Para início de conversa, transformar cartolas folclóricos em políticos contestáveis não é um fenômeno exclusivo de Minas Gerais. Eurico Miranda, no Rio de Janeiro, e Andrés Sanchez, em São Paulo, também se aproveitaram de sua popularidade entre torcedores para se eleger. Mas Alexandre Kalil e Zezé Perrella são o exemplo perfeito de como o futebol se mistura com a política e ajuda a cegar o eleitor.

kalil_perrella_eleicao

A trajetória de ambos é bem parecida. Perrella entrou para o cenário político como deputado e, em 2010, deixou o Cruzeiro à deriva para ocupar o posto de senador deixado por Itamar Franco. Três anos depois, já assentado como um dos maiores representantes da bancada da bola, trabalhou na surdina para livrar a CBF da CPI do Futebol. No entanto, depois da prisão de José Maria Marin pelo FBI, virou a casaca e votou pela abertura da CPI.

Antes de abandonar o Cruzeiro, Zezé usou o clube como plataforma eleitoral para o filho Gustavo Perrella – o mesmo que empregava o piloto do helicóptero com 445 kg de cocaína –, que acabou eleito deputado estadual e hoje é Secretário Nacional do Futebol. Na longa jornada à frente da equipe celeste, ganhou títulos, mas viu seu reinado terminar com um rombo de 30 milhões de reais e uma dívida de 112 milhões.

Já Alexandre Kalil ensaiou sua incursão na política ao filiar-se ao PSB em 2013. Chegou a se candidatar a deputado federal há dois anos e fez até logomarca inspirada no escudo do Atlético, mas desistiu do pleito alegando que não nasceu para ser político, embora tenha utilizado o clube para ajudar a eleger vereador o atual presidente alvinegro Daniel Nepomuceno – que, aliás, é um dos mais faltosos da atual legislatura na Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte.

kalil_escudo_galo

Em março deste ano, Kalil filiou-se ao PHS mineiro, que é liderado pelo deputado federal Marcelo Aro, responsável por conceder o título de cidadão honorário de BH a Eduardo Cunha quando era vereador da cidade. Aro faltou à sessão na Câmara dos Deputados que cassou o mandato de Cunha, investigado por corrupção pela Operação Lava Jato. Ainda assim, Kalil repete a todo momento que não é político, como se o partido de Aro, grande admirador de Eduardo Cunha, não estivesse por trás de sua candidatura à prefeitura de BH.

image
Marcelo Aro, amigo e defensor de Eduardo Cunha, Alexandre Kalil e Daniel Nepomuceno

Marcelo Aro também é diretor de ética e transparência da CBF. O atual mandatário da confederação, Marco Polo Del Nero, e os ex-presidentes Ricardo Teixeira e José Maria Marin foram indiciados pelo FBI por suspeita de corrupção. A histórica oposição à CBF não impediu que Kalil fosse um forte aliado de Marin, hoje preso nos Estados Unidos. “Do presidente José Maria Marin, eu sempre recebi deferência e atenção. E dou a ele deferência e atenção. Em tudo que eu precisei, mesmo quando não conseguiu, ele tentou me ajudar”, disse o então presidente do Atlético.

Em 2013, antes de se candidatar à prefeitura, Alexandre Kalil afirmava que não pediria voto a cruzeirenses. Agora, às vésperas da eleição, diz contar com “o voto de todos”. Típica contradição de político. Mas Kalil segue se apresentando como contraponto à “velha política”. Todo candidato a cargo público é um político por natureza e não há nada de errado nisso. Negar a condição de político não passa de um engodo, um desserviço à democracia, ainda mais partindo de um candidato pelo partido que não teve pudores ao defender ninguém menos que Eduardo Cunha.

Kalil se apoia em sua imagem como gestor, que, na verdade, é bem menos edificante que o mito reverenciado pelo torcedor atleticano. Uma das empresas do cartola-candidato deve mais de 100.000 reais de IPTU e 2 milhões de reais à iniciativa privada, de acordo com o jornal Hoje em Dia. Kalil tergiversou: “Sou empresário, devo, não me envergonho. Vou resolver”. No Atlético, apesar de ter conquistado o título inédito da Libertadores, o dirigente viu a dívida do clube aumentar em 128 milhões de reais durante sua administração. Ele alega que a receita cresceu no mesmo compasso. No entanto, Kalil cometeu o pecado da “velha cartolagem”: gastar mais do que arrecada. Alheio às gestões temerárias e dívidas alavancadas sob sua batuta, Kalil continua tentando se vender ao eleitor como bom administrador.

Administrador que nega a política. Mas foi capaz de sentar à mesa do maior rival, Zezé Perrella, para apoiar a candidatura de Antonio Anastasia ao governo de Minas, em 2010. “Porque Anastasia tá com Aécio [Neves] desde o primeiro dia”, justificou o atleticano ao incorporar o papel de militante do governador tucano. Hoje, entretanto, Kalil teima em bradar que não tem nada a ver com a “velha política”.

