Atlético-MG, Ronaldinho

O trono de Ronaldinho está vago. E não há ninguém na fila para ocupá-lo

Treino 06.06.2014

Se um dia a profecia de Alexandre Kalil se materializar na forma do tão sonhado estádio atleticano, o convidado de honra para cortar a fita vermelha certamente será Ronaldinho Gaúcho.

Toda vez que o Atlético disputar uma final, ele certamente estará na primeira fila da tribuna de honra. Toda vez que o atleticano comemorar o aniversário da primeira Libertadores, certamente se lembrará do craque que mudou seu destino.

Comparado a outros ídolos alvinegros, como Dario, Reinaldo, João Leite e Marques, Ronaldinho teve pouquíssimo tempo de casa. Dois anos e dois meses, porém, foram suficientes para torná-lo maior que todos os outros. Pela conquista da América, pela projeção internacional emprestada ao Atlético e pelo resgate institucional de um clube até então desacreditado.

Ronaldinho apresentou ao torcedor atleticano o que há de melhor no futebol – e o fez se acostumar com o espetáculo de alto padrão. Lampejos do que havia sido no Barcelona despertaram momentos de verdadeira magia no Horto, dadas as sucessivas desilusões com times medíocres e medalhões desalmados.

Esse é o maior legado da estrela, que joga um peso enorme sobre o clube e principalmente sobre a próxima diretoria. O Atlético de Alexandre Kalil não se preparou para a sucessão de Ronaldinho.

Não significa contratar um nome consagrado, até porque a chegada de R10 foi o acaso de uma aposta pessoal e arriscada do presidente, que, depois de tantas cartadas em vão, acertou logo com aquele que se tornaria o maior jogador da história atleticana.

ronaldinho_capas_placar

Tardelli é ídolo. Victor, idem. Embora não tenham o tamanho de Ronaldinho, servem de alento para uma geração de torcedores que por muitos anos careceu de nomes dignos de aplauso na arquibancada.

O vácuo deixado pela saída do astro-mor é técnico. Não há jogador no elenco atual que crie, que seja capaz de inventar algo diferente ou de fazer o time jogar. Fato evidente desde o fim da Libertadores, quando as condições físicas de Ronaldinho já davam sinais de esgotamento.

A renovação do contrato do craque, mentor de Messi e Bernard em outras épocas, deveria ter sido atrelada ao processo de lapidação de um novo camisa 10. Ou mesmo de um volante criativo. Hoje, Levir Culpi não dispõe de nenhuma dessas peças. Guilherme é atacante de origem. Maicosuel e Luan jogam pelos lados.

Quando chegou à Cidade do Galo, Ronaldinho disse que um de seus objetivos era elevar o Atlético a “outro patamar”. E o elevou ao ponto que nenhum atleticano poderia imaginar. Mal acostumado à genialidade passageira do craque, o torcedor, ao procurar por seus dribles e sacadas primorosas, verá a ficha cair.

O problema não é o adeus do ídolo, mas a constatação de que futebol bonito e resultado dificilmente entoarão na mesma sinfonia sem a batuta de Ronaldinho no gramado do Horto.


Acompanhe as novidades do blog pelo Twitter: @bololomineires

Crônicas da Copa

O Brasil da Copa precisa voltar para a escola. Mas não misture as coisas

Por que “quem entende de futebol sabe que” ele não é o responsável pelo progresso do país – tampouco pelas mazelas

brasil_alemanha_7_x_1

O que se viu no massacre do Mineirão foi muito mais que um confronto jogado por apenas um oponente. Não só em campo, como também nas declarações pré e pós-jogo de comissões técnicas e jogadores, o que se viu encontra paralelo em um duelo de xadrez entre estudantes do ensino fundamental diante de mestrandos e doutorandos.

Brasileiros completamente perdidos, sem saber para onde ir e como, segundo palavras dos próprios atletas, “explicar o inexplicável”. Do outro lado, alemães donos do tabuleiro, soberanos em todas as peças, tarde memorável, porém sóbrios o bastante para compreender e reconhecer que a goleada histórica vai além de um simples mérito de equipe.

