Atlético-MG, Cruzeiro, Mineirão

Crime e castigo

Me desculpe, atleticano. Me desculpe, cruzeirense. Mas tenho de ser franco com você. Aliás, tendo a ser pouco complacente com esse hábito secular de transferir responsabilidades. Na política funciona assim.

Se o país vai mal, culpa dos políticos. Acobertamos nossos pequenos desvios do dia a dia, mas nos revoltamos com a corrupção de quem comanda, legisla ou governa. Reclamamos da falta de propostas nos debates eleitorais, mas não nos importamos em descer o nível nas conversas de boteco ou nas redes sociais, divagando entre o suposto vício alheio e a Intentona Neocomunista.

Representantes, públicos ou não, se espelham e balizam seu comportamento em nossas atitudes. Cartolas de futebol agem da mesma maneira. O que os presidentes Alexandre Kalil e Gilvan de Pinho Tavares fizeram com a maior decisão de todos os tempos entre Atlético e Cruzeiro é um crime, um profundo desrespeito com os mineiros que amam futebol.

Preços abusivos nos dois jogos, total descompromisso com o espetáculo, a falta de bom senso de ambas as partes nas negociações. Independentemente do vencedor, o clássico dos clássicos está manchado por dirigentes que se comportam como torcedores.

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Por isso, a culpa é sua, torcedor. O futebol no Brasil está longe de ser profissional. Empresários bem sucedidos que se aventuram pela presidência de clubes metem os pés pelas mãos, movidos por paixão, assim como você.

Você, atleticano, que vibrou com cada declaração estúpida e populista de Kalil antes do primeiro jogo da final. Você, cruzeirense, que comemorou como um gol do Marcelo Moreno o troco de Gilvan ao inflar o ingresso do adversário ao valor estapafúrdio de 1.000 reais.

Você, que deixa seu time em segundo plano para torcer por dirigente, por torcida organizada ou apenas pelo fracasso do rival. Que engole bravatas, se cala diante do descontrole da cartolagem e não cobra que sócios tenham direito a voto no clube, mas agora está indignado por ter ficado fora da festa.

A eleição não dividiu o país. Mas a final da Copa do Brasil rachou Minas Gerais. Entre dirigentes com fama de espertos e torcedores com cara de palhaço.


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Atlético-MG, Cruzeiro, Mineirão

O Brasil se curva a Minas. Bairrismo de quem?

Pela primeira vez, Atlético e Cruzeiro decidem um título nacional. Não só pela final da Copa do Brasil, mas também pelas campanhas notáveis nos últimos dois anos, os gigantes mineiros estão na vanguarda do futebol brasileiro.

E o reconhecimento vem de todos os cantos do país. Imprensa e dirigentes de outros estados têm destacado o planejamento, a estrutura, os CT’s de grife internacional, a eficiência e a garra dos times de Minas Gerais, que hoje são exemplos para muitos clubes.

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Na semifinal, o Cruzeiro sofreu com um gol anulado no primeiro jogo e, em Santos, com a marcação de um pênalti questionável. Ignorou erros de arbitragem, evitou a vitimização e se impôs para garantir uma classificação dramática.

Já o Atlético superou o trauma de eliminações – no apito e na bola – para o Flamengo. Em vez de queixar-se do pênalti e de uma não expulsão rubro-negra no Maracanã, o time alvinegro se mobilizou para carimbar em sua história mais uma virada heroica, repetindo o roteiro de três semanas atrás diante do Corinthians.

Cruzeiro e Atlético em uma final de Copa do Brasil serve para exorcizar um fantasma que assombra o torcedor mineiro: o eixo Rio-São Paulo, o “eixo do mal”. Resquícios de um tempo em que árbitros de fato pendiam para paulistas ou cariocas alimentaram ao longo de quase uma década a desculpa dos cartolas mineiros para a seca de títulos importantes no cenário nacional.

Endossados pela ala condescendente e provinciana da imprensa mineira, que usa de hipocrisia para negligenciar interesses comerciais dos meios de comunicação e só enxerga o bairrismo dos outros, dirigentes de Minas se habituaram a mascarar os próprios erros para vender teorias conspiratórias como engodo à desilusão dos torcedores. Como se capas de jornais ganhassem jogos.

Em 2011, a dupla afundou de mãos dadas. Flertou com o rebaixamento durante boa parte do Brasileiro. O clube celeste só escapou na última rodada com o 6 x 1 sobre o rival. Um fim de temporada melancólico para o futebol mineiro.

Naquela época, a desculpa não era a incompetência de um Atlético que contratava a granel ou de um presidente que havia abandonado o Cruzeiro em favor do Senado, mas sim o conluio da CBF com o “eixo do mal” que, além do apito-amigo, havia deixado os mineiros sem casa por causa da Copa do Mundo – como se ambos não tivessem se curvado à resolução do governo estadual que interditou os dois estádios da capital ao mesmo tempo.

Três anos depois, Cruzeiro e Atlético agora contam com dois estádios modernos e antológicos como trunfo. Ganharam Libertadores e Brasileiro. Deixaram de embarcar na falácia da conspiração, do “nós contra o resto”, da rivalidade de comparação que só os empurrava para baixo. Passaram a olhar para dentro, a reconhecer e corrigir as falhas. Passaram a pensar como times grandes.

A final mineira é um presente ao bom futebol, à vocação de Minas ao protagonismo. E também uma pá de cal sobre o bairrismo às avessas que por pouco não enterrou atleticanos e cruzeirenses no campo das lamentações.


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