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De Perrella a Kalil: uma lição mal compreendida pelo eleitor que age como torcedor

Para início de conversa, transformar cartolas folclóricos em políticos contestáveis não é um fenômeno exclusivo de Minas Gerais. Eurico Miranda, no Rio de Janeiro, e Andrés Sanchez, em São Paulo, também se aproveitaram de sua popularidade entre torcedores para se eleger. Mas Alexandre Kalil e Zezé Perrella são o exemplo perfeito de como o futebol se mistura com a política e ajuda a cegar o eleitor.

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A trajetória de ambos é bem parecida. Perrella entrou para o cenário político como deputado e, em 2010, deixou o Cruzeiro à deriva para ocupar o posto de senador deixado por Itamar Franco. Três anos depois, já assentado como um dos maiores representantes da bancada da bola, trabalhou na surdina para livrar a CBF da CPI do Futebol. No entanto, depois da prisão de José Maria Marin pelo FBI, virou a casaca e votou pela abertura da CPI.

Antes de abandonar o Cruzeiro, Zezé usou o clube como plataforma eleitoral para o filho Gustavo Perrella – o mesmo que empregava o piloto do helicóptero com 445 kg de cocaína –, que acabou eleito deputado estadual e hoje é Secretário Nacional do Futebol. Na longa jornada à frente da equipe celeste, ganhou títulos, mas viu seu reinado terminar com um rombo de 30 milhões de reais e uma dívida de 112 milhões.

Já Alexandre Kalil ensaiou sua incursão na política ao filiar-se ao PSB em 2013. Chegou a se candidatar a deputado federal há dois anos e fez até logomarca inspirada no escudo do Atlético, mas desistiu do pleito alegando que não nasceu para ser político, embora tenha utilizado o clube para ajudar a eleger vereador o atual presidente alvinegro Daniel Nepomuceno – que, aliás, é um dos mais faltosos da atual legislatura na Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte.

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Em março deste ano, Kalil filiou-se ao PHS mineiro, que é liderado pelo deputado federal Marcelo Aro, responsável por conceder o título de cidadão honorário de BH a Eduardo Cunha quando era vereador da cidade. Aro faltou à sessão na Câmara dos Deputados que cassou o mandato de Cunha, investigado por corrupção pela Operação Lava Jato. Ainda assim, Kalil repete a todo momento que não é político, como se o partido de Aro, grande admirador de Eduardo Cunha, não estivesse por trás de sua candidatura à prefeitura de BH.

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Marcelo Aro, amigo e defensor de Eduardo Cunha, Alexandre Kalil e Daniel Nepomuceno

Marcelo Aro também é diretor de ética e transparência da CBF. O atual mandatário da confederação, Marco Polo Del Nero, e os ex-presidentes Ricardo Teixeira e José Maria Marin foram indiciados pelo FBI por suspeita de corrupção. A histórica oposição à CBF não impediu que Kalil fosse um forte aliado de Marin, hoje preso nos Estados Unidos. “Do presidente José Maria Marin, eu sempre recebi deferência e atenção. E dou a ele deferência e atenção. Em tudo que eu precisei, mesmo quando não conseguiu, ele tentou me ajudar”, disse o então presidente do Atlético.

Em 2013, antes de se candidatar à prefeitura, Alexandre Kalil afirmava que não pediria voto a cruzeirenses. Agora, às vésperas da eleição, diz contar com “o voto de todos”. Típica contradição de político. Mas Kalil segue se apresentando como contraponto à “velha política”. Todo candidato a cargo público é um político por natureza e não há nada de errado nisso. Negar a condição de político não passa de um engodo, um desserviço à democracia, ainda mais partindo de um candidato pelo partido que não teve pudores ao defender ninguém menos que Eduardo Cunha.

Kalil se apoia em sua imagem como gestor, que, na verdade, é bem menos edificante que o mito reverenciado pelo torcedor atleticano. Uma das empresas do cartola-candidato deve mais de 100.000 reais de IPTU e 2 milhões de reais à iniciativa privada, de acordo com o jornal Hoje em Dia. Kalil tergiversou: “Sou empresário, devo, não me envergonho. Vou resolver”. No Atlético, apesar de ter conquistado o título inédito da Libertadores, o dirigente viu a dívida do clube aumentar em 128 milhões de reais durante sua administração. Ele alega que a receita cresceu no mesmo compasso. No entanto, Kalil cometeu o pecado da “velha cartolagem”: gastar mais do que arrecada. Alheio às gestões temerárias e dívidas alavancadas sob sua batuta, Kalil continua tentando se vender ao eleitor como bom administrador.

