Atlético-MG

Cria do Galo, xodó de Felipão e queridinho da Granja

“Ô, pessoal, vou atender todo mundo. Mas deixa o garotinho aí passar. Criança primeiro, vem cá!”

A rotina é quase sempre a mesma. Quando Bernard sai do treino e parte ao encontro dos privilegiados torcedores que acompanham o dia a dia da seleção na Granja Comary, está instalada a balburdia. Quarenta, cinquenta minutos, uma hora.

O chamego com a torcida em Teresópolis rapidamente o transformou em um dos mais requisitados pelos fãs ao lado de Neymar e David Luiz.

“Uma foto ou um autógrafo pode mudar a vida de uma pessoa. Da criança, então… Já fui torcedor e por isso faço questão de retribuir à altura o carinho que recebo.”

Altura não é bem o forte de Bernard. Tanto que o site de humor Olé do Brasil chegou a “confundí-lo” com um penetra infantil no treino da seleção – ele achou graça da brincadeira e até a compartilhou em suas redes sociais.

Porém, mesmo com seu 1,62 metro, ele dá trabalho aos grandalhões. Felipão é um incortonável admirador do pequeno atacante de 21 anos. Recentemente, voltou a elogiar o pupilo, valorizando suas virtudes de “jogador moderno”, por atuar pelos lados com intensidade tanto no ataque como na marcação.

“Essa entrega ao marcar é algo que venho trabalhando não só na seleção, mas também no Shakhtar [Donetsk, da Ucrânia]. Tenho essa característica desde a época em que subi para o profissional do Atlético – estreou pelo clube como lateral-direito.”

Prestigiado com o chefe, Bernard ganhou oportunidades contra Croácia e México e mostrou a habitual alegria nas pernas. E lançou a dúvida sobre Felipão, que pode escalá-lo diante de Camarões caso Hulk não esteja recuperado para jogar. “O Felipão é como um pai”, diz. “Foi ele quem acreditou em mim e me deu chances na seleção.”

Bernard estava com saudade do Brasil. Em sua primeira temporada na Ucrânia, não conseguiu se firmar como titular do abrasileirado Shakhtar, sofreu com os conflitos político-territoriais que pararam o país e com o clima gelado. Das ruas e dos estádios.

“O torcedor ucraniano é mais frio. Não tem essa coisa intensa como no Brasil. É disso que eu mais sinto saudade: de dar autógrafo, receber o incentivo das pessoas nas ruas, no shopping. E na seleção ainda tem o hino, que arrepia até quem está no banco.”

Breiller Bernard Atlético

Outra saudade que aperta o peito do caçula da família Scolari é a da Cidade do Galo, onde treinou por uma semana antes de se apresentar à seleção. Na quarta-feira, após o empate contra o México, os jogadores ganharam folga da comissão técnica e Bernard foi recarregar as baterias ao lado da família, no Barreiro, região de Belo Horizonte onde iniciou sua trajetória no futebol.

Se entrar jogando diante de Camarões, promete fazer um esforço dobrado para ajudar o Brasil a vencer e carimbar o primeiro lugar do grupo, que garante seu retorno a Belo Horizonte para as oitavas de final.

Em 2013, na semifinal da Copa das Confederações, teve seu nome gritado por torcedores no Mineirão. Entrou no início do segundo tempo e a seleção bateu o Uruguai no penúltimo obstáculo antes do título.

Aos torcedores alvinegros que sempre o acolheram tão bem como Felipão, o menino do Barreiro mantém a promessa que fez ao deixar o clube depois da inédita conquista da América.

“A torcida do Atlético é apaixonada demais. Me lembro que ela sempre cantava o hino do clube e isso nos dava uma força enorme. Um dia eu vou voltar, mas, se tiver esse reencontro no Mineirão durante a Copa, para mim será muito especial.”


