Dia Internacional do Trabalhador antecede fim de semana derradeiro para a maioria dos jogadores do país, que enfrenta desemprego em massa após desfecho dos Estaduais

Por Breiller Pires

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O Dia do Trabalhador deste ano precede o fim de semana de encerramento da maioria dos campeonatos estaduais pelo Brasil. Em dois dias, boa parte dos 584 dos 684 clubes registrados na CBF que não disputam nenhuma das divisões do Brasileirão entrará em um longo período de ostracismo, desempregando 82% dos cerca de 20.000 atletas profissionais do país. Como PLACAR revelou em março, essa fatia expressiva da mão de obra da bola enfrenta condições precárias de trabalho, calote dos patrões, falta de alimentação e alojamento adequados. Uma clara expressão da escravidão contemporânea que se instalou no futebol.

Antes postos de emprego desejados pelos craques, clubes tradicionais tornaram-se alvo da cobrança de dívidas trabalhistas e beiram a falência. A Portuguesa se desdobra para quitar débitos com mais de 130 funcionários e evitar que o estádio do Canindé vá a leilão. Recentemente, parte do terreno foi penhorada pelo Tribunal Regional do Trabalho, que cobra 47 milhões de reais do clube referentes a processos de oito atletas. Situação semelhante à do Guarani, de Campinas, que viu o Brinco de Ouro ser arrematado no fim de março por uma empresa de empreendimentos imobiliários depois de ação da Justiça e do Ministério Público do Trabalho.

No Congresso Nacional, tramita a Medida Provisória 671, que prevê contrapartidas como responsabilidade fiscal e quitação de salários para que clubes refinanciem suas dívidas com o governo. No entanto, a MP só deve ser votada pela Câmara dos Deputados em junho. Dirigentes e CBF pressionam para que a medida seja aprovada sem compensações. Enquanto trabalhadores se mobilizam neste 1º de maio contra a lei da terceirização que também corre no Congresso, os jogadores de futebol seguem reféns de clubes mal administrados e estruturados, de uma rotina de atrasos de pagamento e fraudes trabalhistas de toda sorte. PLACAR ouviu quatro representantes do “futebol de verdade”, que dão o tom de desilusão entre a classe dos jogadores no Dia do Trabalhador.

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“Eu comecei no Taboão da Serra e joguei a série B do Brasileiro pelo Grêmio Barueri. Nunca tive carteira assinada. Na verdade, a primeira vez que assinei um contrato foi aqui, no Barcelona da Capela. Quando fui para a Bahia, joguei como amador pelo Serrano, de Vitória da Conquista. Cheguei a viajar 15 horas de ônibus para disputar uma partida no mesmo dia. Refeição, só arroz e feijão. Em dois anos, entre Serrano e Barueri, não recebi nada de salário. O que ganhava era o bicho [premiação por vitórias], de vez em quando. Não vou entrar na Justiça para receber. Quem faz isso acaba ficando ‘queimado’ no meio. Por sorte, minha família me ajuda. Já dei chuteiras para alguns companheiros e vi muita gente boa parar por não ter dinheiro pra botar comida em casa.”

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Rafael atuou pelo Grêmio Barueri e ficou quase dois anos sem receber

“Futebol de verdade não é só aquele que aparece na televisão. Futebol de verdade não traz igualdade, mas sim desigualdade. Isso é real! Desigualdade na distribuição de cotas das federações para clubes menores, desigualdade nos campeonatos, em que jogadores de times grandes e medianos têm uma tabela cheia o ano inteiro, enquanto a maioria dos clubes brasileiros vive só dos Estaduais. Times tradicionais do interior estão fechando as portas, cheios de dívidas. Dirigentes e empresários tratam como lixo a matéria-prima do futebol, que são os jogadores. Somos escravos da bola. Não temos o que comemorar no Dia do Trabalhador.”

Rafael Bitencourt, 21 anos, goleiro do Barcelona da Capela, que disputa a quarta divisão do Campeonato Paulista. O clube estava parado desde 2009 e só retomou as atividades nesta temporada, graças aos cerca de 300.000 reais que recebeu pela negociação de Diego Costa – revelado na equipe paulista – com o Chelsea.

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“Fiz o gol da virada e fui comemorar com a torcida. Ao me aproximar do alambrado, pisei em um buraco e escorreguei. Rompi o tendão do joelho esquerdo. Eu deveria ter operado imediatamente, mas só fui fazer a cirurgia depois de 35 dias. O clube me abandonou desde o dia da lesão. Não bancou nada. Precisei passar por outra cirurgia por causa de um descolamento de enxerto. Tive de fazer uma vaquinha e pegar dinheiro emprestado para pagar os 5.500 reais ao médico. Estou devendo até hoje. E o pior: meu joelho corre risco de artrose. O diagnóstico é de uma nova operação. Fiz o orçamento e ficaria em 6.300 reais, mas não tenho como pagar. Recebo apenas 1.150 reais do INSS. Isso porque pressionei o clube depois da lesão e só assim assinaram minha carteira de trabalho. Como o Corumbaense não pagava o seguro obrigatório do atleta e não depositou um real do meu FGTS, eu fiquei desamparado.”