Administrador que nega a política. Mas foi capaz de sentar à mesa do maior rival, Zezé Perrella, para apoiar a candidatura de Antonio Anastasia ao governo de Minas, em 2010. “Porque Anastasia tá com Aécio [Neves] desde o primeiro dia”, justificou o atleticano ao incorporar o papel de militante do governador tucano. Hoje, entretanto, Kalil teima em bradar que não tem nada a ver com a “velha política”.

Kalil e Perrella são mais parecidos do que o torcedor imagina. Muitos atleticanos lembram aos cruzeirenses que têm todo o direito de votar em Kalil, pois teriam sido eles, do lado azul, os responsáveis por elegerem Perrella, numa espécie de revanche fora dos gramados. Mesmo com 11 candidatos no pleito, outros insistem em dar o voto clubístico por suposta escassez de boas opções. Um cenário de descrença política turbinada pelo discurso hipócrita do ex-dirigente que rejeita o rótulo de político.

O voto em figuras ligadas a clubes de futebol, sem nenhuma atividade pública relevante além da cartolagem, como Kalil e Perrella, representa a falta de esperança na política – que deve ser monitorada e aprimorada, não demonizada. Tal qual Perrella, Kalil representa a velha política dos cartolas. Populista, demagoga, contraditória e vazia. A rivalidade cega o bom senso. Porém, o eleitor deveria pensar duas vezes antes de se comportar como torcedor, sobretudo de dirigente.

Atlético-MG, Cruzeiro

Precisamos falar sobre homofobia

Por Breiller Pires

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Provocações com contornos discriminatórios enrustidas em apelidos jocosos como “maria”, “franga”, “bambi” e “bicha” são usadas e banalizadas por diversas torcidas. Mas pode-se dizer que o futebol em Minas Gerais “bolsonarizou”.

Curiosa e preocupante a guinada homofóbica dos últimos anos no estado, ironicamente conhecido como um dos mais acolhedores do país. “Bolsonarizar” é ignorar que preconceitos existem e que, a essa altura do campeonato, não podem mais ser encarados com normalidade.

Ignoramos os fatos: não há nenhum jogador declaradamente gay no futebol brasileiro. Não há um ídolo declaradamente gay entre os 20 times da primeira divisão. Você, homem ou mulher, que adora chamar cruzeirense de maria ou atleticano de franga, realmente acha que um gay nunca vestiu as cores do seu time?

Contente-se com a realidade. É bem provável que você já tenha comemorado gols de um artilheiro que prefere homens a mulheres, embora atitudes machistas como a sua contribua para a perpetuação da cultura repressora que se estende do vestiário às arquibancadas.

No ano passado, entrevistei um dos diretores de uma organizada do Cruzeiro. O sujeito disse que em nenhuma hipótese aceitaria um homossexual jogando pelo clube. Imagina o preço a ser pago pelo jogador que resolva sair do armário? Vai pagar com a reputação? Com a carreira? Com a própria vida?

Em um cenário em que “torcedores” ainda são capazes de matar outro apenas por envergar uma camisa diferente da sua, e em que gays continuam sendo diariamente agredidos e achincalhados por religiosos extremistas e “homens de bem” de todos os cantos, não é de se esperar algo diferente.

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“Ah, mas não é homofobia chamar um heterossexual de gay!”

Depois de muitos anos, torcedores do Grêmio, pelas vias tortas do caso Aranha, perceberam que chamar o rival de “macaco”, não importa a cor de sua pele, é um gesto racista. Organizadas do clube baniram o termo de seus cânticos. Em Minas, a música que embalou a conquista da Copa do Brasil pelo Atlético começa com “maria”. Alguns jornais, inclusive, reproduzem a expressão como se fosse algo inofensivo, normal. Não é.

Nossos netos e bisnetos um dia vão olhar para trás e sentirão vergonha do período em que vivemos, assim como hoje nos envergonhamos – embora alguns não pareçam se envergonhar – da escravidão. Ainda nos envergonharemos de piadas sem graça e dos gritos de “bicha” no estádio.

