Mineirão

Para apagar reverência à ditadura, Mineirão pode mudar de nome este ano

Por Breiller Pires

reinaldo_mineirao_ditadura

Em setembro, o Mineirão celebrará os 50 anos de sua inauguração. Em março, a redemocratização do Brasil atingiu a marca de três décadas. O elo entre as duas datas é paradoxal e, em um primeiro momento, pode passar despercebido.

O nome oficial do estádio é Governador Magalhães Pinto, uma homenagem ao ex-governante de Minas Gerais. Apoiador do golpe militar de 1964, ele foi responsável por articular no estado a derrubada do então presidente João Goulart e, quatro anos depois, ajudou a instituir o AI-5, que cerceou praticamente todas as liberdades políticas e individuais que ainda restavam no auge da opressão.

À frente do governo mineiro, Magalhães Pinto já havia dado uma prévia de como seria a ditadura no país. Em 1963, militares do estado reprimiram duramente uma manifestação de operários da Usiminas, em Ipatinga. A ação deixou em torno de 30 mortos – incluindo um bebê que estava no colo da mãe – e centenas de feridos.

Como forma de reparar a reverência a sua figura, um projeto de lei do deputado estadual Paulo Lamac pretende substituir o nome do estádio por apenas “Mineirão”, seguindo as diretrizes do relatório divulgado pela Comissão Nacional da Verdade em dezembro do ano passado. O documento cita Magalhães Pinto como um dos executores de crimes às vésperas e durante a ditadura.

Estádio homenageia ex-governador do “Massacre de Ipatinga” | Crédito: Pedro Silveira

Existe a expectativa de que a proposta seja aprovada na Assembleia estadual ainda este ano devido à mobilização pelo cinquentenário do estádio. “É preciso educar e conscientizar os cidadãos sobre uma passagem da história brasileira que violou direitos humanos mais básicos. Mudar o nome do Mineirão será um marco simbólico. Sobretudo nesse período em que muita gente ignora valores democráticos e pede a volta da ditadura”, diz Lamac.

Reinaldo, maior artilheiro do Mineirão e opositor do regime militar quando jogador, apoia a mudança de nome do estádio. “Uma praça esportiva como o Mineirão, que é um bem público, deveria reverenciar gente do futebol, não políticos da ditadura.” Nos anos 70, ele tornou célebre o gesto do punho erguido ao comemorar seus gols em protesto contra as arbitrariedades do governo. “Quem pede a volta da ditadura não sentiu na pele o que eu sofri.”

O projeto está em tramitação desde 2013. No início deste ano, o Ministério Público Federal recomendou urgência na apreciação da proposta pelos parlamentares. Relator da Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia, o deputado João Alberto é o encarregado de colocar a matéria em votação. Ele não atendeu as ligações de PLACAR.

Em caso de êxito, o Mineirão será o primeiro dos dez estádios brasileiros que homenageiam nomes ligados à ditadura a romper com as amarras de um passado perverso. Rebatizar o maior palco do futebol de Minas Gerais como os mineiros afetuosamente o apelidaram é um presente à altura de seus 50 anos e de sua verdadeira história.

LEIA MAIS:
• O futebol imita a ditadura. Desmandos, censura e assassinatos
• “Os militares me impediram de jogar a final do Brasileiro de 77”


Acompanhe as novidades do blog pelo Twitter: @bololomineires