representou em sua vida.

Tinga, além de atleta, tornou-se um militante. Criou a campanha “Chutando o preconceito” e aproveitou o período em tratamento após sofrer uma grave fratura na perna direita para percorrer o país levantando suas bandeiras contra o racismo, a intolerância e a desigualdade social.

Recuperado, hoje o volante completa 37 anos. Ele comemora o aniversário fazendo o que mais gosta: jogando futebol.  Um ser humano que não nega suas origens, seus traços, muito menos a responsabilidade que carrega como jogador.

“Não encaro a vida com revanchismo”

 

Racismo existe desde o tempo do Pelé e antigamente. Hoje aparece mais por causa da tecnologia, da mídia. Antes o futebol não tinha tanta visibilidade. Aconteceu comigo no Peru e acabou se tornando um marco. Mas não gosto de falar só de racismo. Parece que a gente tá defendendo a própria causa. Só que a violência, a falta de educação, a questão do preconceito como um todo nos estádios, a gente acha tudo normal. Aí vêm dizer: “Ah, é coisa do esporte, fulano não sabe levar na esportiva”. Não, não existe isso. O preconceito está em todos os lugares, mas no futebol, que envolve muita paixão, a coisa pega mais. Esse negócio de estádio novo, arena daqui, arena dali, bah… O pessoal tá achando que é arena de batalha, de vale-tudo.

***

Não mudou nada em relação ao que era no passado. O torcedor ainda acha que pode fazer tudo no estádio. Acha que violência vale, que pode dizer qualquer tipo de palavra. E é todo mundo: criança, adulto, homem, mulher, rico, pobre. Xinga jogador, xinga juiz. Como se fosse outro mundo, com suas próprias regras. Falta o torcedor entender que, dentro de um estádio, a gente tem de ser o que somos em casa, na rua ou no trabalho.

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O futebol, por ser o esporte de massa do Brasil, deveria se envolver mais socialmente. Ninguém tem o espaço de mídia que tem o jogador. Gratuito! O ator passa na televisão, mas na novela ele interpreta, não é quem ele realmente é. Já o jogador está o tempo todo ali, ao vivo, diante de um microfone, de uma câmera. Se ele quiser se articular, consegue passar muitas mensagens pra ti. Nós, atletas, precisamos ser mais ligados. Nosso universo é fora do normal. Apenas 5% dos jogadores vivem bem. O resto corre atrás de ilusão. Mas esses 5%, que estão em times de ponta, têm muito conformismo. Parece que, se tá bom pra gente, tá bom pra todo mundo. Daqui a pouco o sucesso passa e o jogador também vai deparar com os problemas. Já evoluímos nesse ponto, mas podemos colaborar mais com a sociedade.

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PLACAR CRUZEIRO 2014

Não encaro a vida com revanchismo. Racismo existe, claro. Mas a diferença do Nelson Mandela para os outros foi essa. Ele mudou a história da África do Sul sem caça às bruxas, sem impor outro tipo de segregação. Você nunca vai me ver cobrando punição a ninguém. Não quero saber se puniram o time em 30, 40.000, 1 milhão de reais… Para mim, punição de verdade é fazer o clube se envolver em uma causa, botar uma mensagem na camisa. Aí talvez daria mais prejuízo financeiro do que pagar multa. Quer evoluir? Quer conscientizar? Existem várias maneiras, mas não é dinheiro que vai mudar.

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Vários outros jogadores de ponta já tinham sido vítimas de racismo na Europa. Eu acho que meu caso repercutiu tanto por causa da minha reação. Seria natural que eu saísse de campo xingando, que ameaçasse não jogar mais, que eu tirasse a camisa, que eu me revoltasse. Felizmente eu tive a sorte de, em três segundos, que foi praticamente o tempo entre o juiz apitar o fim do jogo e um repórter chegar com o microfone em minha boca, dar a melhor resposta: “Eu trocaria todos os meus troféus pela igualdade”. Isso é o que marcou. Palavras comovem, mas o que arrasta a multidão são atitudes.

