Cruzeiro, Libertadores

O homem por trás do bigode

Willian Bigode Cruzeiro

Carlos Drummond de Andrade diria que “o homem atrás do bigode é sério, simples e forte”. O verso de uma das obras mais famosas do poeta mineiro serviria como descritivo perfeito para Willian, sobretudo depois de uma temporada repleta de provações.

Em pelo menos cinco jogos do Brasileirão, ele jogou no sacrifício por causa de uma lesão no púbis.

“No estágio em que eu mais senti dor, não tínhamos tantas peças de reposição, porque outros jogadores também estavam machucados.”

O atacante cruzeirense ainda sofreu uma fissura na costela no jogo de ida contra o Santos, pela Copa do Brasil, mas, em uma semana, já estava em campo novamente pela partida de volta, na Vila Belmiro. Marcou dois gols que decretaram a classificação celeste para a final.

“Senti tanta dor no primeiro dia que nem dormi. Mas em momento algum eu pensei em ficar fora do time. Me empenhei no tratamento e consegui dar minha contribuição.”

Hoje tricampeão brasileiro (dois títulos pelo Cruzeiro e um pelo Corinthians), Willian celebra a renovação de contrato e a identificação com o clube, sua principal motivação para encarar as dores no campo, e não no departamento médico.

“Depois do jogo contra o Goiás, eu brinquei com o Dago, que é penta: ‘Eu vou chegar, hein?’ Não é fácil ser campeão brasileiro. Aprendi isso no Corinthians. Mas é uma meta que me motiva, assim como o apoio de todos os torcedores. Sempre fui tratado com muito carinho nos clubes em que joguei, mas aqui no Cruzeiro é uma coisa mais forte.”

PLACAR CRUZEIRO 2014

Além da raça e de gols decisivos, um amuleto felpudo no rosto o distingue dos demais…

“O bigode marcou, né? Todo mundo que me vê na rua grita: ‘Ô, Willian Bigode!’. Mas o que tem por trás do bigode, minha entrega, minha disposição, é o que faz a diferença.”

A ambição é proporcional à fama de um dos últimos bigodudos do futebol brasileiro – só por isso o moço já mereceria todo respeito.

“O objetivo agora é ganhar mais títulos, como a Libertadores e a Copa do Brasil. Aqui no Cruzeiro temos qualidade, vontade e organização. O ano de 2014 foi muito bom, mas tenho certeza de que 2015 será ainda melhor.”


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Cruzeiro, Libertadores

Os cinco pecados da constelação

Esqueça o Papa e seus milagres. O Cruzeiro, apesar do elenco estrelado, favoritíssimo depois da queda dos concorrentes brasileiros, tropeçou nas próprias pernas ao deixar o tri da Libertadores escapar em casa.

Por partes:

* DEDÉ: 8 OU 80
Ao contrário de Bruno Rodrigo, discreto, regular e eficiente, Dedé chamou a atenção pelo estilo espalhafatoso, para o bem e para o mal. Ora surpreendendo no ataque, como no gol salvador que marcou sobre o Cerro Porteño, ora vacilando lá atrás.

dede_zagueiro_cruzeiro

Contra o San Lorenzo, uma falha no jogo de ida e outra por se afobar no lance que resultou no gol de Piatti. Perdeu a vaga na Copa e a segurança na defesa, o maior capital de um zagueiro. Inconstância que custou caro, ao time e aos cofres do clube.

* JOGAI POR ELES
Alguns jogadores atribuíram a eliminação à falta de ímpeto fora de casa. Na verdade, inclusive nos jogos no Mineirão, o Cruzeiro deixou os adversários tomarem a iniciativa. Postura conservadora, totalmente distinta do ano passado. A equipe confiou demais no empurrão da torcida, que, de fato, compareceu e apoiou.

Cruzeiro 5 x 1 LaU

Mas dessa vez não converteu o grito das arquibancadas em imposição no campo. Apesar da invencibilidade, foram três empates no Mineirão. Todos com sabor de derrota, sobretudo o último, diante dos argentinos.

* QUEM É QUE SOBE?
Se há uma palavra que define a formação celeste em 2014 é… indefinição. Quais são volantes? Qual o desenho do ataque? Quem faz o centroavante? Marcelo Oliveira não tem convicção sobre seu time ideal. Mexeu várias vezes na dupla de volantes, engrenagem da campanha do tri. Não encontrou um centroavante capaz de aplacar a temporada de Borges no estaleiro.

Marcelo Oliveira, head coach of Brazil's Cruzeiro gives instructions to his players during their Copa Libertadores soccer match against Uruguay's Defensor Sporting in Montevideo

No ano passado, até o torcedor mais incauto sabia quem fazia o quê no gramado. Hoje, o time é menos equilibrado: enquanto alguns jogadores acumulam funções, outros, como Julio Baptista, estão perdidos.

* CARGA PESADA
Julio Baptista já atuou como centroavante, meia-armador e aberto pelas pontas. Em nenhuma das posições, mesmo quando joga bem, conseguiu se entender com os companheiros de frente.

julio_baptista_cruzeiro

Mais lento que os demais, costuma retardar contra-ataques e, quando volta para buscar jogo, causa um rebuliço desembestado no meio. Coincidência ou não, desde que ele começou a frequentar o time titular, a bola dos outros craques murchou.

