América-MG

O privilégio egocentrista de ser América

Ser americano, à primeira vista, pode soar como um recurso prático de contentamento espiritual. O torcedor do centenário América Mineiro nunca está infeliz.

Alheio à eterna gangorra que embala o time, que vive subindo e descendo de divisão e chegou a escorregar até mesmo para o Módulo II do Campeonato Mineiro em 2007, o americano não é adepto a dramas e sofrimentos.

Já imaginou um tipo desses derramando lágrimas após uma derrota do Coelhão? Nem tente imaginar a cena. Ela jamais existirá. Americano de verdade enxerga o futebol com um sentimento de nobreza que catapulta a melancolia. Mas, nem por isso, é um cara “do bem”.

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Americano, ao contrário dos rivais, não nutre afeição por A ou B, João ou José, que não seja o decacampeão mineiro. Costuma-se dizer que o América é o segundo time dos belo-horizontinos, pela falsa imagem de “time simpático” que há décadas outorgaram-lhe. Engano.

O americano seca Cruzeiro e Atlético com todas suas forças. Põe a boca no trombone para se dizer perseguido pelo apito, grita contra o aliciamento de jogadores por parte dos vizinhos que ainda não alcançaram sua excelência na formação de craques como Fred e Gilberto Silva.

É um time que não abaixa a cabeça para os grandes. Poderia, aliás, ser grande também, catequisar mais torcedores, quase na mesma proporção que os rivais da capital mineira. Mas não é. Por escolha própria.

Em 2012, para comemorar seus 100 anos, o clube lançou a genial campanha “Um time para poucos”. Em resumo, o América é uma instituição feita para uma minoria desfrutar.

Gotas de crueldade escorrem pelos dentes do americano. Veneno puro. Em meio à briga entre Cruzeiro, Atlético e concessionárias por Mineirão e Independência, o estádio do América, o clube atacou na carne: “Outros times também jogam em casa. Só que a deles é alugada”.

Para esta temporada, nada de reforços bombásticos, de parar o aeroporto. A grande contratação é o atacante Felipe, ex-Náutico e Goiás. Mais um golpe pungente e impiedoso sobre os “coirmãos”. Felipe é carrasco reconhecido de Cruzeiro e Atlético. Já marcou 13 gols em cima da dupla.

Assim são os americanos e esse incansável América, o eterno Davi que não se furta a pisar no calo dos Golias.

Cruzeiro

Abre o bico, Dagoberto

O título do post não encoraja Dagoberto, o bom reforço para o ataque do Cruzeiro, a soltar o verbo diante de câmeras e microfones.

Nem precisa. O ex-jogador do Inter cansou de fazer inimizades no vestiário do São Paulo, onde foi campeão brasileiro, justamente por falar demais, alfinetar companheiros, peitar treinadores e reivindicar a titularidade.

No Sul, pôs freio na língua, mas seguiu irritando por apatia e pela falta de solidariedade que costuma demonstrar em campo.

Dagoberto, desde os tempos de São Paulo, tem uma ideia fixa na cabeça: atacante não precisa marcar. Para ele, cada milímetro cúbico de suor derramado beliscando a saída de bola adversária é desperdício no conta-giros de uma arrancada rumo ao gol.

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Individualista, ele vê sua profissão de maneira singular. “Futebol é uma coisa solitária”, resumiu, em entrevista à PLACAR em 2011, pouco antes de deixar o Morumbi.  E teceu uma justificativa marota para sua queda rendimento sob o comando de Muricy Ramalho no Tricolor.  “Eu buscava muito, marcava muito e, quando recebia a bola, já estava cansado para fazer uma jogada.”

Faz sentido até. Mas o estilo Dagoberto de ser e correr não se enquadra no futebol moderno. Times bem-sucedidos na última temporada, como Corinthians, Fluminense e Atlético-MG, moldaram sua força a partir do poder de marcação dos atacantes, que se dedicam na mesma proporção para atacar e defender.

Para se dar bem no Cruzeiro, Dagol tem de mudar a postura. A torcida celeste não vai se importar se ele abrir o bico, esgotado, e pedir substituição no começo do segundo tempo, mas, assim como são-paulinos e colorados, soprará a corneta caso sua contribuição defensiva se resuma a mãos na cintura e um olhar cínico para os homens de trás, como quem diz: “marquem aí que o Dagoberto resolve daqui”.