Atlético-MG

Processo de corintianização?

 

Há algumas semanas, o técnico Cristóvão Borges admitiu que seu Vasco se espelha na moldura tática do Corinthians. Mais um adepto do conceito de robusteza do professor Tite. Para os teóricos, a “titebilidade”:

– Marcar para depois atacar;

– Compactar, fechar os espaços, diminuir o campo do rival;

– Não esperar o erro do adversário, mas forçá-lo a errar;

– Controlar o jogo.

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A fórmula do time campeão da Libertadores, com apenas quatro gols sofridos em 14 jogos, não é novidade no exterior – vide a encardida Universidad de Chile – e começa a ganhar adeptos em meio ao velho paradigma do futebol-arte-ofensivo brasileiro.

No Atlético, de Cuca, dois volantes (Pierre e Leandro Donizete) fazem o papel de cães de guarda, à la Ralf e Paulinho. Os laterais (Marcos Rocha e Júnior César) sabem marcar e ainda recebem o apoio de Danilinho, pela direita, e Bernard, pela esquerda, que recompõem a defesa e tomam conta dos corredores. Um time solidário na marcação.

O confronto de domingo coloca frente a frente duas escolas similares e levanta a questão: assim como o Vasco, o Galo copiou o Corinthians?

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Apesar dos paralelos em torno da aplicação tática, o time atleticano é mais vulnerável que a equipe de Tite. Sofreu sete gols nos últimos quatro jogos. Por outro lado, ganha em intensidade no ataque. Toma a iniciativa, sai para o jogo, martela o oponente. Fez 14 gols a mais que o Corinthians no Brasileiro. Um ímpeto ofensivo que consequentemente expõe a defesa.

Mas a maior evidência de um suposto “plágio”do Galo não habita o gramado. Após deixar de fazer média com o torcedor e abolir as promoções populistas, o clube hoje enche estádio e cobra caro. Processo que o time corintiano, dono da melhor média de público do primeiro turno (24 968 por jogo), vivenciou nos tempos de Ronaldo.

O preço médio de um ingresso para ver o Atlético jogar no Independência é de 40 reais. Número expressivo para quem registrou o terceiro maior público do primeiro turno (18 365 por jogo) e faturou 6,16 milhões de reais com bilheteria.

Neste domingo, o Pacaembu estará lotado para o duelo de dois modelos bem acabados de futebol pragmático. Se quiser vingar a derrota em Minas, o Corinthians é quem terá de tomar emprestado um pouco da petulância do Galo, permitir-se correr riscos jogando em casa.

Afinal, as boas práticas (que dão resultado) estão aí para ser copiadas.

Cruzeiro

Pobre e nobre Cruzeiro

Com o rival na liderança do Brasileiro, virou moda escorraçar o Cruzeiro em Minas Gerais. Mas, após um começo de ano tumultuado (transição política, guerra com o Corinthians por Montillo e contratações pitorescas), o clube celeste começa a corrigir a rota.

Não dá para tomar o desempenho do Atlético como parâmetro. Antes do início do Brasileirão, previsões – inclusive de PLACAR – indicavam o Cruzeiro brigando contra o rebaixamento. Hoje, no entanto, o time frequenta a metade de cima da tabela, buscando fôlego para não se desgarrar do G4 da Libertadores.

Sem fazer loucuras ou gastar os tubos, a diretoria tenta sobreviver às dívidas herdadas de um mandato negligente que marcou o fim da era Zezé Perrella no poder. O clube vendia jogadores aos montes (faturou 31 milhões de reais em negociações só em 2011, ano em que registrou em seu balanço um inacreditável déficit de 13 milhões de reais), mas a grana não girava. Só escapou da degola na última rodada.

Passados dois anos de incompetência administrativa, Gilvan de Pinho Tavares, que assumiu no fim de 2011, tem pelo menos três méritos para por na conta, apesar dos erros de marinheiro de primeira viagem.