* O TRIO DO TRI
Ricardo Goulart, Everton Ribeiro e Willian foram determinantes para o título brasileiro. Mas, nessa Libertadores, os três caíram de produção. Marcelo Oliveira fez o Cruzeiro se adaptar a Julio Baptista, não o inverso.

everton_ribeiro_mineirao

E os homens de frente sentiram a diferença. Maestro de 2013, Everton Ribeiro, mais sobrecarregado na marcação, ainda não encantou nesta temporada.


Vale lembrar, porém, que foi justamente após a queda inesperada para o Flamengo no ano passado que o Cruzeiro arrancou para o tricampeonato nacional.

Ainda há uma nova motivação: a chance de conquistar a Tríplice Coroa, como em 2003.

Apesar da frustração de torcida e diretoria ao ver o time falhar no principal objetivo da temporada, o Cruzeiro está longe de crise ou desmanche.

Com ajustes e outro voto de confiança – principalmente no trabalho de Marcelo Oliveira – o melhor e mais valioso elenco da Libertadores tem todas as credenciais para reafirmar a soberania em terras nacionais.


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Atlético-MG, Libertadores

Tá tá tá com crédito?

Em entrevista ao blog, Diego Tardelli reconhece que anda devendo no início de temporada pelo Atlético, mas acredita ter crédito com a torcida atleticana, que não vem perdoando as atuações irregulares e os gols perdidos, como o diante do Cruzeiro, no primeiro jogo da final do Mineiro.

O atacante, que é sócio da mulher Linda Araújo em uma loja de decoração e artigos para bebês em Belo Horizonte, diz que pretende fincar raízes em Minas e encerrar a carreira no Atlético.

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Autêntico e calejado pelas críticas desde os tempos de São Paulo, Tardelli aponta sua metralhadora em várias direções: dispara contra Cuca, a preparação do time para o Mundial e até parte da torcida que o alçou ao posto de ídolo.

O que significa o Atlético em sua carreira?
Eu construí minha história no Atlético. Passei por grandes clubes no Brasil e no exterior, mas foi aqui que eu pude ser reconhecido e respeitado.

Qual a diferença entre o time de 2009 e o atual?
Antes era um mexidão da base com jogadores de nome, um grupo bem diferente. O de hoje é o melhor elenco em que já trabalhei. O São Paulo de 2005 era parecido, mas o Atlético é superior. Vai ser difícil montar outro grupo como esse.

O que o motivou a voltar a Belo Horizonte?
Abri mão de quatro anos de contrato no Catar, uma vida boa no país, para me dedicar à Libertadores pelo Atlético. Era minha chance de entrar para a história do clube de uma vez por todas. A torcida sempre me idolatrou mesmo sem ter ganhado um título importante, mas faltava isso em minha trajetória.

Alguns atleticanos ainda cobram para que você seja o cara de um jogo decisivo. É o que falta para cravar de vez o seu nome entre os maiores jogadores do clube?
Eu sonho com isso. De ser decisivo como foi o Léo Silva, na final da Libertadores. Às vezes a ansiedade atrapalha. Esse filme sempre passa pela minha cabeça. Sei que existem 11 jogadores em campo que podem decidir, mas ainda quero viver esse momento, de marcar um gol de título para o Atlético.

O que significou para você ter feito dois gols que ajudaram a eliminar o São Paulo, seu ex-clube, da Libertadores?
Foi um jogo especial. Eu estava muito motivado. Queria mostrar que poderia ter feito aquilo pelo São Paulo se tivesse uma torcida que gostasse de mim, uma diretoria que me apoiasse… Mas tudo que não tive no São Paulo eu tenho no Atlético. Hoje sou um carrasco do São Paulo. Na Libertadores, eu fiz um no Morumbi e outro no Independência. Desde 2009, eu sempre faço gol em cima deles. Me motivo mais do que nos outros jogos.

Com a taça da América, a autoestima do torcedor atleticano foi revigorada?
Quando eu cheguei aqui pela primeira vez, a única coisa que se comentava era que o Atlético não ganhava título. Havia a desconfiança da torcida, de que o time todo ano ia lutar, lutar, mas não ia chegar. Depois da Libertadores, a confiança voltou. E a cobrança aumentou. Agora os torcedores querem ganhar tudo.

No começo desta temporada, você sofreu cobranças e até vaias das arquibancadas no Independência. O torcedor é exigente demais?
Ô, torcida chata, viu? Mas também é uma torcida que apoia muito quando o time precisa. Às vezes falta paciência, mas ela é fiel, está sempre no estádio.

Nunca perdeu a paciência com as críticas?
Tem meia dúzia que vai ao estádio só para encher o saco. 95% dos torcedores estão do meu lado, e o restante eu nem considero. Se eu jogo mal, a maioria deles vem dizer que eu tenho crédito. E eu me cobro muito para voltar a ser o Tardelli que a torcida quer ver.

