Atlético-MG, Cruzeiro

Espelho, espelho meu, o rival ficou tão pequeno quanto eu

A hipótese de Cruzeiro e Atlético inaugurarem o novo Mineirão com torcida única, combinada ao ato de nobreza do Internacional ao felicitar o Grêmio pela Arena, só reforça a tese que rascunhei há alguns meses para os amigos do Observatório do Esporte.

A rivalidade entre os clubes mineiros é sórdida, predatória, joga ambos para baixo. Mentalidade provinciana de dirigentes que preferem o papel de torcedor ao de gestor. Que o estádio reformado seja capaz de renovar uma mentalidade que não dá lucro para nenhum dos lados.

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Desde a política do “café com leite”, nos idos da República Velha, Minas Gerais exerce sua vocação ao protagonismo. O bom mineiro nunca abaixou a crista diante do profanado “eixo Rio-São Paulo”.

Porém, tal qual a política de Minas, esvaziada de grandes figuras nacionais e empobrecida pelo complexo conciliatório que morreu de mãos dadas com Tancredo Neves, o futebol do estado perdeu espaço e respeito.

Um título nacional não vai para Belo Horizonte desde o irretocável Cruzeiro de 2003. O torcedor já se esqueceu da época em que os dois gigantes mineiros se pegavam no topo da tabela. A dupla se encolheu em suas mesquinharias.

A grama do rival é sempre mais verde. No entanto, nesse caso, não se trata de cobiça àquele jardim florido e bem cuidado. Atlético e Cruzeiro copiaram-se nas miúças. Algo simploriamente narcisista como “se eles podem, nós também podemos”.

Virou moda no futebol mineiro. Se fulano vai bem num time, o outro logo cresce o olho. Passa um tempinho e lá está fulano vestindo a camisa do rival. Se um contrata gringo, o outro faz questão de beber da mesma fonte e importar. Até dirigente entrou na roda e trocou de lado.

Nas finanças, funciona do mesmo jeito. Se a dívida do vizinho cresce, vira motivo de comemoração e até trunfo para contar vantagem. Mas se ele gastar os tubos numa contratação, a resposta não tarda: derramam-se milhões no primeiro pseudocraque de pedigree que aparecer pela frente. Só para esbanjar.

Se os dois clubes não têm estádio próprio até hoje, isso se deve ao jogo de empurra que travam há décadas. Afinal, deve pensar o bom e velho cartola mineiro, “se o rival ainda não tem, por que serei eu o primeiro?”

Ao contrário de outros embates marcados pela polarização regional, como o Grenal, o clássico mineiro não se dá ao luxo de absorver pontos fortes e qualidades. Sem deixar de competir, Grêmio e Inter cresceram parelhos e com fome de grandeza: construíram estádio, arquitetaram invejáveis planos de sócio-torcedor, ampliaram suas fronteiras além do Rio Grande, conquistaram o mundo…

Visto de fora, o futebol mineiro arremeteu ao provincianismo. Para voltar ao topo, Atlético e Cruzeiro precisam se enxergar mutuamente em ideias novas, vanguarda, pioneirismo, e não no reflexo que rende uma gargalhada sarcástica a cada fracasso do rival.


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Atlético-MG, Ronaldinho

Ronaldinho espeta Flamengo e elege CT do Atlético como motor de seu renascimento: “Dá gosto de treinar”

Ronaldinho anda muito benquisto. Não só pela torcida atleticana, que o alçou à condição de ídolo num piscar de olhos. Aonde chega, o craque faz roda com a boleirada.

Na cerimônia de entrega da Bola de Prata PLACAR, embora tenha ficado distante da trupe mineira composta pelos companheiros Leonardo Silva, Réver, Marcos Rocha e Bernard, o astro de boina, camisetão estampado e estilo irreverente era a grande atração.

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Seja cortejado por Neymar e Lucas ou cercado por Zé Roberto e Fred, com quem se comunica frequentemente para pegar dicas de bons restaurantes em Belo Horizonte, Ronaldinho comanda as resenhas com o sorriso cheio de dentes peculiar, que andava encovado nos tempos turbulentos da Gávea.

Zé Roberto e Ronaldinho não se desgrudavam. Durante a sessão de fotos para PLACAR, o atleticano azucrinou o ex-companheiro de seleção. “Zé, esse não é seu lado bom pra foto.” Meio sem jeito, o gremista passa a Bola de Prata para o braço esquerdo e faz outra pose. “Aí, Zé, agora sim. Seu lado bom é a canhota.”

Dono do pedaço, o meia do Atlético não mediu palavras nem mesmo para cornetar o buffet requintado da festa, que ia dos canapés de carpaccio ao ravióli de cordeio. “Meu irmão, jogador vem de favela, não come essas paradas, não!”, reclamou. “Cadê a coxinha, a empadinha, o pastel frito? É duro passar fome no primeiro dia de férias.”

Mas Ronaldinho não se queixa da vida que leva em BH nem mesmo das polêmicas do apito que acompanharam o time alvinegro durante o Brasileirão. Renovou contrato com o Atlético e pretende usufruir das benesses da Cidade do Galo por pelo menos mais um ano.

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Em entrevista ao blog, porém, ele deixa escapar alfinetadas ao ex-clube pelo qual, implicativamente, havia perdido o gosto de jogar e treinar.

No Flamengo, você foi criticado por se omitir em jogos importantes. Já no Atlético, o panorama mudou, e você se tornou protagonista em partidas-chave, como nos clássicos contra o Cruzeiro e diante do Fluminense…
É nessas horas que, pô, todo mundo diz: nos grandes jogos, a gente vê quem é quem. Por ser um dos mais velhos da equipe e ter de criar as jogadas, eu procurei chamar a responsabilidade e levar todo mundo junto.

Muita gente duvidou de que você voltaria a jogar em alto nível. As desconfianças serviram de motivação?
Ah, cara, eu gosto disso. É um incentivo a mais. As dificuldades me inspiram a buscar algo novo.

Você é movido por críticas, então?
Eu sempre fui assim. Se alguém falar de mim, mexe com meu brio. Se alguém me chutar, mexe com meu brio. Se alguém me empurrar, mexe comigo. Quando eu saí do Flamengo, falaram muita coisa, muita besteira a meu respeito. E eu consegui mostrar no Galo que estou bem, que continuo sendo decisivo e um dos melhores dos campeonatos nacionais.

O que mudou do Ronaldinho do Flamengo para o Ronaldinho do Atlético?
No Flamengo, nós também tínhamos um grupo bom, mas com uma estrutura completamente diferente. No Atlético, a estrutura faz com que um jogador machucado volte a jogar logo. O clube nos dá condições de manter um grupo de trabalho durante todo o ano. Dá gosto de treinar.

A estrutura do Atlético fez diferença na retomada de seu bom futebol, que resultou na conquista de sua primeira Bola de Ouro PLACAR?
Toda a diferença. Temos as melhores condições para trabalhar, fazer uma boa preparação, ter vontade de treinar, num bom centro de treinamento, num bom campo. Tudo isso influencia muito no resultado final. Quando recebo um prêmio como esse [Bola de Ouro] e paro para analisar o porquê disso, penso em todos esses detalhes que o Atlético me ofereceu.

Os erros de arbitragem tiraram o título brasileiro do Atlético?
Não gosto de falar sobre isso. Se tivessem errado a meu favor, eu não reclamaria. Agora, só porque foi contra mim, eu vou reclamar? Erros acontecem, coincidências existem. Méritos do Fluminense. Os caras fizeram uma campanha fora do normal. O que nos resta é pensar em melhorar a equipe para o próximo ano.