Kalil e Perrella são mais parecidos do que o torcedor imagina. Muitos atleticanos lembram aos cruzeirenses que têm todo o direito de votar em Kalil, pois teriam sido eles, do lado azul, os responsáveis por elegerem Perrella, numa espécie de revanche fora dos gramados. Mesmo com 11 candidatos no pleito, outros insistem em dar o voto clubístico por suposta escassez de boas opções. Um cenário de descrença política turbinada pelo discurso hipócrita do ex-dirigente que rejeita o rótulo de político.

O voto em figuras ligadas a clubes de futebol, sem nenhuma atividade pública relevante além da cartolagem, como Kalil e Perrella, representa a falta de esperança na política – que deve ser monitorada e aprimorada, não demonizada. Tal qual Perrella, Kalil representa a velha política dos cartolas. Populista, demagoga, contraditória e vazia. A rivalidade cega o bom senso. Porém, o eleitor deveria pensar duas vezes antes de se comportar como torcedor, sobretudo de dirigente.

13 comentários sobre “De Perrella a Kalil: uma lição mal compreendida pelo eleitor que age como torcedor

  1. Em Belo Horizonte tem opção melhor do que esse cartola? O favorito é um lunático, que se diz oposição a atual prefeitura em que sempre apoiou, se fazendo de bobo, escondido atras dos textos, incapaz de responder uma pergunta nos debates, típica marionette. O candidato do atual governo, na eleição passada protestou contra a forma de campanha do atual prefeito, mas se calou ao vender a alma e se tornar o vice. Tem tb um sargento pra la de duvidoso. o outro é a honestidade que ate assuta, falou do kalil mas ficou devendo uma grana de campanha para turma de 30 internautas. O petista da turma ao inves de discursar sobre a cidade, ainda vive o amargor do impechamento. E ainda tem aquele jovem que acha que Belo Horizonte é uma cidade anexada ao grande barreiro.Então caro blogueiro, nessa eleição existe opção melhor do que o Kalil?

    Curtir

    1. No primeiro turno, há 11 opções de candidatos em BH. Concordo que quantidade não tem a ver com qualidade. Mas, peneirando bem, dá pra achar alguém que valha o voto e não represente a “velha política”, sem precisar negar sua condição de político para tal.

      Curtir

    2. Na verdade o Kalil é uma das piores opções de longe!
      O autor do post nem chegou a citar mas o Kalil é culpado em primeira instância por ação PENAL de apropriação indébita previdenciária e recorre na segunda instância:
      http://www1.folha.uol.com.br/poder/eleicoes-2016/2016/08/1805615-candidatos-em-oito-capitais-respondem-a-acoes-penais.shtml
      Vulgo candidato que pode perder mandato e se tornar inelegível, tornando-se um voto pra vice.

      Curtir

  2. Kalil tenta fazer graça igual ao Bolsonaro… Não dá para administrar uma cidade querendo fazer tudo na marra, brigando, criando inimigos… Ou ele acha que dá para compor com a câmara de vereadores eventuais projetos que tenha nas mãos sendo odiado por muitos? E outra: um cara que se diz “administrador” e não político quer fazer o que lá? Como é que ele pretende gerir uma cidade em que uma das maiores fontes de arrecadação é de IPTU e ele dá o cano sem dó? Nunca votei em Perrella (e nem pretendo votar) e nem votarei no Kalil. Ainda que tenhamos divergência com relação ao meu time e o do Kalil, se pretendemos mudar o cenário atual da política brasileira não é colocando um cara que joga pra plateia, faz discurso populista, se acha maior que o mundo desrespeitando tudo e todos que iremos resolver…
    Se há 11 opções, 1 é que eu não voto mesmo…

    Curtir

  3. Independente de paixão clubistica, que triste é o atual quadro político de BH. A análise superficial das candidaturas permite concluir que todas tem interesses pessoais por finalidade, ao diverso do discurso hipócrita de querer o bem estar da população. Mais uma vez a escolha será pelo “menos pior”.Não podemos ignorar a política, mas devemos banir da vida pública estes maus políticos.