Você costuma provocar a torcida do Cruzeiro em suas comemorações e pelas redes sociais…
Quando eu entro em campo, a torcida deles me zoa. É normal que eu revide, com respeito. Eu concentrava com o Souza na época do São Paulo. Ele e Vampeta eram os personagens do clássico com o Corinthians. Sempre tiravam sarro um com o outro, discutiam pela TV. Eu encaro isso como uma brincadeira sadia e normal. Mas sem violência. Às vezes, depois de uma brincadeira, eu fico com receio de sair na rua e encontrar um cruzeirense louco que queira partir para a ignorância. Mas, enquanto fica na rede social e no campo, tá tranquilo.

E se um dia você for jogar no Cruzeiro?
Esse dia não vai existir. Nunca! A única certeza que eu tenho na vida é de que nunca vou jogar pelo Cruzeiro. Respeito o clube, mas minha identificação com o Atlético é única. O respeito que eu tenho pela torcida é único. Jamais me passou pela cabeça defender o Cruzeiro. Se Deus quiser, vou encerrar minha carreira no Atlético.

Os jogadores rivais nunca lhe cobraram pelas provocações?
Eu nunca discuti com jogador adversário. O que rola é uma indiretinha aqui, outra ali. Eu vejo a provocação como um torcedor. A rivalidade é muito grande. Quando o Cruzeiro ganha, já sei que vai vir a gozação.

O presidente Alexandre Kalil também é um “anticruzeirense” declarado. Como é sua relação com ele?
Eu tenho o Kalil como um pai. E acredito que ele me tenha como um filho. Desde 2009, quando me encontrei com ele no hotel Ouro Minas para fechar o contrato, nosso relacionamento sempre foi direto. Existe um carinho entre nós dois, uma coisa bem diferente. Por isso que ele foi me buscar de volta no Catar. Dia desses, ele estava triste na sala da presidência e eu fui lá bater um papo. Depois, marquei dois contra o América e ele foi no vestiário me dar um abraço. A gente tem um relacionamento bem aberto, para poder falar sobre tudo, até mesmo criticar, quando ele acha que alguma coisa não está certa. Nossas famílias se conhecem. Isso é raro no futebol, o jogador ter amizade com o presidente do seu time. Quando ele tiver o primeiro neto, vou dar um cartão da minha loja. Arrumo um desconto pra ele [risos].

Você voltou do Catar com objetivo de jogar a Copa do Mundo. Se sente frustrado por não ter tido uma chance com Felipão?
Meu argumento para o xeque [dono do Al Gharafa] era o de queria voltar para ser convocado novamente para a seleção. Por isso que ele me liberou. Eu ainda estou na expectativa. Em 2010 eu bati na trave, com o Dunga, e estou batendo na trave de novo. Mas fico feliz pelo que o povo vem falando e os profissionais da bola, que entendem de verdade, têm comentado sobre mim. Não são poucos que me pedem na seleção. Gente muito respeitada, como o Tostão. É gratificante. Para mim, mesmo se não for convocado, isso já é uma Copa do Mundo.

O que faltou para ser convocado em 2013?
Eu não sei. Também fico me perguntando. Sei lá se eu fiz alguma coisa errada… Mas minha parte eu estou fazendo desde que voltei ao Atlético. Vai do Felipão. O elenco já está praticamente formado. Aqueles que tiveram oportunidade souberam aproveitar, como Bernard, Jô e Hulk, que são jogadores com quem eu brigo por posição. Acredito que eu merecia ter tido uma chance. Bem antes, pelo que eu vinha fazendo na Libertadores e no Brasileiro. Não concordei com alguns jogadores que foram chamados. Mas faz parte…

Na véspera do Mundial, houve desentendimento entre você e o Ronaldinho?

Não teve nada. Muita gente fala: “Ah, Ronaldinho e Tardelli não se dão”. Nada disso. Nós estamos sempre brincando. Às vezes fico até com vergonha de chegar perto e conversar com o cara, por ser quem ele é. Eu gosto muito dele. E acredito que ele também goste de mim. Não vão criar crise entre a gente.

Correu o boato de que vocês mal se falavam no Marrocos…
De jeito nenhum. Ronaldinho é meu parceiro.

A equipe entrou de salto alto diante do Raja Casablanca?
Foi um pouco de tudo. É difícil explicar. A gente ficou 15 dias em Marrakech e se acomodou na cidade. Enfim… Se tivéssemos ido para o Marrocos uns cinco dias antes do Mundial, teríamos mais chances de chegar à final. Isso acabou atrapalhando. Até chegar o dia do jogo, ninguém estava focado. A gente sabia da nossa responsabilidade, mas alguns detalhes que muita gente não sabe pesaram. Muitas coisas erradas aconteceram nesse Mundial.

Quais foram os erros, os detalhes?
Planejamento, logística e, dentro de campo, deu tudo errado. Quando a gente acordou, já era tarde para reverter a situação. A gente achava que já estava na final, por enfrentar um adversário desconhecido. Toda a imprensa nos colocou como favoritos. E tudo o que a imprensa falou aconteceu ao contrário.

Vocês imaginavam enfrentar o Monterrey?
Eu me lembro direitinho. Falei pro Cuca, assim que acabou o jogo deles: “Eu preferia o Monterrey”. O Cuca disse: “Não, não, eu prefiro o Raja, que é um adversário desconhecido”. Aí deu no que deu, né?