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Muita gente se espantou com meu esclarecimento sobre a questão. Mas não é de hoje que eu me preocupo com as causas sociais. Há 12 anos, me envolvi em meu primeiro projeto social, com o Dunga, na Restinga, o bairro onde eu nasci. Isso vem de muito tempo. No dia em que eu cheguei à Toca, perguntei quantos funcionários tinha. Gosto de ajudar em todos os clubes. Aí me falaram que eram 40. Eu falei p… que pariu! Mas não desanimei. Faço uma cesta básica para cada um. Outros jogadores gostaram da ideia e já ajudam também. A gente sempre pode fazer algo mais.

***

Eu tive o azar de quebrar a perna, mas creio que foi Deus quem preparou isso para mim. Não é de hoje que eu me preocupo com as causas sociais. Muito antes de surgir o “Chutando o preconceito” eu já fazia projetos nas comunidades de Porto Alegre. Viajei muito nesses três meses, 70% dos debates eram sobre a questão racial. Estou fazendo algo que nunca imaginei. Levantando discussões, uma causa, uma campanha que extrapola o futebol. A gente tem mania de definir as pessoas com os olhos. Isso é o que precisa mudar, cara. Mas ainda leva tempo.

***

Olha, um dia me chamaram para falar sobre racismo e, no fim, era pra gravar um clipe. E nem música de cunho social era. Cara, não faço. Eu tomo muito cuidado. Não quero aparecer, não quero me promover. Quando a presidente Dilma me convidou para uma conversa, ela contou sobre as campanhas que fariam na Copa do Mundo. Uma delas era “Diga não ao racismo”. E eu sugeri que fosse “Diga não preconceito”, que abrangeria uma causa ainda maior. Ela ficou impressionada. Se engana quem pensa que essa luta é para me beneficiar. É, na verdade, por quem é subjugado por causa da cor, do peso, da orientação sexual. O futebol me deu muitas coisas, mas eu tenho amor por servir, por fazer as coisas não para mim, mas para o outro.


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Cruzeiro, Libertadores

O homem por trás do bigode

Willian Bigode Cruzeiro

Carlos Drummond de Andrade diria que “o homem atrás do bigode é sério, simples e forte”. O verso de uma das obras mais famosas do poeta mineiro serviria como descritivo perfeito para Willian, sobretudo depois de uma temporada repleta de provações.

Em pelo menos cinco jogos do Brasileirão, ele jogou no sacrifício por causa de uma lesão no púbis.

“No estágio em que eu mais senti dor, não tínhamos tantas peças de reposição, porque outros jogadores também estavam machucados.”

O atacante cruzeirense ainda sofreu uma fissura na costela no jogo de ida contra o Santos, pela Copa do Brasil, mas, em uma semana, já estava em campo novamente pela partida de volta, na Vila Belmiro. Marcou dois gols que decretaram a classificação celeste para a final.

“Senti tanta dor no primeiro dia que nem dormi. Mas em momento algum eu pensei em ficar fora do time. Me empenhei no tratamento e consegui dar minha contribuição.”

Hoje tricampeão brasileiro (dois títulos pelo Cruzeiro e um pelo Corinthians), Willian celebra a renovação de contrato e a identificação com o clube, sua principal motivação para encarar as dores no campo, e não no departamento médico.

“Depois do jogo contra o Goiás, eu brinquei com o Dago, que é penta: ‘Eu vou chegar, hein?’ Não é fácil ser campeão brasileiro. Aprendi isso no Corinthians. Mas é uma meta que me motiva, assim como o apoio de todos os torcedores. Sempre fui tratado com muito carinho nos clubes em que joguei, mas aqui no Cruzeiro é uma coisa mais forte.”

PLACAR CRUZEIRO 2014

Além da raça e de gols decisivos, um amuleto felpudo no rosto o distingue dos demais…

“O bigode marcou, né? Todo mundo que me vê na rua grita: ‘Ô, Willian Bigode!’. Mas o que tem por trás do bigode, minha entrega, minha disposição, é o que faz a diferença.”

A ambição é proporcional à fama de um dos últimos bigodudos do futebol brasileiro – só por isso o moço já mereceria todo respeito.

“O objetivo agora é ganhar mais títulos, como a Libertadores e a Copa do Brasil. Aqui no Cruzeiro temos qualidade, vontade e organização. O ano de 2014 foi muito bom, mas tenho certeza de que 2015 será ainda melhor.”