É difícil aceitar, mas o futebol brasileiro precisa voltar para a escola, do bê-a-bá ao vestibular. A fundo, precisa mesmo se reinventar como escola, tão obsoleta como o modo CBF de governar. Mística, ginga, genética e malandragem não colam mais. Há uma unanimidade entre os jogadores da seleção: todos aprenderam, evoluíram e amadureceram taticamente jogando na Europa.

Não deveria ser assim. Longe da utopia de transformar o Brasileirão em uma Bundesliga, o campeonato nacional que bate todos os recordes mundiais de público, mas o jogador que sai daqui tem de chegar aos grandes europeus formado, pronto para emplacar seu estilo seja onde for, e não usurpar o aprendizado básico da cartilha estrangeira.

São várias as explicações para o declínio da escola brasileira. Uma delas é a formação de nossos “professores”. Ex-jogador que faz estágio de três semanas em clube grande e acha que trabalho psicológico não passa de conversa pra boi dormir já tem credenciais de sobra para se tornar um técnico bem graduado. Enquanto isso, a Alemanha não se envergonha de usar a ciência avançada e estudos acadêmicos para formar jogadores, estudar adversários e ganhar jogos de 7 x 1.

Nessa hora sobram especialistas para propagar aos quatro ventos as vagas e cientificamente não-comprovadas explicações do tipo “quem entende de futebol sabe que” ou “quem jogou bola sabe que”. Mas, acima de tudo, sobram especialistas e sociólogos de ocasião para atrelar a derrocada em campo a obras inacabadas, professores mal remunerados e até eleições, em vez de explicar o que pode ser facilmente explicado na linguagem universal das quatro linhas: faz muito tempo que deixamos de ter o melhor futebol do mundo, ponto.

Resultado no esporte bretão nunca ajudou o Brasil a melhorar a saúde, a economia, a mobilidade urbana ou a educação. Fosse assim, com cinco taças na mão, não haveria motivos para queixas. Tal qual uma derrota não espelha nosso cotidiano. Não nos torna melhores nem piores como nação.

A moda agora é estender a proeza dos alemães no futebol à condição de país perfeito que, pra completar, ainda nos roubou o título de doutores com a bola nos pés. Supere o trauma do 7 x 1 e coloque a cabeça no lugar. A Alemanha é um exemplo, mas não o paraíso, o suprassumo da civilização. Basta olhar para a história. Ou mesmo para questões menores, não menos reveladoras.

Quem observou a forma acintosa e grosseira como parte dos torcedores alemães se dirigia às mulheres brasileiras no entorno do Mineirão entende – ou deveria entender – que a boçalidade do ser humano nunca foi nem nunca será exclusividade do Brasil.

O carnaval continua sendo maior que a Oktoberfest. Caipirinha é melhor que Jägermeister. Feijão tropeiro dá de dez no salsichão. Se em sinal de nobreza eles gritaram “Brasil, Brasil” enquanto a seleção era vaiada por sua própria torcida, aplaudimos de pé ao sermos apunhalados com o sétimo gol. Se eles organizaram uma Copa incrível em 2006, conseguimos organizar um evento tão bom quanto em 2014.

Sim, legados à parte, a Copa deu certo e é um sucesso, apesar do fracasso do Brasil no gramado. Misturar futebol com política nesse momento, ou tentar associar um chocolate em campo ao que somos como sociedade, não é falta de educação. Apenas de inteligência mesmo.

Crônicas da Copa

Como uma vértebra quebrada abriu nossa maior ferida no futebol

Foi preciso Neymar se machucar para reconhecermos os valores dessa seleção e do craque mais caçado do mundo. Sintomas do eterno “complexo de superioridade”

neymar_vertebra_copa

Essa Copa do Mundo atesta que o complexo de vira-latas do brasileiro versão moderna deriva, na verdade, de um complexo muito maior, arrebatador. O complexo de superioridade. Passado o Maracanazo, o Brasil ganhou cinco Copas, perdeu outras tantas. Mas restou a cicatriz: Brasil é sempre Brasil, Brasil é sempre favorito, Brasil é sempre futebol-arte, Brasil que é Brasil sempre joga bonito, Brasil que é Brasil nunca perde pra ninguém.