Por ter passado muito tempo no clube, havia um desgaste entre o Cuca e o grupo?
No final do ano, houve sim um desgaste. Não da minha parte, mas no dia a dia, pelo que eu ouvia de alguns jogadores que não estavam sendo aproveitados, que não tinham o mesmo respeito por ele. Ele ficou dois anos no clube. Se um treinador não souber lidar com isso, perde o jogador, o jogador perde a confiança e larga mesmo. Foi o que aconteceu aqui. Ainda mais depois que a gente soube que ele já estava sendo negociado [para Shandong Luneng, da China]. Isso desandou de vez as coisas.

Mas não é comum jogadores se transferirem para outros clubes antes de a temporada a acabar?
Deveriam ter citado ou falado sobre transferência depois do Mundial. Perdemos o respeito pelo Cuca. A decisão de sair antes pesou sobre o grupo. Esse foi só um dos erros. Aquele foi um Mundial para ser esquecido.

O esquema de concentração antecipada ajudou a abalar a relação com o ex-treinador?
Sim. A gente ficava um dia só em casa. O resto da semana era na concentração. Com um grupo experiente como o do Atlético tem de saber lidar. Tem que dar confiança, não tem jogador bobo aqui. Concentração desgasta. Muitas vezes nem era tanto por parte do Cuca, vinha lá de cima. O presidente pedia, principalmente no mata-mata da Libertadores. A gente jogava o Brasileiro no domingo e já ficava concentrado até quarta-feira. Era ordem dele [Alexandre Kalil]. O Paulo [Autuori] chegou e vem mudando as coisas. Mudou e está dando certo. Ele tem esse respeito, essa confiança no jogador. Assim a gente rende mais em campo. Não é concentração que faz o time jogar bem.

Você é um dos jogadores do Atlético que assinou o manifesto do Bom Senso FC. Acha que uma greve é necessária para resolver os problemas de calendário e atraso de salários dos clubes brasileiros?
As reivindicações do Bom Senso são bem colocadas. Queremos melhorar o futebol, o calendário, nosso salário… Estou fechado com o movimento. Uma greve depende do que acontecer daqui pra frente. Não sou de dar muito palpite. Se todo mundo estiver junto e abraçar a causa da greve por um bom motivo, eu vou apoiar.

Recentemente o time conviveu com salários atrasados. Como vocês lidaram com a situação?
Foi a primeira vez que aconteceu de atrasar salário no Atlético. Mas a gente sabe o porquê. Atrasou por causa da negociação do Bernard. Não foi o ano inteiro, como em outros clubes por onde passei, que nunca pagavam em dia. Foi coisa de um, dois meses.

Você até se envolveu em polêmica com os torcedores por ter citado o atraso no Twitter…
Falei sobre o resort onde me hospedei, não sobre o meu salário. Eu fico triste quando isso acontece porque eu gosto de me comunicar com a torcida. Tenho Instagram e Twitter para isso. Mas às vezes leio algumas coisas que me deixam muito chateado. Prefiro desabafar e resolver na hora, pra não ficar com aquilo na cabeça. O grande culpado disso sou eu. Se não chegasse perto de rede social, eu não teria problemas.

Depois de breves passagens por Bétis-ESP, PSV-HOL e Anzhi-RUS, ainda pensa em jogar na Europa novamente?
Por enquanto, eu quero ficar no Atlético. Se pintar uma boa oportunidade, eu ainda pretendo voltar a jogar no exterior, independentemente do clube ou do lugar. É um objetivo que tenho, de jogar mais duas ou três temporadas fora.

Em 14 jogos contra o Cruzeiro, você tem seis vitórias, cinco derrotas e marcou sete gols. É um desejo seu enfrentar o rival no mata-mata da Libertadores?
Atlético e Cruzeiro são os dois principais clubes do Brasil na atualidade e a tendência é que a gente se enfrente. A expectativa do povo é que o Cruzeiro pegue o Atlético na Libertadores. Mas é ruim ter um clássico assim no mata-mata. Eu prefiro pegar outra equipe. Se encontrar com eles, que seja na final.


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Cruzeiro, Libertadores

O racismo dos outros e a nossa hipocrisia

Por Breiller Pires

Repugnante a atitude de torcedores peruanos que imitavam macacos toda vez que o volante Tinga tocava na bola, jogo de estreia do Cruzeiro na Libertadores.

A revolta de cruzeirenses e a comoção nas redes sociais são proporcionais à crueldade do ato. Toda solidariedade ao Tinga é pouca perto da gravidade de um gesto racista.

Mas não devemos fechar os olhos para o fato que nos acostumamos a ignorar. Racismo não é exclusividade dos outros. O Peru é um país racista, assim como a Itália, onde Mario Balotelli já chegou a abandonar o gramado por causa de cânticos discriminatórios. O Peru, acredite, é tão racista quanto o Brasil.

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Depois da partida, Tinga mandou bem. Declarou que trocaria seus títulos pela igualdade racial. Porém, se disse surpreso por ser vítima de discriminação em um país “tão próximo, tão parecido com o Brasil”.