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Atlético-MG, Cruzeiro

Precisamos falar sobre homofobia

Por Breiller Pires

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Provocações com contornos discriminatórios enrustidas em apelidos jocosos como “maria”, “franga”, “bambi” e “bicha” são usadas e banalizadas por diversas torcidas. Mas pode-se dizer que o futebol em Minas Gerais “bolsonarizou”.

Curiosa e preocupante a guinada homofóbica dos últimos anos no estado, ironicamente conhecido como um dos mais acolhedores do país. “Bolsonarizar” é ignorar que preconceitos existem e que, a essa altura do campeonato, não podem mais ser encarados com normalidade.

Ignoramos os fatos: não há nenhum jogador declaradamente gay no futebol brasileiro. Não há um ídolo declaradamente gay entre os 20 times da primeira divisão. Você, homem ou mulher, que adora chamar cruzeirense de maria ou atleticano de franga, realmente acha que um gay nunca vestiu as cores do seu time?

Contente-se com a realidade. É bem provável que você já tenha comemorado gols de um artilheiro que prefere homens a mulheres, embora atitudes machistas como a sua contribua para a perpetuação da cultura repressora que se estende do vestiário às arquibancadas.

No ano passado, entrevistei um dos diretores de uma organizada do Cruzeiro. O sujeito disse que em nenhuma hipótese aceitaria um homossexual jogando pelo clube. Imagina o preço a ser pago pelo jogador que resolva sair do armário? Vai pagar com a reputação? Com a carreira? Com a própria vida?

Em um cenário em que “torcedores” ainda são capazes de matar outro apenas por envergar uma camisa diferente da sua, e em que gays continuam sendo diariamente agredidos e achincalhados por religiosos extremistas e “homens de bem” de todos os cantos, não é de se esperar algo diferente.

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“Ah, mas não é homofobia chamar um heterossexual de gay!”

Depois de muitos anos, torcedores do Grêmio, pelas vias tortas do caso Aranha, perceberam que chamar o rival de “macaco”, não importa a cor de sua pele, é um gesto racista. Organizadas do clube baniram o termo de seus cânticos. Em Minas, a música que embalou a conquista da Copa do Brasil pelo Atlético começa com “maria”. Alguns jornais, inclusive, reproduzem a expressão como se fosse algo inofensivo, normal. Não é.

Nossos netos e bisnetos um dia vão olhar para trás e sentirão vergonha do período em que vivemos, assim como hoje nos envergonhamos – embora alguns não pareçam se envergonhar – da escravidão. Ainda nos envergonharemos de piadas sem graça e dos gritos de “bicha” no estádio.

Em setembro, o STJD abriu inquérito para investigar os cânticos homofóbicos das torcidas de Corinthians e São Paulo no último clássico. Ninguém foi punido ou denunciado. Mas, ainda que vagarosamente, parte da sociedade começa a se posicionar contra o viés preconceituoso acobertado pelo futebol.

Por mais que se tente negar, justificar ou atribuí-los ao vocabulário politicamente incorreto do torcedor, termos como “maria”, “rosana”, “franga” e “lurdinha”, todos eles, independentemente do lado, têm conotação homofóbica.

Aproveite o Natal para refletir, para se tocar da realidade de privações e preconceitos que homossexuais encaram no dia a dia até serem inferiorizados, de graça, em nome de provocações tolas camufladas na rivalidade.

Aproveite a virada do ano para evoluir e tirar sarro do rival sem que sua provocação desdenhe da orientação sexual do outro. Estamos quase em 2015. E agora, José?

Imagem de capa: Galo Queer


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Atlético-MG, Cruzeiro, Mineirão

Crime e castigo

Me desculpe, atleticano. Me desculpe, cruzeirense. Mas tenho de ser franco com você. Aliás, tendo a ser pouco complacente com esse hábito secular de transferir responsabilidades. Na política funciona assim.

Se o país vai mal, culpa dos políticos. Acobertamos nossos pequenos desvios do dia a dia, mas nos revoltamos com a corrupção de quem comanda, legisla ou governa. Reclamamos da falta de propostas nos debates eleitorais, mas não nos importamos em descer o nível nas conversas de boteco ou nas redes sociais, divagando entre o suposto vício alheio e a Intentona Neocomunista.