Depois da vitória sobre a Colômbia, Felipão fez questão de lembrar que, um ano e meio atrás, ao assumir o cargo, a seleção era cotada, por brasileiros e estrangeiros, a dar um vexame histórico como anfitriã do Mundial. Muitos profetizavam que sequer passaríamos da primeira fase após os tombos na Copa América e na Olimpíada. De repente, uma geração até então “fracassada”, de jovens “inexperientes” como Neymar, Oscar, Bernard e Marcelo, se tornou a equipe a ser batida.

“No Brasil, temos mania de achar que os outros times não jogam nada.” Uma das coisas mais sensatas já ditas por Felipão, logo em seguida ao empate com o México. Diagnóstico perfeito. Ele só não se deu conta de que contradizia completamente o lema adotado no dia em que foi alçado ao comando da seleção. Sem ao menos conhecer os jogadores e o time que montaria até a Copa, embarcou cegamente na bravata do favoritismo. Na ocasião, ao lado de Parreira, o técnico assegurou com todas as letras que o Brasil era o favorito. Pela camisa, pela tradição e blá, blá, blá. Isso não significa achar que os outros não jogam nada?

Somada a um título alegórico da Copa das Confederações, a pose de inabalável campeão alimentou o mito e hiperdimensionou expectativas naturalmente exageradas. Na cabeça do torcedor, a seleção daria espetáculo da estreia à final pelo simples fato de jogar em casa, sem se importar com pressão, fantasma do Maracanazo e afins. Uma fixação que não se modificou nem mesmo diante das quedas precoces de Inglaterra, Itália, Espanha e Uruguai. Ou das pedreiras zebrinas enfrentadas por Alemanha, contra a Argélia, e Argentina, contra a Suíça. Nada abalava a crença de que o Brasil tinha obrigação não apenas de resultado, mas de circo.

Eram três vitórias e um empate em quatro jogos, classificação em primeiro lugar do grupo, oito gols marcados e três sofridos. E a impressão geral era de que a seleção ia de mal a pior. Até a notícia aterradora: com uma fratura na vértebra, Neymar está fora da Copa. A suada vitória sobre a Colômbia, na raça e também na bola, ficou em segundo plano. Foi a lesão do camisa 10 que tirou os brasileiros do armário e serviu de combustível para manifestarem o apoio incondicional à seleção. Fotos de Neymar, Thiago Silva e David Luiz agora pululam por avatares no Facebook, bandeiras colorem sacadas de verde-amarelo, o choro saiu de pauta.

Bastou nosso maior jogador se machucar e abandonar a Copa para enxergarmos os valores dessa seleção e da estrela que mais sofre faltas na atualidade. Nem Messi, nem Cristiano Ronaldo, nem James Rodríguez. Neymar é, disparado, o craque mais caçado do futebol mundial. Todavia, divididos entre picuinhas clubísticas e a implicância canastra da mídia europeia, insistia-se no estigma de cai-cai. Neymar sempre valorizou em excesso as faltas, mas nunca deixou de sofrê-las. Houve quem dissesse que ele estava simulando ao cair com a vértebra quebrada no gramado do Castelão…

Neymar deixa a Copa consagrado como o grande craque dessa geração. Talvez não tivesse alcançado tal reconhecimento caso seu primeiro Mundial só terminasse no fim. Será um ilustre espectador da semifinal contra a Alemanha. Ah, os alemães, de novo? Em 2006, eles sediaram a Copa após 16 anos do último título. Não havia obrigação de vitória.

Aproveitaram o evento e celebraram o terceiro lugar. O futebol alemão segue seu processo de renovação e revolução iniciado há quase uma década. O jejum de taças continua, mas eles chegam a sua quarta semifinal consecutiva sem dar show e sem traumas. Os jogadores desfrutam cada instante de Brasil enquanto os torcedores curtem a Copa. Senso enorme de otimismo e autopreservação.