O zagueiro Dedé usou o mesmo argumento: “o que nos deixa indignados é um pais sul-americano racista”. Ainda no calor do jogo, Tinga e Dedé talvez tenham se esquecido de que o país em que nasceram também se encaixa entre os mais racistas da América.

Do racismo velado, em que, para muitos, a desigualdade latente entre negros e brancos é fruto somente de um problema social, não do preconceito. Onde humoristas protestam contra a “patrulha do politicamente correto” para poderem oferecer bananas à vontade aos negros.

No país com a maior população afrodescendente fora do continente africano, o negro continua sendo o maior alvo de violência, afastado dos postos nobres de trabalho. Médico, executivo e professor universitário, para não alongar nos exemplos, seguem como profissões predominantemente brancas.

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Que a noite no Peru não tire o sorriso de Tinga – e lembre ao Brasil que o racismo também existe por aqui

No país do futebol , o negro serve como mão de obra, como boleiro, mas não serve como presidente de clube, dirigente ou treinador. Dedé, que jogou no Vasco, o clube que ajudou a abrir as portas dos estádios para os negros, deve se lembrar que Cristóvão Borges – desempregado, assim como a grande maioria dos negros que se aventuram como técnicos – sofreu insultos racistas antes de deixar São Januário pelo portão dos fundos.

No país em que política de cotas é vista como assistencialismo barato, “discriminação às avessas”, o modelo dos Estados Unidos, pioneiro em reserva de vagas nas universidades e até no alto escalão do esporte, é a utopia dos excluídos.

Entretanto, o brasileiro prefere seguir com seu preconceito reprimido, não assume o racismo que nos moldou como sociedade. Para muita gente, inclusive, não existe racismo no Brasil. Existe no Peru (e gera revolta), mas, no Brasil, nem pensar.

Isso não torna aceitável o que aconteceu com Tinga na noite de ontem. É abominável. Tanto quanto quem se solidariza com o cruzeirense por ser brasileiro, mas acha normal que atentados contra os direitos da população negra só sejam discutidos quando praticados em um dos únicos territórios em que sua ascensão é tolerável no Brasil: o campo de futebol.

LEIA MAIS:
• Técnicos negros reclamam de racismo no futebol


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Atlético-MG, Cruzeiro, Libertadores, Mineirão, PLACAR, Ronaldinho

Isto é Kalil

A edição de dezembro da revista PLACAR, que chega às bancas nesta sexta-feira, traz um perfil de Alexandre Kalil. Durante a entrevista, além de falar sobre Mundial de Clubes e Libertadores, o dirigente tocou em vários assuntos, incluindo os planos para seu último ano de mandato à frente do Atlético:

CRUZEIRO CAMPEÃO BRASILEIRO

Infelizmente, desgraçadamente, tristemente, eu não senti nada quando o Cruzeiro foi campeão brasileiro. Depois da Libertadores, eu esqueci que o Cruzeiro existe. Isso é um desastre íntimo para mim. E o Cruzeiro só foi campeão brasileiro porque o Atlético ganhou a Libertadores. Eles ficaram com ódio da festa que a gente fez na cidade. No fim do ano, vamos virar pra eles [cruzeirenses] e dizer: “Nós somos campeões do mundo”.

EXTINÇÃO DO DEPARTAMENTO DE MARKETING

Marketing no futebol é bola dentro da casa. Se a bola entrar naquela casinha, você vende até Modess pra homem. É só colocar o escudo do Atlético. O departamento de marketing tinha 18 pessoas, dava um prejuízo de 4 milhões de reais por ano. Não foi desmanchado porque eu acho feio e bobo, não. Marketing, pra mim, é aquela página de jornal [anúncio comprado depois do título do Cruzeiro]. Porque isso alegra a torcida.

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MARKETING DO RIVAL

O marketing do Cruzeiro trouxe o Júlio Baptista dentro de um carro forte e ele acabou o Campeonato Brasileiro no banco. O que você faz com um marketing desses? Tem que matar o filho da p… que fez isso.

PROGRAMA DE SÓCIO-TORCEDOR

O Cruzeiro está com um elefante branco na mão [Mineirão]. Vai ter que vender ingresso a preço de banana e botar sócio-torcedor pra dentro, senão não vai encher. Aquilo lá vai falir. Essa é a realidade do sócio-torcedor. Ou você acha que eu não tenho fila pra ter sócio-torcedor aqui no Atlético?

MINEIRÃO x INDEPENDÊNCIA

Eu jogo no Mineirão a hora que eu quiser, por edital. No Independência, o Cruzeiro só joga se eu deixar. No Mineirão mando eu também, igualzinho ao Cruzeiro. Eu estou aberto a negócio [com a Minas Arena]. Desde que não seja negócio indecente. O edital já era ruim. Mas o contrato que eles fizeram é ainda pior. Então, eu prefiro o edital.

ESTÁDIO PRÓPRIO PARA O GALO

Nós [da diretoria] temos conversado e muito sobre isso. Vieram me procurar, sabendo do potencial da torcida do Atlético, para um projeto de estádio em BH. Mas na minha gestão não dá mais tempo. Quero bolar um projeto e deixar para o próximo presidente fazer.

