Mineirão, PLACAR

Choque de ilusão

Seis meses atrás, o governo de Minas propalava aos quatro cantos que o Mineirão era o estádio brasileiro mais adiantado para a Copa do Mundo. Ironia do destino que a reinauguração do último domingo tenha sido um fracasso colossal? Seria, não fosse a maquiagem explícita de problemas no cronograma e na execução da obra.

Ao longo da reforma, que durou dois anos e meio, governantes mineiros empreenderam árduo esforço de publicidade para vender a imagem de um projeto perfeito. Embora a obra tivesse sido afetada por duas greves de operários, que reivindicavam salários dignos e melhores condições de trabalho, a impressão de que tudo corria às mil maravilhas no Mineirão parecia irretocável.

Mas a impressão era falsa. Fruto da obsessão pela abertura da Copa de 2014, algo que já se desenhava improvável desde 2010, dadas as articulações em torno de São Paulo e Brasília, o capricho político do ex-governador Aécio Neves fez o projeto galopar prazos. O estádio deveria impor a Minas Gerais a condição absoluta de pioneirismo e vanguarda.

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A troco de quê? Nada. A população mineira não foi beneficiada com o fato de o Mineirão ter figurado por tanto tempo no topo do ranking dos estádios da Copa – posto perdido para o Castelão no fim do ano passado.

O presente para os mineiros foi uma arena entregue às pressas, inacabada, que não conseguiu prover o básico para o público que compareceu ao clássico entre Cruzeiro e Atlético. De que adianta o governo estadual se orgulhar de um moderno sistema de captação de chuva instalado no estádio se, no dia da abertura, o Mineirão não tinha água para oferecer a seus visitantes, pagantes e contribuintes?

No fim das contas, o atual governador Antonio Anastasia multou em 1 milhão de reais a Minas Arena, concessionária do estádio, e fez o que a antiga administração de Aécio, como à época das greves de operários, não se cansou de fazer: jogar a culpa nos outros.

A enorme pressão política para “vender” o Mineirão como a obra mais desenvolvida do país resultou em um vexame sem precedentes. Se tivesse traçado prazos mais realistas, um mês adiante que fosse para a reabertura dos portões, o desrespeito a quase 60 000 torcedores teria sido evitado.

O trabalho de ilusionismo do governo de Minas acabou. Um título, porém, o Mineirão conquistou bem rápido, ainda que temporariamente: a pior reinauguração de estádio do Brasil.

Atlético-MG, Cruzeiro, Mineirão

Mineirão

Domingo, um velho conhecido torna a dar as caras. Cara nova, limpinho, hi-tech.

Mas, para mim, ele continua o mesmo. Um time atacará para o lado da Lagoa. O outro, em direção ao Centro. Melhor imaginar que nada mudou.

A poucos quilômetros dali, no costado da Avenida Antônio Carlos, passei mais de 20 anos encabulado com sua grandeza. Não só de cimento e ferragens. Mas de alma pulsante, coisa mística.

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Por vezes, o pessoal lá de casa saía para o terreiro – do tempo em que quintal era luxo – e, em silêncio absoluto, esperávamos a explosão da torcida na entrada dos times em campo. O som ultrapassava fácil e límpido a barreira de concreto do Gigante da Pampulha.

Mais tarde, nos aproximaríamos ainda mais. Foram quatro anos de UFMG, sua vizinha de cerca. Quando a aula acabava, preferia dar a volta, caminhar até o portão oposto, só para poder avistá-lo por um instante. Apesar de duas décadas de convivência, eu não me cansava de admirá-lo.

Quem repousava sobre suas arquibancadas em dia de festa, tinha a sensação perfeita de um terremoto na hora do gol. As bases tremiam, os batimentos martelavam. Experimentei, com ele, o mais profundo sentimento de delírio.

Não me lembro ao certo a ocasião de minha primeira visita. Aliás, sempre fui um visitante. Meu time, herdado do pai, companheiro de muitas jornadas, vinha de outras bandas. Nunca o vi ganhar naquele gramado.

Contudo, me lembro bem, ainda que de cabeça inchada pela derrota, saíamos do estádio, do alto da solidão pós-jogo que costuma acompanhar o torcedor visitante, plenamente realizados.

O simples ato de ir e adentrar a magnitude de cada espetáculo fazia aquele ritual valer a pena. Ganhar era o de menos. Não há palavras para agradecer a meu pai pela companhia em tardes e noites tão especiais.

Com esse amigo cinzento e quase cinquentão (aí já não me refiro a meu pai, mas sim ao palco de gênios como Ronaldo e Reinaldo), aprendi a distinguir mitos de crenças emocionais.

Aprendi que, ao contrário do que dizem, um prato de feijão tropeiro bem servido, generoso em torresmo e linguiça defumada, acompanhado do ovo frito propositadamente encharcado de gordura, faz muito bem ao coração.

Bem-vindo de volta, meu amigo.