A seleção brasileira também caminhará mais leve daqui pra frente, pelo menos até o embate contra a Alemanha. O desfalque inesperado de Neymar tira algumas libras da pressão que Felipão, Parreira e companhia injetaram nesse grupo – e que agora viajam ao reivindicar apoio nacionalista da imprensa. Uma amostra de que o senso de autodestruição de boa parte dos brasileiros só não está imune à compaixão. Para descermos do salto e comprarmos a batalha, independentemente das armas à disposição, é preciso que, antes, um dos nossos saia ferido.

Crônicas da Copa

Neymar não merecia tanto azar. Mas Zúñiga não merece o ódio do Brasil

Lateral colombiano que quase ficou fora da Copa sofre inquisição de brasileiros e insultos racistas nas redes sociais. A maldade não está no joelho, mas sim nos olhos de quem vê

Colombia's Camilo Zuniga throws the ball during the 2014 World Cup quarter-finals between Brazil and Colombia at the Castelao arena

Juan Camilo Zúñiga, versátil lateral-direito que defende o Napoli, sem antecedentes de patadas ou confusões, virou Trending Topics mundial depois de seu joelho dilacerar o Brasil pelas costas. Neymar está fora da Copa. A dor comove o país.

Mas não pense que Zúñiga dormiu tranquilo. O peso por ter tirado um craque do Mundial vai doer por um bom tempo e lhe consumirá outras noites de sono, ainda que não tenha sido sua intenção. O colombiano não quebrou Neymar por querer. A consequência da joelhada é trágica, mas ele apenas protagonizou um lance corriqueiro no futebol.

Como distinguir acidente de trabalho de entrada criminosa? Antes de acertar o atacante, Zúñiga olhava para a bola. Na zona mista, negou que quisesse machucá-lo. No calor do jogo, quis intimidar pela força. Acabou sendo ríspido e imprudente. Nem por isso Felipão, Thiago Silva e outros jogadores da seleção afirmaram enxergar maldade na jogada. Nem por isso o técnico deixou de cobrar o árbitro Carlos Velasco, que sequer mostrou cartão para o defensor.

Zúñiga exagerou nas faltas, atingiu Hulk com as travas da chuteira no primeiro tempo, passível de amarelo, e deveria ter sido expulso no segundo? Sem dúvida. Daí a plantar um falso ato premeditado para satanizá-lo como forma de reparação pela perda do craque vai uma diferença que, essa sim, pode ser chamada de maldosa.

Após deixar o Castelão, o ônibus da Colômbia foi alvo da ira de torcedores que atiraram objetos em sua direção. Nas redes sociais, o ódio regurgitado em formato mais asqueroso: centenas de xingamentos racistas direcionados ao perfil do jogador no Twitter. Na saída do vestiário, o lateral já havia sido interpelado de forma rude por alguns repórteres brasileiros, que tentavam a todo custo cavar uma confissão de assassinato do “agressor”. Acuado, Zúñiga pediu desculpas. Reiterou, porém, que não teve a intenção de machucar Neymar.

Não duvide. Tão ruim quanto dar adeus à Copa, uma das piores sensações que um atleta pode sentir é a de lesionar um companheiro de profissão, sobretudo um Neymar, quando já se viveu na pele o martírio da reabilitação no departamento médico.

Por pouco Zúñiga não assistiu à Copa ao lado de Falcao García. No fim de 2013, ele sofreu uma lesão no joelho direito – o mesmo que fraturou a vértebra de Neymar – e teve de passar por uma cirurgia. A recuperação se arrastou. Ficou sete meses sem jogar. Só não foi cortado da lista final por ser um dos homens de confiança do técnico José Pekerman.

Azar de Neymar. O joelho que há dois meses lutava contra dores o tirou da Copa. Os dois podem se reencontrar no Barcelona, que há algum tempo visa a contratação do colombiano. Casualidades que nem o futebol dá conta de explicar. Assim como não há explicação para a cegueira sensitiva que desvenda intenções através do replay da TV ou para a ignorância de quem atira barbaridades mais maléficas que uma joelhada contra Zúñiga. Um carrasco forjado para o consolo da nação.