OUTRAS MODALIDADES NO CLUBE

Acabei com tudo quando assumi, porque era torneira aberta por todo lado [foi diretor de vôlei na época da gestão do pai, Elias Kalil]. Outro dia eu estava caminhando pela praia de Copacabana e vi lá: “Campeonato Mundial de Beach Soccer. Entrada gratuita”. Nem se me pagar eu entro pra assistir essa chatura. A Globo inventa essas merdas pra ter notícia e enfiar na gente domingo de manhã. Ninguém quer ver, porque basquete é horrível, vôlei é uma merda.

Breiller e Kalil

RONALDINHO LIGHT?

Ele gosta de bola. Tem uma pelada nas folgas. De futevôlei. ‘Ah, é churrasco, mulher, puta…’ Não, senhor! O que ele tem é uma turma de futevôlei na quadra de casa.

A ESTÁTUA PROMETIDA

Isso é conversa de Ronaldinho. Deixa ele cobrar. Eu ia imaginar que seria campeão da Libertadores? Prometi um monte de coisa que não cumpri. Quem merece estátua aqui, já tem.

O BICHO PAGO AO RONALDINHO É MAIOR QUE O DO RESTANTE DO ELENCO?

Sobre isso eu não entro em detalhes. Se quiser, ele pode falar. Mas o Ronaldinho não tem um privilégio que o Lucas Cândido não tenha no Atlético. E outra: o Ronaldinho não liga pra salário, em dia ou não. Isso é uma grande bobagem.

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ARBITRAGEM BRASILEIRA

Tá excelente, porque se eu falar qualquer coisa vão me roubar. Então deixa do jeito que tá. Na Copa do Brasil foi um escândalo. Eu protocolo uma carta contra um árbitro de Goiás, ele faz aquilo que fez no jogo contra o Botafogo e é premiado na outra rodada para apitar Flamengo x Corinthians. Peraí! Isso é bater na cara da gente. Eu tô calmo, tô bonitinho, tô beleza, mas não vem bater na minha cara, não, uai.

HOMEM DE APENAS UM REMORSO

Só me arrependo de uma coisa no futebol até hoje. No dia em que eu critiquei o Super Nosso [propondo boicote da torcida depois da apresentação do cruzeirense Dedé]. Peço desculpas, porque o supermercado fica do lado da minha casa e agora eu não posso mais fazer compras lá.

Essas e outras frases de Kalil, na PLACAR de dezembro.

 


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Atlético-MG, Libertadores

Homem de fé

Já se passaram mais de três meses. Mas o torcedor atleticano não esquece o pé esquerdo de Victor que salvou o time da queda precoce na Libertadores. “Foi coisa de Deus”, diz o goleiro em depoimento à revista PLACAR de setembro.

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São Victor ainda descreveu tudo o que passou por sua cabeça na hora da penalidade, marcada aos 48 minutos do segundo tempo:

“Eu nunca tinha visto o Independência daquela forma. Logo que o juiz apitou o pênalti, pairou um silêncio absurdo no estádio, desesperador. Um misto de desconsolo e tristeza. Mesmo assim, eu procurei me concentrar, conversei com Deus. O técnico do Tijuana determinou que o Arce batesse o pênalti. Sobre ele, eu não tinha muita informação. Mas, quando vi o Riascos posicionando a bola para a cobrança, já sabia o que fazer. É claro que eu jamais imaginaria que pudesse defender o pênalti com o pé, mas tinha a convicção de que cairia para o canto direito. Eu tinha assistido aos vídeos dele.

Não falei nada para o Riascos. Tentei olhar em seus olhos. Mas ele abaixou a cabeça e desviou o olhar. Senti que ele estava confiante, porque tinha feito um jogo muito bom, além de ter marcado gols na partida de ida e na volta. Ele não era o batedor oficial, mas passou por cima da ordem do treinador e pegou a bola. Quis se consagrar, sair como o herói da classificação do Tijuana. Fiquei parado, sem me movimentar, para retardar o salto e não facilitar a vida do cobrador. Assim que ele partiu para a bola, eu dei um passo à frente, estiquei a perna e senti a bola bater forte em meu pé esquerdo. Aí foi um êxtase total. Pela primeira vez, eu vi uma torcida comemorar uma defesa como se fosse um gol.”

Campeão da Copa das Confederações em 2009, Victor também falou de sua mágoa por ter sido preterido por Doni na lista de Dunga três anos atrás:

“Minha maior frustração no futebol foi a não-convocação para a Copa de 2010. Não entendi o porquê.”

Já dos tempos de Grêmio, o goleiro diz ter boas lembranças, apesar da crucificação após a transferência para o Atlético:

“Eu nunca pedi para sair do Grêmio. Tentaram manchar minha imagem, dizendo que eu não queria mais jogar pelo clube, mas foi um acordo entre as duas diretorias.”

O perfil completo de São Victor, capa da edição mineira, está na PLACAR de setembro, já nas bancas e em breve disponível na Loja Online da Abril.

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Atlético-MG, Libertadores

Debate Galo: o Atlético pós-Libertadores

Na segunda-feira, participei do programa Debate Galo, da WRG. A rádio, que já tem dois anos, é um projeto dos irmãos Beto e Eduardo Guerra, atleticanos fanáticos, e produzida pela não menos alvinegra Roberta Figueiredo.