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1) NÃO EMBARCOU NA MEGALOMANIA
Alheio à torneira aberta do Atlético, que também fechou o ano passado com prejuízo (36,1 milhões), Gilvan trabalha dentro da realidade financeira do clube. Livrou-se de jogadores com altos salários (Fabrício, Roger, Farías) e nem com a chegada de Ronaldinho Gaúcho ao rival cedeu à tentação de desembolsar milhões por um novo reforço.

2) SEPULTOU A POLÍTICA VENDEDORA
Apesar de ter sido obrigado a abrir o bolso para segurar Montillo, deu seu recado: o Cruzeiro não é mais um mercadão. Referências do elenco, como o meia argentino e Fábio, foram mantidas. Além deles, o clube renovou contrato com Wallyson, Wellington Paulista, Leandro Guerreiro e os jovens Élber e Lucas Silva. Bons sinais. Manter a base é sempre mais barato que sair às compras.

3) CORRIGIU FALHAS E LIMPOU A ÁREA
Demitiu o ex-diretor de futebol Dimas Fonseca e, meses depois, o técnico Vágner Mancini, mantido no começo do ano em função do baixo salário (ganhava menos de 100 mil reais). Ainda dispensou bondes avalizados pela dupla: Amaral, Walter, Gilson, Rudnei, Bobô, Fábio Lopes, Marcos e Cribari. Por outro lado, entregou o comando do futebol a Alexandre Mattos, responsável pelas contratações de Ceará, Tinga, Borges, Alex Silva, Willian Magrão e Sandro Silva.

Não é o suficiente para fazer o Cruzeiro brigar por título. Mas a conduta de gestão responsável pode evitar que um novo rombo no cofre coloque em risco as próximas temporadas.

Atlético-MG, Ronaldinho

Ronaldinho não é mais aquele

Semana passada escrevi no blog que o Ronaldinho do Galo não é o Ronaldinho do Barcelona. Quem viu o clássico contra o Cruzeiro ontem há de chiar. No finzinho, ele arrancou, passou por dois e marcou um golaço quando o Atlético acabara de ficar com um homem a menos em campo, após a expulsão de Pierre.

Empolgados, atleticanos já comparam o lance às arrancadas devastadoras dos tempos áureos de Barça. Devagar com o andor. Hoje, aos 32 anos, Ronaldinho não tem a velocidade nem o arranque de cinco, seis anos atrás.

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No time espanhol, o meia jogava praticamente como um ponta-esquerda (função parecida com a que Bernard exerce no time de Cuca), passando por cima de marcadores do naipe de Sergio Ramos, John Terry, Maldini e Gattuso.

Embora esforçados, os cruzeirenses Leandro Guerreiro, Tinga, Lucas Silva, Léo e Mateus estão longe de figurar na lista dos melhores marcadores do país. Ainda assim, em boa parte do clássico, Ronaldinho encolheu-se em meio ao cerco do quinteto. E foi decisivo. Por quê?

Justamente por não ser mais o Ronaldinho do Barcelona. Longe da ponta e mais centralizado, o camisa 49 faz hoje as vezes do meia de ligação. As jogadas de ataque passam sempre por seus pés. Obrigado a arriscar enfiadas e lançamentos, naturalmente acaba errando mais.

Quando bem marcado, aparece menos, mas abre espaço para Bernard e Júnior César. E pode decidir jogos em um insight. Diante do Cruzeiro, no primeiro tempo, achou Danilinho, que, sozinho, desperdiçou grande chance de cabeça. No segundo, uma pintura de gol.

No fim das contas, o empate caiu bem para o “projeto-título” do Galo. A coroação extrema de Ronaldinho, com um sarrafo de virada no rival, entupiria o barril das expectativas. Foi assim que se desenhou o fim da lua de mel entre o craque e os rubro-negros, que esperavam dele, em todos os jogos, o showman dos tempos de Barcelona.