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Júnior Tevez organizou rifa entre amigos para arrecadar fundos de cirurgia negada pelo Corumbaense

“No futebol, não se importam com o trabalhador, com o ser humano. O que mais dói é que me machuquei defendendo a camisa do time e até hoje não recebi uma ligação sequer. Estou incapacitado para jogar. Não tenho mais esperança de voltar. O Corumbaense destruiu minha carreira. Entrei na Justiça contra o clube, mas não existe nenhuma previsão de me indenizarem. Foram 60 dias de cama, sem poder pôr o pé no chão. Nesse período, passei até fome com minha esposa em Corumbá. Num fim de semana, sobrevivemos à base de água e farinha. Assim que pude, voltei para a Bahia. Se tivesse ficado lá, eu teria morrido de fome.”

Júnior Tevez, 29 anos, ex-atacante do Corumbaense. Ele machucou o joelho após marcar o gol da vitória da equipe diante do Sete de Dourados pela primeira divisão do Campeonato Sul-Mato-Grossense, em fevereiro de 2013. Desde então, não entrou mais em campo. Ninguém da diretoria do clube foi encontrado pela reportagem para comentar o caso.

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“Jogador de futebol também é um trabalhador. Infelizmente, no Brasil, temos que brigar pelos nossos direitos. Em três anos, eu só recebi por quatro meses de trabalho jogando por clubes pequenos. Trabalhamos 90 dias para receber um mês. É o que os dirigentes fazem para não correr o risco de perder o jogador na Justiça [A Lei Pelé estabelece que três meses de atrasos salariais podem motivar o rompimento unilateral de contrato por parte do atleta]. O futebol é surreal. Vi amigo, pai de três filhos, pedir dinheiro emprestado para a família ter o que comer. A imprensa só leva ao conhecimento do torcedor os 2% [de jogadores] que ganham bem e defendem times grandes. Eu não tinha noção disso quando jogava no Corinthians. Clubes que não pagam, não recolhem fundo de garantia, uma bagunça. Cheguei a jogar sem carteira e sem contrato, algo que eu nunca poderia imaginar. Ainda passei por quatro cirurgias e perdi a motivação para seguir na profissão. A partir do momento em que não pagava mais as contas de casa, resolvi parar.”

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Volante formado pelo Corinthians parou de jogar aos 29 anos

Bruno Octávio, 29 anos, bicampeão brasileiro pelo Corinthians (2005 e 2011). Depois do clube alvinegro, rodou por clubes como Bahia, Grêmio Barueri, Araxá e Marcílio Dias, onde encerrou a carreira no ano passado.

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“Vivemos uma realidade de escravidão no futebol. Jogador não tem dignidade, não é respeitado. Os cartolas vagabundos, ladrões, sabem que a Justiça é lenta e que eles não serão responsabilizados pelas mazelas. Estamos tentando mudar isso com a aprovação da MP do futebol [Medida Provisória 671]. Em 2013, fui jogar no Alecrim, do Rio Grande do Norte. Ficaram mais de três meses sem pagar salário e ainda me dispensaram. Só que não me liberaram na Federação, fiquei preso ao clube. Fui obrigado a gravar um vídeo elogiando a diretoria para poder me desvincular do Alecrim. Depois, fizemos um acordo judicial, mas só me pagaram uma parcela da dívida. Tenho dinheiro para receber de outros três clubes. Estou na fila do Botafogo. Mas deve demorar dez anos ou mais para sair.”

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Membro do Bom Senso F.C., Ruy Cabeção já se reuniu com a presidente Dilma Rousseff para cobrar medidas que valorizem o trabalhador nos clubes

“Há dois anos, moro longe da minha família. Não tem cabimento trocar minhas filhas de escola a cada três, quatro meses. Esse é o tempo que os jogadores costumam durar nos clubes nanicos. Essas equipes precisam estar em atividade o ano inteiro, não só por um semestre ou por alguns meses. Estamos perdidos. A Globo, detentora dos direitos de transmissão na TV, não mostra a realidade do futebol para não desvalorizar seu produto. Jogador que não recebe rende menos em campo, a qualidade do jogo cai, o torcedor perde o interesse. Eu estou cansado, já não tenho mais paciência para essa rotina de sacrifício e descaso.”

Ruy Cabeção, 37 anos, meia com passagens por Cruzeiro, Botafogo e Fluminense. É integrante do Bom Senso F.C., movimento de jogadores que reivindica melhorias no futebol. Atualmente, defende o Operário de Várzea Grande-MT. Fez um “pacote” de quatro meses para jogar pelo clube, mas, até o momento, só recebeu por um.

LEIA MAIS:
Escravos da bola: a história de jogadores explorados pelo futebol


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