Além de ídolos e personalidades atleticanas, o programa também recebe jornalistas para comentar os jogos e as novidades do time. Sem contar as participações ao vivo dos torcedores tuiteiros.

Nessa última edição, falamos sobre a façanha da Libertadores, a queda de produção da equipe após o título, o possível confronto com o Cruzeiro na Copa do Brasil e as edições recentes da PLACAR com o Galo na capa, incluindo o especial da conquista da América.

Para quem quiser conferir, o programa da Web Radio Galo está disponível na íntegra, bem aqui:


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Atlético-MG, Libertadores, Ronaldinho

O Galo dos milagres

Superstição é uma palavra sagrada para o Atlético. 13 é o número do Galo. E, há 13 anos, o clube não disputava a Libertadores. Estreou com o pé direito justamente em 13 de fevereiro, vencendo o São Paulo por 2 x 1. O palco era o Independência, onde o time seguiu invicto e que também tem 13 letras. Muito tempo atrás, o ilustre alvinegro Roberto Drummond já havia eternizado a máxima de que ser atleticano é “torcer contra o vento”. Mas, dessa vez, os ventos conspiravam para que 2013 se convertesse, de fato, no ano do Galo.

Não importava o passado: time que encantava, mas não levava, time que perdia no apito, time sem sorte. Não importava a uruca que parecia engolir de cabo a rabo as equipes regidas sob a batuta de Cuca: técnico azarado, técnico sem pulso, técnico que não ganhava. Tudo isso ficou para trás. Era hora de reescrever a história do Atlético. E, na primeira fase, com os endiabrados Ronaldinho Gaúcho, Bernard, Tardelli e Jô, artilheiro do torneio, com 7 gols, uma campanha quase perfeita do melhor time brasileiro na Libertadores deu o pontapé inicial da arrancada.

Novamente pelo caminho estava o São Paulo, de cara, nas oitavas. A única derrota até então, no último jogo da fase de grupos, foi marcada por uma declaração forte de Ronaldinho. “Isso aqui foi só um treino. Quando tá valendo, tá valendo.” O craque tinha razão. Tanto no Morumbi quanto no Independência, o Galo aniquilou o tricolor paulista, fechando com uma goleada por 4 x 1. Afinal, “caiu no Horto, tá morto”, dizia o lema da massa atleticana, que usou máscaras da morte para assombrar o Tijuana no jogo de volta das quartas de final.

Sem inspiração, o Galo tomou sufoco dos mexicanos e viu o primeiro milagre salvá-lo da degola. Victor defendeu o pênalti de Riascos aos 48 minutos do segundo tempo, levando a torcida ao delírio e o time à semifinal. Nesse dia, o Atlético começou a acreditar em santos e, principalmente, que podia ser campeão, contrariando todos os prognósticos. Diante do Newell’s Old Boys, jogo de ida na Argentina, tudo parecia acabado outra vez, com 2 x 0 de vantagem para os rivais. Devoto de Nossa Senhora Aparecida, Cuca se apegou à fé e à mística do Horto para confiar até o fim na virada em Belo Horizonte.

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Na volta, Bernard logo abriu o placar, mas, até um apagão cair dos céus no estádio, a Libertadores estava perdida. Até que Cuca resolveu colocar em campo o desacreditado Guilherme, que, com um chutaço de fora da área, marcou o gol salvador que levou o jogo para os pênaltis. Ali, o goleiro, abençoado pelo terço arremessado por um torcedor no gramado, intercedeu com mais uma obra divina. Mesmo depois de dois erros atleticanos nas cobranças, ele pegou o pênalti de Maxi Rodríguez e garantiu a vaga na finalíssima. Nas arquibancadas do Independência, a torcida alvinegra canonizou um novo santo brasileiro: São Victor.

Com a graça alcançada, muitos poderiam imaginar que a cota de milagres do Galo havia se esgotado. Ainda mais com um novo 2 x 0 no jogo de ida, agora para o Olimpia, tricampeão continental, com um gol de falta no último lance da partida. Cruel, porém a fé de Cuca e dos quase 60 000 torcedores que lotaram o Mineirão permanecia inabalável. O amuleto cultivado pelo técnico contra o mau agouro estava no vestiário minutos antes da decisão: a bola defendida pelo pé esquerdo de Victor diante do Tijuana. Mas o Atlético precisava de mais de uma bola para virar o jogo. Precisava de no mínimo dois gols e toda a sorte do mundo.

A penitência durou um tempo inteiro.  No primeiro minuto da segunda etapa, após falha de Pittoni, a bola sobrou limpa para o artilheiro Jô tirar a agonia dos atleticanos da garganta. O santo forte, entretanto, fraquejou quando Ferreyra passou por Victor e, com o gol aberto, escorregou antes de executar o disparo que seria fatal. Cinco minutos depois, aos 41, Bernard descolou um cruzamento milimétrico para Leonardo Silva se redimir de todos os seus pecados ao marcar de cabeça. Explosão e crença renovada no Mineirão. Com o empate na prorrogação, restou a São Victor parar a primeira cobrança de pênalti de Miranda com seu pé esquerdo abençoado e secar o chute derradeiro de Giménez, que morreu na trave.