Em setembro, o STJD abriu inquérito para investigar os cânticos homofóbicos das torcidas de Corinthians e São Paulo no último clássico. Ninguém foi punido ou denunciado. Mas, ainda que vagarosamente, parte da sociedade começa a se posicionar contra o viés preconceituoso acobertado pelo futebol.

Por mais que se tente negar, justificar ou atribuí-los ao vocabulário politicamente incorreto do torcedor, termos como “maria”, “rosana”, “franga” e “lurdinha”, todos eles, independentemente do lado, têm conotação homofóbica.

Aproveite o Natal para refletir, para se tocar da realidade de privações e preconceitos que homossexuais encaram no dia a dia até serem inferiorizados, de graça, em nome de provocações tolas camufladas na rivalidade.

Aproveite a virada do ano para evoluir e tirar sarro do rival sem que sua provocação desdenhe da orientação sexual do outro. Estamos quase em 2015. E agora, José?

Imagem de capa: Galo Queer


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Atlético-MG

Realização e desgosto marcam o antagônico fim de ano de Tardelli

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Diego Tardelli traçou duas grandes metas individuais para 2014: marcar um gol de título para o Atlético e ganhar novamente a Bola de Prata PLACAR. A premiação recebida nessa segunda-feira e a conquista da Copa do Brasil encerram uma temporada de realizações e protagonismo para o atacante.

“É especial. Eu ficava atualizando a cada rodada, estava na briga pela Bola de Ouro. No fim, vi que o Goulart deu uma disparada e ficou difícil. Mas estou muito feliz por ter ganhado minha terceira Bola de Prata.”

A honraria foi concedida pelo desempenho no Brasileirão. Para Tardelli, no entanto, a competição mais importante do ano foi outra.

“Eu tinha o sonho de marcar um gol de título para o Atlético, ainda mais em cima do Cruzeiro, nosso maior rival. Joguei bem, fiz o gol na final da Copa do Brasil e entrei de vez para a história do clube. Foi exatamente como imaginei no começo do ano.”

Agradecimentos não faltam. Sobretudo ao técnico Levir Culpi, com quem ele se desentendeu após a eliminação do time na Libertadores e que quase o motivou a buscar outros ares.

“O Levir chegou impondo muitas coisas e a gente já tinha um grupo formado, uma filosofia de jogo. Isso acabou sendo algo positivo, era preciso dar uma sacudida no ambiente. Tive uma discussão com ele no início do trabalho, mas morreu ali. Hoje somos grandes amigos, nos respeitamos muito. Ele é um paizão no Atlético.”

O segredo da mudança de rumos na relação? Concentração – ou a falta dela:

“Isso foi fundamental para nossa conquista. Ele nos tirou da concentração e voltamos a ter o prazer de jogar bola. Faz toda a diferença saber que você vai sair do treino e voltar pra casa.”

Diego Tardelli

Apesar das conquistas e do clima de paz com Levir, Tardelli segue fazendo mistério sobre a permanência no Atlético. O atacante confirma uma proposta do exterior e deixa em aberto o futuro na Cidade do Galo. Durante a cerimônia da Bola de Prata, voltou a desabafar:

“Ainda não falei com o novo presidente [Daniel Nepomuceno]. Meu empresário tem uma conversa marcada com ele. Nesses quatro anos fora, eu nunca deixei de pensar no Atlético. Abri mão de muitas coisas para voltar. Mesmo com todos os problemas internos, a situação financeira, os atrasos de salário, eu nunca reclamei de nada. Só que tem uma hora que pesa, né? Pesa na família, pesa no orçamento de casa… E a proposta que eu recebi é muita boa. Pode mudar minha vida e a da minha família.”

Nesse momento, Tardelli reivindica valorização e manifesta uma  insatisfação represada com os frequentes atrasos de pagamento no clube. As promessas do ex-presidente Alexandre Kalil de colocar as contas em dia não se concretizaram e, durante toda a temporada, o elenco conviveu com vencimentos atrasados. Tardelli, por exemplo, teria três meses de pendências salariais.

Seleção é um dos argumentos da nova diretoria para convencê-lo a ficar. Mas, em conversas recentes com Dunga e membros de sua comissão técnica, Tardelli ouviu que uma transferência para o exterior, independentemente do país, não interfeririam em futuras convocações.

Questionado sobre a probabilidade de deixar o Atlético, o Bola de Prata atleticano adota um discurso mais político:

“Eu não sei. Ainda está meio dividido: 50% de chance de ficar, 50% de sair.”