Representantes, públicos ou não, se espelham e balizam seu comportamento em nossas atitudes. Cartolas de futebol agem da mesma maneira. O que os presidentes Alexandre Kalil e Gilvan de Pinho Tavares fizeram com a maior decisão de todos os tempos entre Atlético e Cruzeiro é um crime, um profundo desrespeito com os mineiros que amam futebol.

Preços abusivos nos dois jogos, total descompromisso com o espetáculo, a falta de bom senso de ambas as partes nas negociações. Independentemente do vencedor, o clássico dos clássicos está manchado por dirigentes que se comportam como torcedores.

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Por isso, a culpa é sua, torcedor. O futebol no Brasil está longe de ser profissional. Empresários bem sucedidos que se aventuram pela presidência de clubes metem os pés pelas mãos, movidos por paixão, assim como você.

Você, atleticano, que vibrou com cada declaração estúpida e populista de Kalil antes do primeiro jogo da final. Você, cruzeirense, que comemorou como um gol do Marcelo Moreno o troco de Gilvan ao inflar o ingresso do adversário ao valor estapafúrdio de 1.000 reais.

Você, que deixa seu time em segundo plano para torcer por dirigente, por torcida organizada ou apenas pelo fracasso do rival. Que engole bravatas, se cala diante do descontrole da cartolagem e não cobra que sócios tenham direito a voto no clube, mas agora está indignado por ter ficado fora da festa.

A eleição não dividiu o país. Mas a final da Copa do Brasil rachou Minas Gerais. Entre dirigentes com fama de espertos e torcedores com cara de palhaço.


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Atlético-MG, Cruzeiro, Mineirão

O Brasil se curva a Minas. Bairrismo de quem?

Pela primeira vez, Atlético e Cruzeiro decidem um título nacional. Não só pela final da Copa do Brasil, mas também pelas campanhas notáveis nos últimos dois anos, os gigantes mineiros estão na vanguarda do futebol brasileiro.

E o reconhecimento vem de todos os cantos do país. Imprensa e dirigentes de outros estados têm destacado o planejamento, a estrutura, os CT’s de grife internacional, a eficiência e a garra dos times de Minas Gerais, que hoje são exemplos para muitos clubes.

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Na semifinal, o Cruzeiro sofreu com um gol anulado no primeiro jogo e, em Santos, com a marcação de um pênalti questionável. Ignorou erros de arbitragem, evitou a vitimização e se impôs para garantir uma classificação dramática.

Já o Atlético superou o trauma de eliminações – no apito e na bola – para o Flamengo. Em vez de queixar-se do pênalti e de uma não expulsão rubro-negra no Maracanã, o time alvinegro se mobilizou para carimbar em sua história mais uma virada heroica, repetindo o roteiro de três semanas atrás diante do Corinthians.

Cruzeiro e Atlético em uma final de Copa do Brasil serve para exorcizar um fantasma que assombra o torcedor mineiro: o eixo Rio-São Paulo, o “eixo do mal”. Resquícios de um tempo em que árbitros de fato pendiam para paulistas ou cariocas alimentaram ao longo de quase uma década a desculpa dos cartolas mineiros para a seca de títulos importantes no cenário nacional.

Endossados pela ala condescendente e provinciana da imprensa mineira, que usa de hipocrisia para negligenciar interesses comerciais dos meios de comunicação e só enxerga o bairrismo dos outros, dirigentes de Minas se habituaram a mascarar os próprios erros para vender teorias conspiratórias como engodo à desilusão dos torcedores. Como se capas de jornais ganhassem jogos.

Em 2011, a dupla afundou de mãos dadas. Flertou com o rebaixamento durante boa parte do Brasileiro. O clube celeste só escapou na última rodada com o 6 x 1 sobre o rival. Um fim de temporada melancólico para o futebol mineiro.

Naquela época, a desculpa não era a incompetência de um Atlético que contratava a granel ou de um presidente que havia abandonado o Cruzeiro em favor do Senado, mas sim o conluio da CBF com o “eixo do mal” que, além do apito-amigo, havia deixado os mineiros sem casa por causa da Copa do Mundo – como se ambos não tivessem se curvado à resolução do governo estadual que interditou os dois estádios da capital ao mesmo tempo.

Três anos depois, Cruzeiro e Atlético agora contam com dois estádios modernos e antológicos como trunfo. Ganharam Libertadores e Brasileiro. Deixaram de embarcar na falácia da conspiração, do “nós contra o resto”, da rivalidade de comparação que só os empurrava para baixo. Passaram a olhar para dentro, a reconhecer e corrigir as falhas. Passaram a pensar como times grandes.