    Curtir

  4. Não sou exatamente fã de futebol, mas sou atleticana e…digamos que eu goste de saber o resultado do jogo. Não, não votei no Kalil, embora tenha considerado essa opção, mas, garanto que não seria fanatismo de torcedora. Considerando a atual situação política do país, qualquer pessoa que sugere algo “diferente” do que a manjada política dos manjados políticos torna-se competidor. Mas, embora eu com o meu pouco conhecimento sobre futebol, e na realidade, o meu pouco conhecimento sobre também os demais canforados, exceto o Delio e o João Leite, que também não me cabe julgar, considero o Kalil um bom gestor, tendo em vista o que a princípio ele fez com o Galo, não acho que é a solução simplesmente não fazer nada, mas não fazer nada, ao contrario daqueles que constroem trocentas obras e não acabam, significa menos possibilidade de fraudes em licitação, menos chances de superfaturar preços, então…,menos chances do prefeito dar “aquele jeitinho brasileiro” e “político” de ser. Na verdade não conheço o candidato como pessoa, muito embora alguns dizem que a pessoa pode não ser a mesma que ocupa o cargo, como se alguém conseguisse manter dois tipos de caráter. E digo, não, não acredito nisso, sou bipolar e posso confirmar que a pessoa pode ser duas, ou várias, mas o caráter, eu só tenho um, seja qualquer uma das mil “eus” dentro de mim. O que importa que não estou julgando o caráter do Kalil, e nem mesmo defendendo, já disse, não votei nele. O fato é que ao menos por quem olha sob o meu ângulo, em algum momento, parece ser uma escolha plausível. Trabalho no meio político e posso dizer, a título de esclarecimento, o que é bom que os eleitores saibam, para diferenciar, é que há sim uma diferença entre ser político e o “não ser político” que o Kalil diz. Sendo mais clara, é o seguinte:
    Na política, (polis-cidade…blá blá) quero dizer no “órgão” que gere o estado, o país e a cidade, estão englobados os diversos poderes (executivo, legislativo e judiciário). E legislar, assinar, permitir, votar, o presidente, o ministro, tudo isso é Política. Como se fosse um grande conjunto de elementos. Olhando por este aspecto, Kalil, como candidato que pleiteia o governo de uma cidade, é sim, político. Acontece que dentro da política, aprendi isso dentro dela, existem vários tipos de políticos. Em primeiro lugar, e em maior número, há aqueles que só pensam em si próprios, em segundo, os mau caracteres e os “políticos” ;em terceiro, os vaidosos, seguido dos bons e dos que não fazem nada. A palavra “políticos” dessa vez é empregada como adjetivo. Ou seja, “aquele que negocia, que discuti, que conversa” traduzindo na cultura brasileira como “aquele que dá um jeitinho” , acho que nem precisa dizer muito sobre qual dos dois políticos está falando o candidato. Verdade que para muitos, talvez a maioria, e inclusive para quem escreveu o artigo, não exista diferença no sentido da palavra, mas para a maioria também, não ser político, seja o sentido que for, já é um bom começo. Afinal a política hoje é um mar de tubarões. Concordo que usado como adjetivo, ser político nem sempre é ruim, mas como não é a realidade do país, quem não é político tem chance.

    Além de esclarecer isso, novamente, não defendendo, mas apenas a título de formação do cidadão, não acredito que o fato do candidato fazer parte do partido do Eduardo Cunha tenha alguma importância. O cara nem de Minas Geraos é, nem na política está mais, desculpa, mas achar coincidência desconexas e injustificadas não me parece ser um jogo honesto para convencer o eleitor de que votar no Kalil de alguma forma séria errado porque ele teria algo com Cunha, ora! Talvez eles nem se conheçam!! Acho que influenciar todo uma massa de eleitores é uma responsabilidade grande que não deveria ser tão facilmente distorcida e sutilmente omitida para que aqueles tem menos informações se achem errado ao escolher o ex presidente do seu time para votar. Vamos jogar com fatos que façam a diferença. Fazer ou não fazer algo na gestão como prefeito? Ter ou não ter uma boa relação com os governos estadual e federal? Isso faz diferença, isso influencia positivamente, e admito, que foi por causa disso, que, por medo da mudança, meu voto não foi dele hoje. Mas não acho justo mensagens distorcidas fazerem julgamentos ou concluírem caráter ou juízo dos outros. Não votei nele hoje, mas talvez no segundo turno eu vote, embora se eu fizer isso, estarei invertendo o meu voto, acredito que eu não o faça, mas apoio quem o faz e apoio por propostas diferentes e revolucionárias como estas para as próximas eleições. Democracia é isso, competir entre iguais, não é um jogo de quem joga o outro no fundo do poço mais rápido, somos todos moradores da cidade, todos queremos apenas um lugar melhor p viver. Se o meu candidato não ganhar, desejo que o que ganhar faça melhor ainda! É isso!! Ler faz toda a diferença!

    Curtir

    1. Os fatos estão postos, Andréa. A interpretação é livre. Mas a ligação do partido de Kalil com Eduardo Cunha tem importância, sim. Afinal, nenhum partido lança candidato ao poder executivo “de graça”. Caso eleito, Kalil terá de conviver com as alianças e pressões partidárias orquestradas por um parlamentar que deu o título de cidadão honorário de BH a Cunha. Daí a crítica a esse comportamento nocivo à democracia de negar a política. Isso é o que distorce a visão do eleitor. Kalil é tão político quanto os outros candidatos. E, antes de tudo, deveria ter a grandeza de se assumir como tal.

      Curtir

  5. Meu primo trabalhou na empresa deste cidadão e levou calote assim como outros vários funcionários. Como um cidadão que não paga INSS dos funcionários e nem o IPTU ainda tem coragem de querer ser prefeito da cidade?

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s