Cruzeiro

Tinga dá a volta por cima

PLACAR CRUZEIRO 2014

O jogo contra o Real Garcilaso ficará marcado para sempre na história de Tinga. Não como um trauma, por causa dos grunhidos de macaco que ouvia da torcida peruana cada vez que tocava na bola. Mas pela virada que o episódio representou em sua vida.

Tinga, além de atleta, tornou-se um militante. Criou a campanha “Chutando o preconceito” e aproveitou o período em tratamento após sofrer uma grave fratura na perna direita para percorrer o país levantando suas bandeiras contra o racismo, a intolerância e a desigualdade social.

Recuperado, hoje o volante completa 37 anos. Ele comemora o aniversário fazendo o que mais gosta: jogando futebol.  Um ser humano que não nega suas origens, seus traços, muito menos a responsabilidade que carrega como jogador.

“Não encaro a vida com revanchismo”

 

Racismo existe desde o tempo do Pelé e antigamente. Hoje aparece mais por causa da tecnologia, da mídia. Antes o futebol não tinha tanta visibilidade. Aconteceu comigo no Peru e acabou se tornando um marco. Mas não gosto de falar só de racismo. Parece que a gente tá defendendo a própria causa. Só que a violência, a falta de educação, a questão do preconceito como um todo nos estádios, a gente acha tudo normal. Aí vêm dizer: “Ah, é coisa do esporte, fulano não sabe levar na esportiva”. Não, não existe isso. O preconceito está em todos os lugares, mas no futebol, que envolve muita paixão, a coisa pega mais. Esse negócio de estádio novo, arena daqui, arena dali, bah… O pessoal tá achando que é arena de batalha, de vale-tudo.

***

Não mudou nada em relação ao que era no passado. O torcedor ainda acha que pode fazer tudo no estádio. Acha que violência vale, que pode dizer qualquer tipo de palavra. E é todo mundo: criança, adulto, homem, mulher, rico, pobre. Xinga jogador, xinga juiz. Como se fosse outro mundo, com suas próprias regras. Falta o torcedor entender que, dentro de um estádio, a gente tem de ser o que somos em casa, na rua ou no trabalho.

***

O futebol, por ser o esporte de massa do Brasil, deveria se envolver mais socialmente. Ninguém tem o espaço de mídia que tem o jogador. Gratuito! O ator passa na televisão, mas na novela ele interpreta, não é quem ele realmente é. Já o jogador está o tempo todo ali, ao vivo, diante de um microfone, de uma câmera. Se ele quiser se articular, consegue passar muitas mensagens pra ti. Nós, atletas, precisamos ser mais ligados. Nosso universo é fora do normal. Apenas 5% dos jogadores vivem bem. O resto corre atrás de ilusão. Mas esses 5%, que estão em times de ponta, têm muito conformismo. Parece que, se tá bom pra gente, tá bom pra todo mundo. Daqui a pouco o sucesso passa e o jogador também vai deparar com os problemas. Já evoluímos nesse ponto, mas podemos colaborar mais com a sociedade.

***

PLACAR CRUZEIRO 2014

Não encaro a vida com revanchismo. Racismo existe, claro. Mas a diferença do Nelson Mandela para os outros foi essa. Ele mudou a história da África do Sul sem caça às bruxas, sem impor outro tipo de segregação. Você nunca vai me ver cobrando punição a ninguém. Não quero saber se puniram o time em 30, 40.000, 1 milhão de reais… Para mim, punição de verdade é fazer o clube se envolver em uma causa, botar uma mensagem na camisa. Aí talvez daria mais prejuízo financeiro do que pagar multa. Quer evoluir? Quer conscientizar? Existem várias maneiras, mas não é dinheiro que vai mudar.

***

Vários outros jogadores de ponta já tinham sido vítimas de racismo na Europa. Eu acho que meu caso repercutiu tanto por causa da minha reação. Seria natural que eu saísse de campo xingando, que ameaçasse não jogar mais, que eu tirasse a camisa, que eu me revoltasse. Felizmente eu tive a sorte de, em três segundos, que foi praticamente o tempo entre o juiz apitar o fim do jogo e um repórter chegar com o microfone em minha boca, dar a melhor resposta: “Eu trocaria todos os meus troféus pela igualdade”. Isso é o que marcou. Palavras comovem, mas o que arrasta a multidão são atitudes.

***

Muita gente se espantou com meu esclarecimento sobre a questão. Mas não é de hoje que eu me preocupo com as causas sociais. Há 12 anos, me envolvi em meu primeiro projeto social, com o Dunga, na Restinga, o bairro onde eu nasci. Isso vem de muito tempo. No dia em que eu cheguei à Toca, perguntei quantos funcionários tinha. Gosto de ajudar em todos os clubes. Aí me falaram que eram 40. Eu falei p… que pariu! Mas não desanimei. Faço uma cesta básica para cada um. Outros jogadores gostaram da ideia e já ajudam também. A gente sempre pode fazer algo mais.

***

Eu tive o azar de quebrar a perna, mas creio que foi Deus quem preparou isso para mim. Não é de hoje que eu me preocupo com as causas sociais. Muito antes de surgir o “Chutando o preconceito” eu já fazia projetos nas comunidades de Porto Alegre. Viajei muito nesses três meses, 70% dos debates eram sobre a questão racial. Estou fazendo algo que nunca imaginei. Levantando discussões, uma causa, uma campanha que extrapola o futebol. A gente tem mania de definir as pessoas com os olhos. Isso é o que precisa mudar, cara. Mas ainda leva tempo.

***

Olha, um dia me chamaram para falar sobre racismo e, no fim, era pra gravar um clipe. E nem música de cunho social era. Cara, não faço. Eu tomo muito cuidado. Não quero aparecer, não quero me promover. Quando a presidente Dilma me convidou para uma conversa, ela contou sobre as campanhas que fariam na Copa do Mundo. Uma delas era “Diga não ao racismo”. E eu sugeri que fosse “Diga não preconceito”, que abrangeria uma causa ainda maior. Ela ficou impressionada. Se engana quem pensa que essa luta é para me beneficiar. É, na verdade, por quem é subjugado por causa da cor, do peso, da orientação sexual. O futebol me deu muitas coisas, mas eu tenho amor por servir, por fazer as coisas não para mim, mas para o outro.


Acompanhe as novidades do blog pelo Twitter: @bololomineires