Qualquer oscilação para mais ou para menos nos próximos dias pode mudar a vida de Tardelli e do Atlético em 2015.


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Atlético-MG, Cruzeiro, Mineirão

Crime e castigo

Me desculpe, atleticano. Me desculpe, cruzeirense. Mas tenho de ser franco com você. Aliás, tendo a ser pouco complacente com esse hábito secular de transferir responsabilidades. Na política funciona assim.

Se o país vai mal, culpa dos políticos. Acobertamos nossos pequenos desvios do dia a dia, mas nos revoltamos com a corrupção de quem comanda, legisla ou governa. Reclamamos da falta de propostas nos debates eleitorais, mas não nos importamos em descer o nível nas conversas de boteco ou nas redes sociais, divagando entre o suposto vício alheio e a Intentona Neocomunista.

Representantes, públicos ou não, se espelham e balizam seu comportamento em nossas atitudes. Cartolas de futebol agem da mesma maneira. O que os presidentes Alexandre Kalil e Gilvan de Pinho Tavares fizeram com a maior decisão de todos os tempos entre Atlético e Cruzeiro é um crime, um profundo desrespeito com os mineiros que amam futebol.

Preços abusivos nos dois jogos, total descompromisso com o espetáculo, a falta de bom senso de ambas as partes nas negociações. Independentemente do vencedor, o clássico dos clássicos está manchado por dirigentes que se comportam como torcedores.

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Por isso, a culpa é sua, torcedor. O futebol no Brasil está longe de ser profissional. Empresários bem sucedidos que se aventuram pela presidência de clubes metem os pés pelas mãos, movidos por paixão, assim como você.

Você, atleticano, que vibrou com cada declaração estúpida e populista de Kalil antes do primeiro jogo da final. Você, cruzeirense, que comemorou como um gol do Marcelo Moreno o troco de Gilvan ao inflar o ingresso do adversário ao valor estapafúrdio de 1.000 reais.

Você, que deixa seu time em segundo plano para torcer por dirigente, por torcida organizada ou apenas pelo fracasso do rival. Que engole bravatas, se cala diante do descontrole da cartolagem e não cobra que sócios tenham direito a voto no clube, mas agora está indignado por ter ficado fora da festa.

A eleição não dividiu o país. Mas a final da Copa do Brasil rachou Minas Gerais. Entre dirigentes com fama de espertos e torcedores com cara de palhaço.


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Atlético-MG, Cruzeiro, Mineirão

O Brasil se curva a Minas. Bairrismo de quem?

Pela primeira vez, Atlético e Cruzeiro decidem um título nacional. Não só pela final da Copa do Brasil, mas também pelas campanhas notáveis nos últimos dois anos, os gigantes mineiros estão na vanguarda do futebol brasileiro.

E o reconhecimento vem de todos os cantos do país. Imprensa e dirigentes de outros estados têm destacado o planejamento, a estrutura, os CT’s de grife internacional, a eficiência e a garra dos times de Minas Gerais, que hoje são exemplos para muitos clubes.

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Na semifinal, o Cruzeiro sofreu com um gol anulado no primeiro jogo e, em Santos, com a marcação de um pênalti questionável. Ignorou erros de arbitragem, evitou a vitimização e se impôs para garantir uma classificação dramática.

Já o Atlético superou o trauma de eliminações – no apito e na bola – para o Flamengo. Em vez de queixar-se do pênalti e de uma não expulsão rubro-negra no Maracanã, o time alvinegro se mobilizou para carimbar em sua história mais uma virada heroica, repetindo o roteiro de três semanas atrás diante do Corinthians.

Cruzeiro e Atlético em uma final de Copa do Brasil serve para exorcizar um fantasma que assombra o torcedor mineiro: o eixo Rio-São Paulo, o “eixo do mal”. Resquícios de um tempo em que árbitros de fato pendiam para paulistas ou cariocas alimentaram ao longo de quase uma década a desculpa dos cartolas mineiros para a seca de títulos importantes no cenário nacional.

Endossados pela ala condescendente e provinciana da imprensa mineira, que usa de hipocrisia para negligenciar interesses comerciais dos meios de comunicação e só enxerga o bairrismo dos outros, dirigentes de Minas se habituaram a mascarar os próprios erros para vender teorias conspiratórias como engodo à desilusão dos torcedores. Como se capas de jornais ganhassem jogos.

