Cruzeiro, Mineirão, PLACAR

Cruzeiro arma o troco

Há vários motivos que explicam a reviravolta do Cruzeiro depois de um quase rebaixamento e uma temporada em que presenciou como coadjuvante a ascensão do Atlético, representante de Minas na Libertadores deste ano.

Volta ao Mineirão, venda de Montillo (que, além de ter turbinado o caixa para contratações, fez com que o time deixasse de ser dependente de um só jogador), novas possibilidades de receita, como a ampliação do programa de sócio-torcedor, planejamento, bom técnico, bom elenco…

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A edição de maio da revista PLACAR analisa as finanças e o futebol do clube, que, além das entrevistas com Éverton Ribeiro, Diego Souza e Dagoberto, conta com depoimentos do capitão Fábio e do técnico Marcelo Oliveira. Os argumentos da dupla para o bom começo de temporada são esclarecedores.

“Estou há oito anos aqui e nunca tinha vivido uma situação como aquela [no início de 2012], com salário atrasado. Foi difícil, mas em momento algum eu pensei em deixar o time. Conversei com os jogadores na época, pedi calma e disse que a fase ruim ia passar”, diz Fábio, lembrando a crise financeira do ano passado.

“Agora, vivemos outra realidade. O treinador [Marcelo Oliveira] teve tempo para indicar reforços e montar a equipe. Estamos no caminho certo.”

Já Marcelo Oliveira valoriza o empenho da cúpula celeste na incorporação de nomes de peso como Dedé ao clube.

“Eu expus minhas indicações e a diretoria fez um esforço enorme para correr atrás dos reforços. Contratamos bem e conseguimos formar um elenco forte. Concorrência no grupo faz com que o time renda seu máximo sempre. É por isso que faço questão de observar todas as atividades, todos os jogos-treino dos reservas. Quem está de fora precisa saber que terá oportunidade. Jogador bom nunca é demais para um time que quer ser campeão.”

O time ainda não deu uma prova sólida de que pode, de fato, retomar o caminho das grandes conquistas. Mas não há dúvidas de que as previsões para o resto do ano inspiram muito mais confiança que a equipe de Vágner Mancini ou Celso Roth.

Esse Cruzeiro versão 2013 é o objeto de análise da PLACAR que chega às bancas de todo o país a partir de amanhã.

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Atlético-MG, PLACAR

Um chutão na intolerância

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Galo Queer. É esse o nome do movimento encabeçado por torcedores do Atlético-MG para combater a homofobia e o sexismo na torcida alvinegra, nos estádios, no futebol, enfim.

O esporte mais popular do país é historicamente machista e preconceituoso em todos os rincões do mundo. Não se trata de um produto tipicamente brasileiro – o jogador norte-americano Robbie Rogers preferiu abandonar a carreira a lutar contra a discriminação depois de se assumir homossexual em fevereiro –, mas deveria nos encher de vergonha.

Muitos torcedores atleticanos, porém, não se envergonham em descer a bronca na página do movimento no Facebook. Recusam-se a aceitar que a homofobia se expressa em pequenos atos cotidianos, que os tempos mudaram, que todos deveriam ter direitos e deveres iguais. Fecham os olhos para o preconceito nosso de cada dia e relativizam o fato de se referirem aos rivais cruzeirenses como “marias”.

Preciosismo do politicamente correto? Talvez, se não houvesse gente que ainda luta pelo direito legítimo de poder se casar com uma pessoa do mesmo sexo, se não houvesse gente vista como descendente de uma maldição por alguns religiosos, se não vivêssemos em uma sociedade tão intolerante.

Richarlyson, jogador que representa o Atlético, dos preconceituosos aos corajosos apoiadores da Galo Queer, sente na pele a dor de um ódio inexplicável. Nunca se declarou homossexual, pelo contrário, mas é alvo constante de piadas de rivais e, na época em que atuava pelo São Paulo, era ofendido por torcedores do próprio time e até por dirigentes.

Pioneira, Galo Queer quer estender bandeira da diversidade nos estádios
Pioneira, Galo Queer quer estender bandeira da diversidade nos estádios

Para um indivíduo ser tratado como “gay” perante os outros é preciso o atestado da autodeclaração, não o das aparências, evidências ou quaisquer diagnósticos alardeados por terceiros. Não é o caso de Richarlyson. E se fosse? O que a orientação sexual interferiria em seu desempenho em campo?

O gaúcho Vilson Zwirtes foi o primeiro jogador profissional a se assumir homossexual no Brasil. Ele chegou a atuar três temporadas pelo Lajeadense. Hoje aos 33 anos, o atacante joga somente em times amadores do interior do Rio Grande do Sul. Em depoimento ao blog, ele conta o que o levou a revelar sua orientação sexual.

