Cruzeiro, Libertadores

O homem por trás do bigode

Willian Bigode Cruzeiro

Carlos Drummond de Andrade diria que “o homem atrás do bigode é sério, simples e forte”. O verso de uma das obras mais famosas do poeta mineiro serviria como descritivo perfeito para Willian, sobretudo depois de uma temporada repleta de provações.

Em pelo menos cinco jogos do Brasileirão, ele jogou no sacrifício por causa de uma lesão no púbis.

“No estágio em que eu mais senti dor, não tínhamos tantas peças de reposição, porque outros jogadores também estavam machucados.”

O atacante cruzeirense ainda sofreu uma fissura na costela no jogo de ida contra o Santos, pela Copa do Brasil, mas, em uma semana, já estava em campo novamente pela partida de volta, na Vila Belmiro. Marcou dois gols que decretaram a classificação celeste para a final.

“Senti tanta dor no primeiro dia que nem dormi. Mas em momento algum eu pensei em ficar fora do time. Me empenhei no tratamento e consegui dar minha contribuição.”

Hoje tricampeão brasileiro (dois títulos pelo Cruzeiro e um pelo Corinthians), Willian celebra a renovação de contrato e a identificação com o clube, sua principal motivação para encarar as dores no campo, e não no departamento médico.

“Depois do jogo contra o Goiás, eu brinquei com o Dago, que é penta: ‘Eu vou chegar, hein?’ Não é fácil ser campeão brasileiro. Aprendi isso no Corinthians. Mas é uma meta que me motiva, assim como o apoio de todos os torcedores. Sempre fui tratado com muito carinho nos clubes em que joguei, mas aqui no Cruzeiro é uma coisa mais forte.”

PLACAR CRUZEIRO 2014

Além da raça e de gols decisivos, um amuleto felpudo no rosto o distingue dos demais…

“O bigode marcou, né? Todo mundo que me vê na rua grita: ‘Ô, Willian Bigode!’. Mas o que tem por trás do bigode, minha entrega, minha disposição, é o que faz a diferença.”

A ambição é proporcional à fama de um dos últimos bigodudos do futebol brasileiro – só por isso o moço já mereceria todo respeito.

“O objetivo agora é ganhar mais títulos, como a Libertadores e a Copa do Brasil. Aqui no Cruzeiro temos qualidade, vontade e organização. O ano de 2014 foi muito bom, mas tenho certeza de que 2015 será ainda melhor.”


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Atlético-MG, Cruzeiro

Precisamos falar sobre homofobia

Por Breiller Pires

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Provocações com contornos discriminatórios enrustidas em apelidos jocosos como “maria”, “franga”, “bambi” e “bicha” são usadas e banalizadas por diversas torcidas. Mas pode-se dizer que o futebol em Minas Gerais “bolsonarizou”.

Curiosa e preocupante a guinada homofóbica dos últimos anos no estado, ironicamente conhecido como um dos mais acolhedores do país. “Bolsonarizar” é ignorar que preconceitos existem e que, a essa altura do campeonato, não podem mais ser encarados com normalidade.

Ignoramos os fatos: não há nenhum jogador declaradamente gay no futebol brasileiro. Não há um ídolo declaradamente gay entre os 20 times da primeira divisão. Você, homem ou mulher, que adora chamar cruzeirense de maria ou atleticano de franga, realmente acha que um gay nunca vestiu as cores do seu time?

Contente-se com a realidade. É bem provável que você já tenha comemorado gols de um artilheiro que prefere homens a mulheres, embora atitudes machistas como a sua contribua para a perpetuação da cultura repressora que se estende do vestiário às arquibancadas.

No ano passado, entrevistei um dos diretores de uma organizada do Cruzeiro. O sujeito disse que em nenhuma hipótese aceitaria um homossexual jogando pelo clube. Imagina o preço a ser pago pelo jogador que resolva sair do armário? Vai pagar com a reputação? Com a carreira? Com a própria vida?

Em um cenário em que “torcedores” ainda são capazes de matar outro apenas por envergar uma camisa diferente da sua, e em que gays continuam sendo diariamente agredidos e achincalhados por religiosos extremistas e “homens de bem” de todos os cantos, não é de se esperar algo diferente.

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“Ah, mas não é homofobia chamar um heterossexual de gay!”

Depois de muitos anos, torcedores do Grêmio, pelas vias tortas do caso Aranha, perceberam que chamar o rival de “macaco”, não importa a cor de sua pele, é um gesto racista. Organizadas do clube baniram o termo de seus cânticos. Em Minas, a música que embalou a conquista da Copa do Brasil pelo Atlético começa com “maria”. Alguns jornais, inclusive, reproduzem a expressão como se fosse algo inofensivo, normal. Não é.

