Cruzeiro, Libertadores

O racismo dos outros e a nossa hipocrisia

Por Breiller Pires

Repugnante a atitude de torcedores peruanos que imitavam macacos toda vez que o volante Tinga tocava na bola, jogo de estreia do Cruzeiro na Libertadores.

A revolta de cruzeirenses e a comoção nas redes sociais são proporcionais à crueldade do ato. Toda solidariedade ao Tinga é pouca perto da gravidade de um gesto racista.

Mas não devemos fechar os olhos para o fato que nos acostumamos a ignorar. Racismo não é exclusividade dos outros. O Peru é um país racista, assim como a Itália, onde Mario Balotelli já chegou a abandonar o gramado por causa de cânticos discriminatórios. O Peru, acredite, é tão racista quanto o Brasil.

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Depois da partida, Tinga mandou bem. Declarou que trocaria seus títulos pela igualdade racial. Porém, se disse surpreso por ser vítima de discriminação em um país “tão próximo, tão parecido com o Brasil”.

O zagueiro Dedé usou o mesmo argumento: “o que nos deixa indignados é um pais sul-americano racista”. Ainda no calor do jogo, Tinga e Dedé talvez tenham se esquecido de que o país em que nasceram também se encaixa entre os mais racistas da América.

Do racismo velado, em que, para muitos, a desigualdade latente entre negros e brancos é fruto somente de um problema social, não do preconceito. Onde humoristas protestam contra a “patrulha do politicamente correto” para poderem oferecer bananas à vontade aos negros.

No país com a maior população afrodescendente fora do continente africano, o negro continua sendo o maior alvo de violência, afastado dos postos nobres de trabalho. Médico, executivo e professor universitário, para não alongar nos exemplos, seguem como profissões predominantemente brancas.

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Que a noite no Peru não tire o sorriso de Tinga – e lembre ao Brasil que o racismo também existe por aqui

No país do futebol , o negro serve como mão de obra, como boleiro, mas não serve como presidente de clube, dirigente ou treinador. Dedé, que jogou no Vasco, o clube que ajudou a abrir as portas dos estádios para os negros, deve se lembrar que Cristóvão Borges – desempregado, assim como a grande maioria dos negros que se aventuram como técnicos – sofreu insultos racistas antes de deixar São Januário pelo portão dos fundos.

No país em que política de cotas é vista como assistencialismo barato, “discriminação às avessas”, o modelo dos Estados Unidos, pioneiro em reserva de vagas nas universidades e até no alto escalão do esporte, é a utopia dos excluídos.

Entretanto, o brasileiro prefere seguir com seu preconceito reprimido, não assume o racismo que nos moldou como sociedade. Para muita gente, inclusive, não existe racismo no Brasil. Existe no Peru (e gera revolta), mas, no Brasil, nem pensar.

Isso não torna aceitável o que aconteceu com Tinga na noite de ontem. É abominável. Tanto quanto quem se solidariza com o cruzeirense por ser brasileiro, mas acha normal que atentados contra os direitos da população negra só sejam discutidos quando praticados em um dos únicos territórios em que sua ascensão é tolerável no Brasil: o campo de futebol.

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