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Crônicas da Copa

Desculpe o choro. Eles estão defendendo a seleção

Muitos já pecaram por falta de amor e entrega à camisa amarela. Hoje, na Copa, condenam-se as lágrimas de jogadores comprometidos com a causa do brasileiro. Definitivamente, não sabemos torcer

Brasil Chile

Thiago Silva virou o bode expiatório do descontrole emocional da seleção. Por ser o capitão do time, o símbolo de uma geração da qual muitos, cabe lembrar, esperavam um vexame logo na primeira fase da Copa dois anos atrás.

Voltemos a Thiago Silva. Ele é capitão do Brasil e do PSG. Também já vestiu a braçadeira no Milan. Não se trata de um líder plantado por Felipão. Apesar de introvertido e emotivo, tem credenciais técnicas para envergar a faixa.

É o jogador mais tocado pelo hino nacional. Seu choro copioso na vitória sobre o Chile e a ânsia por não ter de cobrar um pênalti despertaram a revolta de vários torcedores, ex-jogadores e analistas psiquiátricos. Afinal, para eles, capitão é só aquele que berra, paga geral na preleção e, acima de tudo, não se emociona.

Esse Mundial representa muito para os 23 convocados de Felipão. Mas esqueça os outros e todas as circunstâncias. Tente imaginar o que esse Mundial representa para Thiago Silva, especialmente.

Há exatos nove anos, o capitão estava trancado em um quarto de hospital. O diagnóstico de tuberculose colocava sua carreira em xeque. Ficou isolado de companheiros, de amigos, da família. Foram seis meses de tratamento solitário. Curado, foi para o Fluminense, deu a volta por cima, se tornou um dos melhores zagueiros da atualidade e, de repente, tem a chance de levantar a taça mais cobiçada do mundo no Brasil, em pleno Maracanã, onde viveu a maior tristeza da carreira, seu Maracanazo particular: a perda da Libertadores com o Fluminense, em 2008.

Por outro lado, Thiago Silva é um dos cinco jogadores mais bem pagos do futebol mundial. Está com a vida ganha, por méritos. Poderia vir ao Brasil, vestir a braçadeira e seja o que Deus quiser. Thiago, porém, veste a camisa no sentido mais profundo da expressão. Chora ao ouvir o hino. Tem orgulho de defender a seleção, dá sangue. Durante a última temporada, muitas vezes se poupou no PSG para chegar 100% à Copa do Mundo.

É algo raro para um jogador como ele chorar diante das câmeras, expor suas emoções e fraquezas ao mundo inteiro. Em 2006, os brasileiros se queixavam da indolência do time de Parreira na eliminação para a França. A ajeitada de meião de Roberto Carlos, assim como os sorrisos e tapinhas nas costas de Ronaldo em Zidane, indiferentes à derrota, geraram um sentimento de repúdio que fez Dunga brigar de forma radical para resgatar o orgulho de defender a seleção.

Agora, Thiago Silva e companhia são condenados por chorar demais. E se acontecesse na seleção algo parecido ao que se passou com jogadores de Gana, que ameaçaram abandonar a Copa caso não recebessem o bicho antecipado? Ou se o time verde-amarelo tivesse sido contaminado pela guerra de egos que abateu a Espanha de Del Bosque? Antes isso a jogadores que choram por se doarem ao máximo pelo país na Copa mais importante de sua história?

É evidente que emoção em excesso atrapalha. Seria ótimo que Thiago Silva controlasse os nervos diante da Colômbia. Se “desequilibrado” está jogando assim, imagine com a cabeça no lugar…

Contudo, não se deve pedir a cabeça nem a faixa do capitão por causa de lágrimas derramadas no gramado. Pelo contrário. Ao ver os olhos de Thiago Silva ou de qualquer um de seus companheiros lacrimejarem no telão, o torcedor deveria cantar mais alto, dar força acima de tudo, pois, como se vê nessa Copa, a exemplo do duro embate da Alemanha contra a Argélia, não está fácil pra ninguém, muito menos para os donos da casa.

No Mineirão, boa parte da torcida sucumbiu à ansiedade e abandonou o time nos momentos mais delicados da prorrogação. A pressão de jogar uma Copa no Brasil só não é mais apavorante que o clima de velório na arquibancada, sobretudo à sombra de um Maracanazo imortal. Depois, não adianta chorar pelo leite derramado.