Atlético-MG, Libertadores, Ronaldinho

O Galo dos milagres

Superstição é uma palavra sagrada para o Atlético. 13 é o número do Galo. E, há 13 anos, o clube não disputava a Libertadores. Estreou com o pé direito justamente em 13 de fevereiro, vencendo o São Paulo por 2 x 1. O palco era o Independência, onde o time seguiu invicto e que também tem 13 letras. Muito tempo atrás, o ilustre alvinegro Roberto Drummond já havia eternizado a máxima de que ser atleticano é “torcer contra o vento”. Mas, dessa vez, os ventos conspiravam para que 2013 se convertesse, de fato, no ano do Galo.

Não importava o passado: time que encantava, mas não levava, time que perdia no apito, time sem sorte. Não importava a uruca que parecia engolir de cabo a rabo as equipes regidas sob a batuta de Cuca: técnico azarado, técnico sem pulso, técnico que não ganhava. Tudo isso ficou para trás. Era hora de reescrever a história do Atlético. E, na primeira fase, com os endiabrados Ronaldinho Gaúcho, Bernard, Tardelli e Jô, artilheiro do torneio, com 7 gols, uma campanha quase perfeita do melhor time brasileiro na Libertadores deu o pontapé inicial da arrancada.

Novamente pelo caminho estava o São Paulo, de cara, nas oitavas. A única derrota até então, no último jogo da fase de grupos, foi marcada por uma declaração forte de Ronaldinho. “Isso aqui foi só um treino. Quando tá valendo, tá valendo.” O craque tinha razão. Tanto no Morumbi quanto no Independência, o Galo aniquilou o tricolor paulista, fechando com uma goleada por 4 x 1. Afinal, “caiu no Horto, tá morto”, dizia o lema da massa atleticana, que usou máscaras da morte para assombrar o Tijuana no jogo de volta das quartas de final.

Sem inspiração, o Galo tomou sufoco dos mexicanos e viu o primeiro milagre salvá-lo da degola. Victor defendeu o pênalti de Riascos aos 48 minutos do segundo tempo, levando a torcida ao delírio e o time à semifinal. Nesse dia, o Atlético começou a acreditar em santos e, principalmente, que podia ser campeão, contrariando todos os prognósticos. Diante do Newell’s Old Boys, jogo de ida na Argentina, tudo parecia acabado outra vez, com 2 x 0 de vantagem para os rivais. Devoto de Nossa Senhora Aparecida, Cuca se apegou à fé e à mística do Horto para confiar até o fim na virada em Belo Horizonte.

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Na volta, Bernard logo abriu o placar, mas, até um apagão cair dos céus no estádio, a Libertadores estava perdida. Até que Cuca resolveu colocar em campo o desacreditado Guilherme, que, com um chutaço de fora da área, marcou o gol salvador que levou o jogo para os pênaltis. Ali, o goleiro, abençoado pelo terço arremessado por um torcedor no gramado, intercedeu com mais uma obra divina. Mesmo depois de dois erros atleticanos nas cobranças, ele pegou o pênalti de Maxi Rodríguez e garantiu a vaga na finalíssima. Nas arquibancadas do Independência, a torcida alvinegra canonizou um novo santo brasileiro: São Victor.

Com a graça alcançada, muitos poderiam imaginar que a cota de milagres do Galo havia se esgotado. Ainda mais com um novo 2 x 0 no jogo de ida, agora para o Olimpia, tricampeão continental, com um gol de falta no último lance da partida. Cruel, porém a fé de Cuca e dos quase 60 000 torcedores que lotaram o Mineirão permanecia inabalável. O amuleto cultivado pelo técnico contra o mau agouro estava no vestiário minutos antes da decisão: a bola defendida pelo pé esquerdo de Victor diante do Tijuana. Mas o Atlético precisava de mais de uma bola para virar o jogo. Precisava de no mínimo dois gols e toda a sorte do mundo.

A penitência durou um tempo inteiro.  No primeiro minuto da segunda etapa, após falha de Pittoni, a bola sobrou limpa para o artilheiro Jô tirar a agonia dos atleticanos da garganta. O santo forte, entretanto, fraquejou quando Ferreyra passou por Victor e, com o gol aberto, escorregou antes de executar o disparo que seria fatal. Cinco minutos depois, aos 41, Bernard descolou um cruzamento milimétrico para Leonardo Silva se redimir de todos os seus pecados ao marcar de cabeça. Explosão e crença renovada no Mineirão. Com o empate na prorrogação, restou a São Victor parar a primeira cobrança de pênalti de Miranda com seu pé esquerdo abençoado e secar o chute derradeiro de Giménez, que morreu na trave.

Mais um milagre aconteceu. Nada é impossível para aqueles que creem no Galo, como Bernard e sua incrível profecia. “Este é o ano do Galo, podem apostar”, foram as primeiras palavras do baixinho em 2013. O clube de uma torcida apaixonada, devota, que tem o manto preto e branco como religião, não merecia ficar tanto tempo sem um título de expressão. Justiça seja feita: o Atlético campeão da América é uma benção dos deuses do futebol.


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Atlético-MG, Libertadores

A sorte é amiga da perfeição

Pênalti defendido aos 48 minutos do segundo tempo nas quartas de final.

Gol salvador aos 50 minutos de um jogo interminável na semifinal.

Pênalti salvo – São Victor, de novo – na cobrança derradeira do craque argentino, depois de dois erros seguidos dos atleticanos.

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Quando tudo parecia ir por água abaixo, o Atlético fez o impossível acontecer e seguiu adiante na Libertadores. Noites épicas, que, além de entrarem para a história, exorcizaram fantasmas e uma incômoda fama de azarado.

Pode soar como sorte de campeão, mas os milagres do Galo estão muito mais ligados ao mundo real que à intervenção divina, embora o apagão no Independência, as mãos de Victor e o chute magnífico de Guilherme teimem em dizer o contrário.

Esse Atlético espírita ganhou jogos trabalhando na surdina, em atitudes e decisões que precedem até mesmo a disputa da Libertadores.

Pouco mais de um ano atrás, o presidente Alexandre Kalil não se convenceu com a boa fase de Giovanni. Quis um goleiro mais experiente e tirou Victor do Grêmio.

Da mesma forma, não se iludiu quando todos exaltavam seu elenco como o melhor do Brasil. Resgatou Josué da Alemanha para ser o reserva que seguraria a bronca na semifinal diante da ausência de Leandro Donizete.

Em junho, Rafael Marques reclamou publicamente das poucas chances que teve no time. No dia seguinte, a diretoria anunciou sua renovação de contrato. Com Réver e Leonardo Silva sem condições de jogo, Rafael encarou a fogueira com Gilberto Silva no primeiro jogo da semifinal.

O herói contra o Newell’s, também insatisfeito com a reserva, esteve perto de ir embora. Mas, em nenhum momento, Cuca e Kalil abriram mão de Guilherme. Foram premiados com a vaga na final.

Mesmo jogando o melhor futebol do Brasil, o Atlético não se acomodou nem se deu por satisfeito com o resgate de sua autoestima e o orgulho do torcedor.

Agora, está a dois jogos do tão sonhado título da América, em uma campanha quase perfeita. Competência que atrai sorte – e que nunca é demais numa final de Libertadores.


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