Mais um milagre aconteceu. Nada é impossível para aqueles que creem no Galo, como Bernard e sua incrível profecia. “Este é o ano do Galo, podem apostar”, foram as primeiras palavras do baixinho em 2013. O clube de uma torcida apaixonada, devota, que tem o manto preto e branco como religião, não merecia ficar tanto tempo sem um título de expressão. Justiça seja feita: o Atlético campeão da América é uma benção dos deuses do futebol.


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Atlético-MG, Libertadores

A sorte é amiga da perfeição

Pênalti defendido aos 48 minutos do segundo tempo nas quartas de final.

Gol salvador aos 50 minutos de um jogo interminável na semifinal.

Pênalti salvo – São Victor, de novo – na cobrança derradeira do craque argentino, depois de dois erros seguidos dos atleticanos.

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Quando tudo parecia ir por água abaixo, o Atlético fez o impossível acontecer e seguiu adiante na Libertadores. Noites épicas, que, além de entrarem para a história, exorcizaram fantasmas e uma incômoda fama de azarado.

Pode soar como sorte de campeão, mas os milagres do Galo estão muito mais ligados ao mundo real que à intervenção divina, embora o apagão no Independência, as mãos de Victor e o chute magnífico de Guilherme teimem em dizer o contrário.

Esse Atlético espírita ganhou jogos trabalhando na surdina, em atitudes e decisões que precedem até mesmo a disputa da Libertadores.

Pouco mais de um ano atrás, o presidente Alexandre Kalil não se convenceu com a boa fase de Giovanni. Quis um goleiro mais experiente e tirou Victor do Grêmio.

Da mesma forma, não se iludiu quando todos exaltavam seu elenco como o melhor do Brasil. Resgatou Josué da Alemanha para ser o reserva que seguraria a bronca na semifinal diante da ausência de Leandro Donizete.

Em junho, Rafael Marques reclamou publicamente das poucas chances que teve no time. No dia seguinte, a diretoria anunciou sua renovação de contrato. Com Réver e Leonardo Silva sem condições de jogo, Rafael encarou a fogueira com Gilberto Silva no primeiro jogo da semifinal.

O herói contra o Newell’s, também insatisfeito com a reserva, esteve perto de ir embora. Mas, em nenhum momento, Cuca e Kalil abriram mão de Guilherme. Foram premiados com a vaga na final.

Mesmo jogando o melhor futebol do Brasil, o Atlético não se acomodou nem se deu por satisfeito com o resgate de sua autoestima e o orgulho do torcedor.

Agora, está a dois jogos do tão sonhado título da América, em uma campanha quase perfeita. Competência que atrai sorte – e que nunca é demais numa final de Libertadores.


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Atlético-MG, Libertadores

Por que o São Paulo não é um Atlético?

Primeiro, às semelhanças: dois presidentes passionais ao extremo, folclóricos, retóricos, populistas. Duas categorias de base bem estruturadas. Dois CT’s de primeiro mundo. Bom elenco, jogadores de ponta, formação tática parecida. Dois grandes clubes brasileiros.

O que separa Atlético e São Paulo, afinal? Cinco títulos brasileiros, três Libertadores, três Mundiais. Honrarias no plano histórico, que, comprovadamente, não entram em campo, não ganham jogos.

BELO HORIZONTE/ MINAS GERAIS / BRASIL (09.05.2013) Atlético x São Paulo - no Independência - Copa Libertadores 2013 - foto: Bruno Cantini

No plano atual, há dois traços determinantes que distinguem os mineiros dos paulistas. O banquete de jogadores do Galo derrama qualidade. O cardápio de Ney Franco não enche uma panela.

Sem poder contar com Lúcio, Luis Fabiano, Osvaldo e Aloísio nos dois jogos das oitavas da Libertadores, o São Paulo virou presa fácil para um plantel cheio de fome e talento do Atlético.

A outra diferença é conceitual. Na véspera do jogo de volta, em Belo Horizonte, Juvenal Juvêncio, mandatário longevo do tricolor, vangloriava-se de ter mudado todo o time – salvo Rogério Ceni – no fim de 2011. A entrevista à ESPN Brasil apenas elucidou uma inversão de postura desenhada há tempos nos bastidores do Morumbi.

Manter a base e valorizar jogadores com tempo de casa deu lugar a uma política de limpeza constante no plantel e apostas de curto prazo, como bem dissera o ex-superintendente Marco Aurélio Cunha. Tudo o que o clube não fazia em um dos períodos mais vitoriosos de sua história, com Muricy Ramalho no comando.

Tudo o que o Atlético se cansou de fazer em seus dias de penúria e flerte com rebaixamentos. Ao contrário de Juvenal, que acaba de dispensar nada menos que sete atletas, Alexandre Kalil aprendeu a lição. Mesmo com o time em crise, manteve boa parte do elenco goleado pelo Cruzeiro no fim de 2011. Aos poucos, incrementou “cerejas” no bolo e hoje colhe frutos de uma base bem plantada.

O São Paulo desaprendeu. No campo, no presente, está a léguas de distância do time de Cuca. E hoje, se repetisse dez vezes o confronto de mata-mata com o Atlético, perderia em todas, de novo.