Ronaldinho não decide nem vai decidir todas para o Atlético. A cobrança deve ser proporcional ao que ele tem a oferecer no presente. Um belo cartel, sem dúvidas, porém bem menos farto que a supervalorização que insiste em amarrá-lo ao passado de melhor do mundo.

Atlético-MG, Cruzeiro

Um voto de paciência

O Atlético é favoritíssimo no clássico de domingo. Aliás, há muito tempo não era tão superior ao Cruzeiro. Nem no último confronto, pelo Campeonato Mineiro, nem na última rodada do Brasileiro do ano passado, quando o rival lutava para não ser rebaixado.

É aí que mora a armadilha. As feridas daquele fatídico 6 x 1 ainda estão abertas. Até mesmo quem chegou depois do desastre, como Ronaldinho Gaúcho, sabe do afã gigantesco pela vingança. Bater o rival sempre foi obrigação. Agora, é questão de honra.

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Ainda que o clube venha a ser campeão brasileiro, o atleticano só vai lavar a alma após devolver a sova que livrou o Cruzeiro de uma inédita queda para a série B.

Mas um eventual tropeço no clássico – que, dadas as circunstâncias, inclui o empate – não é a senha para um turbilhão de tomatadas ao time de Cuca. Não muda (ou não deveria mudar) nada. O Atlético continuará líder, campeão simbólico do primeiro turno. Há uma curva de ascensão desde o início do ano.

O jejum de títulos nacionais incomoda, a má sorte diante do maior rival, mais ainda. Porém, um time vencedor não é moldado do dia pra noite. O Galo, de Jô, Bernard e Ronaldinho, vive o êxtase, é imbatível nos números, mas não está imune a turbulências. Administrá-las, sem traumas, passa a ser o grande adversário na caminhada pelo bi.

Pelo que faz até aqui, o Atlético merece uma dose de confiança e um voto de paciência. Da torcida, da comissão técnica, de seu inflamado presidente, para não deixar que a cicatriz dos 6 x 1 aborte uma fantástica história de reabilitação.

Cruzeiro

Dois centroavantes e um dilema

Dia desses presenciei a revolta de um amigo cruzeirense que vive em São Paulo. “Nunca vi dois centroavantes darem certo no mesmo time”, dizia, alfinetando o dueto Borges e Wellington Paulista.

O técnico Celso Roth também já quebrou a cabeça com essa “problemática”. Tem em mãos três homens-gol (Anselmo Ramon, Borges e Wellington Paulista), mas, ao mesmo tempo, não conta com um segundo atacante confiável para servi-los.

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Wallyson, após seis meses de molho, está muito aquém daquele artilheiro da Libertadores do ano passado. Fabinho, bem… Corre pra cá, corre pra lá, mas não passa de um nobre operário do esporte bretão.

Roth bem que tentou montar sua equipe com dois centroavantes, Borges e Wellington Paulista. Foram cinco jogos, três vitórias, duas derrotas e 3 gols marcados pela dupla: 2 de Borges e 1 de WP. Insuficiente para convencer o comandante.

WP, que começou bem a temporada, tem perdido espaço. É o típico pivozão de ofício. Alterna do craque ao perna de pau em segundos, irrita a torcida, mas, quando pinta uma brecha, bota pra dentro. Como Alecsandro, no Vasco, precisa de sequência e pulso firme do técnico para bancar suas pataquadas.

Borges, embora tenha saído do Santos em baixa, seria o parceiro ideal, mas ainda tenta se entender com WP na busca por espaços na área. Bem servido de centroavante o Cruzeiro está, assim como o Atlético, que tem Jô e tinha André, então artilheiro da equipe na temporada.

O ex-matador atleticano voltou para o Santos por não enxergar oportunidade de atuar ao lado do inspiradíssimo Jô. Os dois não cabiam no mesmo time? Talvez se dariam bem em boa parte dos clubes brasileiros, mas não no Galo de Cuca, armado para explorar as pontas com Bernard e Danilinho.