Nossos netos e bisnetos um dia vão olhar para trás e sentirão vergonha do período em que vivemos, assim como hoje nos envergonhamos – embora alguns não pareçam se envergonhar – da escravidão. Ainda nos envergonharemos de piadas sem graça e dos gritos de “bicha” no estádio.

Em setembro, o STJD abriu inquérito para investigar os cânticos homofóbicos das torcidas de Corinthians e São Paulo no último clássico. Ninguém foi punido ou denunciado. Mas, ainda que vagarosamente, parte da sociedade começa a se posicionar contra o viés preconceituoso acobertado pelo futebol.

Por mais que se tente negar, justificar ou atribuí-los ao vocabulário politicamente incorreto do torcedor, termos como “maria”, “rosana”, “franga” e “lurdinha”, todos eles, independentemente do lado, têm conotação homofóbica.

Aproveite o Natal para refletir, para se tocar da realidade de privações e preconceitos que homossexuais encaram no dia a dia até serem inferiorizados, de graça, em nome de provocações tolas camufladas na rivalidade.

Aproveite a virada do ano para evoluir e tirar sarro do rival sem que sua provocação desdenhe da orientação sexual do outro. Estamos quase em 2015. E agora, José?

Imagem de capa: Galo Queer


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Atlético-MG

Realização e desgosto marcam o antagônico fim de ano de Tardelli

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Diego Tardelli traçou duas grandes metas individuais para 2014: marcar um gol de título para o Atlético e ganhar novamente a Bola de Prata PLACAR. A premiação recebida nessa segunda-feira e a conquista da Copa do Brasil encerram uma temporada de realizações e protagonismo para o atacante.

“É especial. Eu ficava atualizando a cada rodada, estava na briga pela Bola de Ouro. No fim, vi que o Goulart deu uma disparada e ficou difícil. Mas estou muito feliz por ter ganhado minha terceira Bola de Prata.”

A honraria foi concedida pelo desempenho no Brasileirão. Para Tardelli, no entanto, a competição mais importante do ano foi outra.

“Eu tinha o sonho de marcar um gol de título para o Atlético, ainda mais em cima do Cruzeiro, nosso maior rival. Joguei bem, fiz o gol na final da Copa do Brasil e entrei de vez para a história do clube. Foi exatamente como imaginei no começo do ano.”

Agradecimentos não faltam. Sobretudo ao técnico Levir Culpi, com quem ele se desentendeu após a eliminação do time na Libertadores e que quase o motivou a buscar outros ares.

“O Levir chegou impondo muitas coisas e a gente já tinha um grupo formado, uma filosofia de jogo. Isso acabou sendo algo positivo, era preciso dar uma sacudida no ambiente. Tive uma discussão com ele no início do trabalho, mas morreu ali. Hoje somos grandes amigos, nos respeitamos muito. Ele é um paizão no Atlético.”

O segredo da mudança de rumos na relação? Concentração – ou a falta dela:

“Isso foi fundamental para nossa conquista. Ele nos tirou da concentração e voltamos a ter o prazer de jogar bola. Faz toda a diferença saber que você vai sair do treino e voltar pra casa.”

Diego Tardelli

Apesar das conquistas e do clima de paz com Levir, Tardelli segue fazendo mistério sobre a permanência no Atlético. O atacante confirma uma proposta do exterior e deixa em aberto o futuro na Cidade do Galo. Durante a cerimônia da Bola de Prata, voltou a desabafar:

“Ainda não falei com o novo presidente [Daniel Nepomuceno]. Meu empresário tem uma conversa marcada com ele. Nesses quatro anos fora, eu nunca deixei de pensar no Atlético. Abri mão de muitas coisas para voltar. Mesmo com todos os problemas internos, a situação financeira, os atrasos de salário, eu nunca reclamei de nada. Só que tem uma hora que pesa, né? Pesa na família, pesa no orçamento de casa… E a proposta que eu recebi é muita boa. Pode mudar minha vida e a da minha família.”

Nesse momento, Tardelli reivindica valorização e manifesta uma  insatisfação represada com os frequentes atrasos de pagamento no clube. As promessas do ex-presidente Alexandre Kalil de colocar as contas em dia não se concretizaram e, durante toda a temporada, o elenco conviveu com vencimentos atrasados. Tardelli, por exemplo, teria três meses de pendências salariais.

Seleção é um dos argumentos da nova diretoria para convencê-lo a ficar. Mas, em conversas recentes com Dunga e membros de sua comissão técnica, Tardelli ouviu que uma transferência para o exterior, independentemente do país, não interfeririam em futuras convocações.

Questionado sobre a probabilidade de deixar o Atlético, o Bola de Prata atleticano adota um discurso mais político:

“Eu não sei. Ainda está meio dividido: 50% de chance de ficar, 50% de sair.”

Qualquer oscilação para mais ou para menos nos próximos dias pode mudar a vida de Tardelli e do Atlético em 2015.


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