“Existem vários homossexuais no futebol, mas eles não se assumem por medo, ficam trancados no armário. Eu dei a cara à tapa para tentar quebrar o preconceito que existe no meio.”

A edição de PLACAR deste mês traz uma longa apuração sobre casos de violência sexual no futebol. Mais especificamente nas categorias de base. As vítimas são crianças e adolescentes. Marcelo, goleiro do Atlético em 2010, foi um dos jogadores ouvidos na reportagem.

Em 2005, em uma entrevista coletiva no Corinthians, ele revelou ter sido assediado na base do Vasco, aos 12 anos. Depois da revelação, em vez de receber apoio dos companheiros de clube, virou motivo de piada.

“Fui zoado pra caramba. Os caras pensaram que ele [o preparador de goleiros que o assediou] quis me comer. Mas, na verdade, ele queria que eu o comesse”, contou à PLACAR.

Um dos principais motivos para que casos de abuso sexual no futebol permaneçam cada vez mais velados é a homofobia enraizada nos campos e vestiários. Com medo de que duvidem de sua masculinidade, garotos abusados na base sofrem em silêncio, enquanto molestadores se aproveitam da atmosfera machista para reinarem impunes.

Que iniciativas como a Galo Queer abram os olhos de quem ainda não percebeu que futebol é amor à camisa, ao jogo sagrado e, por que não, à diversidade.

ATUALIZAÇÃO: 12/4, 14h16

E depois da Galo Queer…

* Cruzeiro Anti-homofobia

* Palmeiras Livre

* Corinthians Livre

* Bambi Tricolor

Atlético-MG, Libertadores

Relações internacionais

Ronaldinho, com as conquistas e a fama que carrega na bagagem, é naturalmente um embaixador do Atlético mundo afora.

Um gol do craque, como a cavadinha cirúrgica de ontem, vira notícia na Espanha, na Itália, na Indonésia… Por consequência, a marca do Galo aparece, o clube extrapola as fronteiras de Minas, a camisa se valoriza. É o tal “valor intangível” do ídolo.

Valor que também faz diferença em campo. Não só pelo refino de seu talento, mas, sobretudo, pelo que ele representa.

BELO HORIZONTE/ MINAS GERAIS / BRASIL  (03.04.2013) Atlético x Arsenal - na Arena Independência - Copa Libertadores 2013 - foto: Bruno Cantini

No jogo de volta contra o The Strongest, pela Libertadores, a Bolívia parou para reverenciar o Gaúcho, que recebeu homenagem das autoridades de La Paz e foi cortejado até mesmo por jogadores adversários – alguns deles, tamanho o respeito, tiveram até receio de dividir bolas com o camisa 10 atleticano.

Na capital boliviana, o Atlético enfrentou a altitude. Em compensação, foi bem recebido e bem tratado pelos rivais. Nada de foguetório de varar madrugada na porta do hotel ou hostilidade da torcida no estádio. O clima era amistoso, atípico em jogos nada amigáveis da Libertadores.

Não é por acaso. Aproveitando-se da imagem de Ronaldinho, a diretoria do Galo empreende atenção especial à política externa. Em Belo Horizonte, o clube ofereceu um jantar de cortesia aos dirigentes do Strongest, devidamente retribuído em La Paz.

Na baderna protagonizada pelo Arsenal, o Atlético saiu “ileso”. Jogadores e diretoria não são culpados pelo destempero dos argentinos. Funcionários do clube foram prudentes ao apartar a confusão no fim do primeiro tempo.

Ainda assim, o Galo jogou como time copeiro, no limite que separa a malícia da violência. Jogadores não aliviaram nas dividas. Porém, resistiram às provocações e ao revide infantil, embora isso não signifique ter afinado para o rival. Ronaldinho e o “cafuné” na nuca de Marcone que o digam.

Ao contrário do São Paulo, que ficou queimado no continente após seguranças do clube entrarem em choque com jogadores do Tigre na final da Sul-americana, no ano passado – a punição a Luis Fabiano reflete bem a falta de prestígio dos tricolores na Conmebol –, o time mineiro soube controlar os nervos.

Com um dos melhores elencos da Libertadores, o Atlético sabe que os principais adversários até o título são, além dos concorrentes brasileiros, a catimba, o antijogo, a pressão intimidadora nos jogos fora de casa. O melhor remédio, nesse caso, pode ser a boa e velha cordialidade mineira, posta à mesa pelo craque-embaixador Ronaldinho.