A final mineira é um presente ao bom futebol, à vocação de Minas ao protagonismo. E também uma pá de cal sobre o bairrismo às avessas que por pouco não enterrou atleticanos e cruzeirenses no campo das lamentações.


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Cruzeiro, Libertadores

Os cinco pecados da constelação

Esqueça o Papa e seus milagres. O Cruzeiro, apesar do elenco estrelado, favoritíssimo depois da queda dos concorrentes brasileiros, tropeçou nas próprias pernas ao deixar o tri da Libertadores escapar em casa.

Por partes:

* DEDÉ: 8 OU 80
Ao contrário de Bruno Rodrigo, discreto, regular e eficiente, Dedé chamou a atenção pelo estilo espalhafatoso, para o bem e para o mal. Ora surpreendendo no ataque, como no gol salvador que marcou sobre o Cerro Porteño, ora vacilando lá atrás.

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Contra o San Lorenzo, uma falha no jogo de ida e outra por se afobar no lance que resultou no gol de Piatti. Perdeu a vaga na Copa e a segurança na defesa, o maior capital de um zagueiro. Inconstância que custou caro, ao time e aos cofres do clube.

* JOGAI POR ELES
Alguns jogadores atribuíram a eliminação à falta de ímpeto fora de casa. Na verdade, inclusive nos jogos no Mineirão, o Cruzeiro deixou os adversários tomarem a iniciativa. Postura conservadora, totalmente distinta do ano passado. A equipe confiou demais no empurrão da torcida, que, de fato, compareceu e apoiou.

Cruzeiro 5 x 1 LaU

Mas dessa vez não converteu o grito das arquibancadas em imposição no campo. Apesar da invencibilidade, foram três empates no Mineirão. Todos com sabor de derrota, sobretudo o último, diante dos argentinos.

* QUEM É QUE SOBE?
Se há uma palavra que define a formação celeste em 2014 é… indefinição. Quais são volantes? Qual o desenho do ataque? Quem faz o centroavante? Marcelo Oliveira não tem convicção sobre seu time ideal. Mexeu várias vezes na dupla de volantes, engrenagem da campanha do tri. Não encontrou um centroavante capaz de aplacar a temporada de Borges no estaleiro.

Marcelo Oliveira, head coach of Brazil's Cruzeiro gives instructions to his players during their Copa Libertadores soccer match against Uruguay's Defensor Sporting in Montevideo

No ano passado, até o torcedor mais incauto sabia quem fazia o quê no gramado. Hoje, o time é menos equilibrado: enquanto alguns jogadores acumulam funções, outros, como Julio Baptista, estão perdidos.

* CARGA PESADA
Julio Baptista já atuou como centroavante, meia-armador e aberto pelas pontas. Em nenhuma das posições, mesmo quando joga bem, conseguiu se entender com os companheiros de frente.

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Mais lento que os demais, costuma retardar contra-ataques e, quando volta para buscar jogo, causa um rebuliço desembestado no meio. Coincidência ou não, desde que ele começou a frequentar o time titular, a bola dos outros craques murchou.

* O TRIO DO TRI
Ricardo Goulart, Everton Ribeiro e Willian foram determinantes para o título brasileiro. Mas, nessa Libertadores, os três caíram de produção. Marcelo Oliveira fez o Cruzeiro se adaptar a Julio Baptista, não o inverso.

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E os homens de frente sentiram a diferença. Maestro de 2013, Everton Ribeiro, mais sobrecarregado na marcação, ainda não encantou nesta temporada.


Vale lembrar, porém, que foi justamente após a queda inesperada para o Flamengo no ano passado que o Cruzeiro arrancou para o tricampeonato nacional.

Ainda há uma nova motivação: a chance de conquistar a Tríplice Coroa, como em 2003.

Apesar da frustração de torcida e diretoria ao ver o time falhar no principal objetivo da temporada, o Cruzeiro está longe de crise ou desmanche.

Com ajustes e outro voto de confiança – principalmente no trabalho de Marcelo Oliveira – o melhor e mais valioso elenco da Libertadores tem todas as credenciais para reafirmar a soberania em terras nacionais.


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