A teoria de que dois centroavantes “se anulam” encontra fundamento na fornada de goleadores subaproveitados da última geração francesa. A seleção dos Blues chegou a contar de uma vez só com Henry, Trezeguet e Anelka. Em todas as combinações possíveis, o ataque francês não funcionava, dando origem à bolha de vaidades que estourou em 2010 nas mãos de Raymond Domenech.

Esse é o tamanho da encrenca que Celso Roth tem para resolver. Anselmo Ramon, Borges e Wellington Paulista estão a anos-luz de Henry, Trezeguet e Anelka. Porém, os três sabem que têm bola para figurar entre os titulares, já que as opções de frente são escassas.

Comprovando a lógica, a formação com dois centroavantes não deu suco. No banco cruzeirense, faltam peças que proporcionem variação do esquema, como o arranjo de ponteiros do Galo.

Culpa de Roth? Ou de um planejamento atropelado na montagem do elenco? A mesma teoria que condena a parceria entre atacantes de área tende a apontar a segunda opção.

Atlético-MG, PLACAR

O rei de Minas

Mineiro não é muito de reclamar, tem um quê de apaziguador até. Mas, quando o negócio é futebol, as lamúrias entornam como angu na fervura.

A bronca com supostos árbitros mal intencionados contra times de Minas Gerais e a cobertura distanciada da mídia nacional são assuntos que ano após ano empanturram as resenhas de americanos, atleticanos e cruzeirenses.

A partir de hoje, inicio a jornada no Bololô Mineirês para ampliar (ou pelo menos tentar) o raio de cobertura de PLACAR em torno do futebol mineiro, mantendo distância de segurança de mitos e preconceitos.

Neste primeiro post, em momento mais que oportuno, um autojabá para a PLACAR de setembro, que chega às bancas de Minas a partir de sexta-feira. Ronaldinho Gaúcho na capa.

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Após a saída traumática do Flamengo, o meia se emendou em Belo Horizonte. As pedaladas, os tapas ao estilo “olha para um lado e toca para o outro” e os lances de improviso – que na maioria das vezes resultavam em jogadas improdutivas no rubro-negro – agora são pacote complementar a um repertório recheado de assistências precisas, lançamentos cirúrgicos e muita eficiência.

O Galo fez bem a Ronaldinho, que, por sua vez, faz muito bem ao Galo. Complementares. O time ganhou o ídolo e o camisa 10 (49, na verdade) que há tempos faltava. E ele, que deixou a Gávea sob desconfiança e acusações aos montes de deleite nas noitadas, recebeu a confiança que havia perdido no Rio, principalmente da torcida atleticana.

Idolatrado, o meia tem de autografar uma pilha de camisas e bandeiras de torcedores todos os dias. Trabalho braçal que começa logo na saída do treino. Sempre há um grupo de pelo menos 10 atleticanos se estrumbicando por uma foto com o ídolo.

Na portaria da Cidade do Galo, mais tietagem dos fãs que esperam, na melhor das hipóteses, um aceno do craque por trás da janela do carro. Já no Independência, os alvinegros tomaram o hábito de reverenciar, como súditos, a estrela alçada ao status de rei da massa.

As atuações do Ronaldinho do Atlético, embora consistentes e regulares – no sentido temporal da palavra, claro -, ainda não estão no patamar do Ronaldinho do Barcelona, eleito melhor do mundo em 2004 e 2005.

Mas o poder de encantar uma cidade e ser a mola propulsora de um time é bem parecido. “Fazer o Atlético Mineiro voltar a ganhar um título de expressão é o desafio que me motiva”, disse o meia na entrevista à PLACAR, em que ele ainda falou sobre Grêmio, Messi, Flamengo, seleção e a fama de baladeiro.

Nessa “balada”, aliás, o Atlético vai bem, ao ritmo da batida de um craque que deixou de jogar só com o nome para jogar com culhões.

Ronaldinho Gaúcho e Breiller Pires