Em 2011, a dupla afundou de mãos dadas. Flertou com o rebaixamento durante boa parte do Brasileiro. O clube celeste só escapou na última rodada com o 6 x 1 sobre o rival. Um fim de temporada melancólico para o futebol mineiro.

Naquela época, a desculpa não era a incompetência de um Atlético que contratava a granel ou de um presidente que havia abandonado o Cruzeiro em favor do Senado, mas sim o conluio da CBF com o “eixo do mal” que, além do apito-amigo, havia deixado os mineiros sem casa por causa da Copa do Mundo – como se ambos não tivessem se curvado à resolução do governo estadual que interditou os dois estádios da capital ao mesmo tempo.

Três anos depois, Cruzeiro e Atlético agora contam com dois estádios modernos e antológicos como trunfo. Ganharam Libertadores e Brasileiro. Deixaram de embarcar na falácia da conspiração, do “nós contra o resto”, da rivalidade de comparação que só os empurrava para baixo. Passaram a olhar para dentro, a reconhecer e corrigir as falhas. Passaram a pensar como times grandes.

A final mineira é um presente ao bom futebol, à vocação de Minas ao protagonismo. E também uma pá de cal sobre o bairrismo às avessas que por pouco não enterrou atleticanos e cruzeirenses no campo das lamentações.


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Atlético-MG

A coragem de Levir contra o paternalismo do futebol brasileiro

“Concentração no futebol tem de ser abolida a partir de dezembro de 2014, porque meu mandato acaba no fim do ano. Aí eu não vou ter de sair de madrugada atrás de jogador. Se soltar, meu amigo, a torcida vai pegar um monte na rua, na farra, na putaria… Eu sou a favor do seguinte: todo mundo concentrado com namorada, mulher, amante, puta ou o que for dentro do quarto. Se bem que mulher enche o saco do cara também, né? Tem isso. Aí o jogador vai reclamar: ‘Trazer minha mulher pra cá bem na hora que eu tenho paz? Puta que pariu, que presidente escroto!’”

O depoimento acima, mantidas as licenças tipicamente desbocadas, foi concedido ao blog por Alexandre Kalil no fim do ano passado. O presidente justificava a existência de concentração no Atlético, que por diversas vezes, ainda sob o comando de Cuca, chegou a antecipar o confinamento dos jogadores em até dois dias antes de cada jogo.

Na mesma semana em que Ronaldinho Gaúcho se despediu de Belo Horizonte, o técnico Levir Culpi revogou a lei de Kalil e aboliu o regime de concentração na Cidade do Galo.

Não se trata de pioneirismo. O Internacional, de Abel Braga, já havia feito o mesmo no começo do ano sob influência dos grandes clubes europeus. Diferentemente de Portuguesa, Vasco e Botafogo, o fim da reclusão dos colorados não foi fruto de um motim por salários atrasados, mas sim de uma decisão que partiu do clube.

E, diferentemente de Abel no Inter, Levir não conta com o respaldo da diretoria atleticana. A medida é um risco que resolveu bancar. Afinal, jogadores se cansaram de jogar dominó e videogame uns com os outros enquanto poderiam estar com suas famílias – ou fazendo o que bem entenderem.

Concentração não ganha jogo, e com isso o próprio Kalil concorda. Mas o excesso na privação de liberdade do elenco, por outro lado, pode ser desastroso. Em 2012, muitos jogadores torceram o nariz para a concentração antecipada de Cuca. Para alguns, foi o fato determinante para a perda do título brasileiro.

Apesar dos bons resultados, o técnico não cedia e chegou até a bater de frente com Ronaldinho. Diego Tardelli, outra referência do time, também não suportava mais o regime fechado de Cuca no ano passado. Ajudou a convencer Levir a dar o voto de confiança.

O time venceu seu primeiro compromisso sem concentração, diante do Atlético-PR. O Inter, que não se concentra desde março, briga por título no Brasileiro. Qualquer tentativa de relacionar confinamento a taças e vitórias é estupidez, assim como associar futuras derrotas do Atlético à falta de concentração.

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Levir trabalha com a realidade. Sabe que concentrar não ganha nem nunca ganhou jogo algum. E que os jogadores podem render melhor longe de um ambiente que remete aos tempos de amadorismo do futebol.

Por décadas os clubes pressupõem que prender jogadores é a única solução para afastá-los da noite e das farras. E há, sobretudo entre dirigente e torcedores, quem acredite cegamente nisso. Na verdade, esse paternalismo, essa mania de se comportar como babás, é que os fazem reféns da própria falta de profissionalismo.

A superproteção cria boleiros mimados desde a base, acostumados a ter tudo na mão, cientes de que seus deslizes serão sempre computados na cartilha dos patriarcas, e não na responsabilidade que deveriam assumir como qualquer outro trabalhador.

Que, ao contrário do caso Jô, “desaparecido” depois do último jogo, torcedores não tentem culpar o técnico por eventuais pisadas de bola dos jogadores. Cada um responde por sua conduta e por seus atos.

A grande, porém tardia, sacada de Levir é óbvia: o atleta deve ser tratado como um profissional qualquer, não como popstar. Médicos, pilotos ou engenheiros não precisam de concentração para cumprir suas obrigações. Jogadores, muito menos.

ATUALIZAÇÃO – 16h29

Em contato por meio da assessoria de imprensa, a diretoria do clube afirma que deu aval à medida de Levir Culpi, embora o diretor de futebol Eduardo Maluf não acredite no êxito da política adotada pelo técnico.

ATUALIZAÇÃO 2 – 13/11

Na final da Copa do Brasil e ainda na briga pelo título brasileiro, o Atlético acumula 13 vitórias e um empate em jogos como mandante desde o fim da concentração na Cidade do Galo.


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Atlético-MG, Ronaldinho

O trono de Ronaldinho está vago. E não há ninguém na fila para ocupá-lo

Treino 06.06.2014

Se um dia a profecia de Alexandre Kalil se materializar na forma do tão sonhado estádio atleticano, o convidado de honra para cortar a fita vermelha certamente será Ronaldinho Gaúcho.

Toda vez que o Atlético disputar uma final, ele certamente estará na primeira fila da tribuna de honra. Toda vez que o atleticano comemorar o aniversário da primeira Libertadores, certamente se lembrará do craque que mudou seu destino.

Comparado a outros ídolos alvinegros, como Dario, Reinaldo, João Leite e Marques, Ronaldinho teve pouquíssimo tempo de casa. Dois anos e dois meses, porém, foram suficientes para torná-lo maior que todos os outros. Pela conquista da América, pela projeção internacional emprestada ao Atlético e pelo resgate institucional de um clube até então desacreditado.

Ronaldinho apresentou ao torcedor atleticano o que há de melhor no futebol – e o fez se acostumar com o espetáculo de alto padrão. Lampejos do que havia sido no Barcelona despertaram momentos de verdadeira magia no Horto, dadas as sucessivas desilusões com times medíocres e medalhões desalmados.

Esse é o maior legado da estrela, que joga um peso enorme sobre o clube e principalmente sobre a próxima diretoria. O Atlético de Alexandre Kalil não se preparou para a sucessão de Ronaldinho.

Não significa contratar um nome consagrado, até porque a chegada de R10 foi o acaso de uma aposta pessoal e arriscada do presidente, que, depois de tantas cartadas em vão, acertou logo com aquele que se tornaria o maior jogador da história atleticana.

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Tardelli é ídolo. Victor, idem. Embora não tenham o tamanho de Ronaldinho, servem de alento para uma geração de torcedores que por muitos anos careceu de nomes dignos de aplauso na arquibancada.

O vácuo deixado pela saída do astro-mor é técnico. Não há jogador no elenco atual que crie, que seja capaz de inventar algo diferente ou de fazer o time jogar. Fato evidente desde o fim da Libertadores, quando as condições físicas de Ronaldinho já davam sinais de esgotamento.

A renovação do contrato do craque, mentor de Messi e Bernard em outras épocas, deveria ter sido atrelada ao processo de lapidação de um novo camisa 10. Ou mesmo de um volante criativo. Hoje, Levir Culpi não dispõe de nenhuma dessas peças. Guilherme é atacante de origem. Maicosuel e Luan jogam pelos lados.

Quando chegou à Cidade do Galo, Ronaldinho disse que um de seus objetivos era elevar o Atlético a “outro patamar”. E o elevou ao ponto que nenhum atleticano poderia imaginar. Mal acostumado à genialidade passageira do craque, o torcedor, ao procurar por seus dribles e sacadas primorosas, verá a ficha cair.

O problema não é o adeus do ídolo, mas a constatação de que futebol bonito e resultado dificilmente entoarão na mesma sinfonia sem a batuta de Ronaldinho no gramado do Horto.


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