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De Perrella a Kalil: uma lição mal compreendida pelo eleitor que age como torcedor

Para início de conversa, transformar cartolas folclóricos em políticos contestáveis não é um fenômeno exclusivo de Minas Gerais. Eurico Miranda, no Rio de Janeiro, e Andrés Sanchez, em São Paulo, também se aproveitaram de sua popularidade entre torcedores para se eleger. Mas Alexandre Kalil e Zezé Perrella são o exemplo perfeito de como o futebol se mistura com a política e ajuda a cegar o eleitor.

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A trajetória de ambos é bem parecida. Perrella entrou para o cenário político como deputado e, em 2010, deixou o Cruzeiro à deriva para ocupar o posto de senador deixado por Itamar Franco. Três anos depois, já assentado como um dos maiores representantes da bancada da bola, trabalhou na surdina para livrar a CBF da CPI do Futebol. No entanto, depois da prisão de José Maria Marin pelo FBI, virou a casaca e votou pela abertura da CPI.

Antes de abandonar o Cruzeiro, Zezé usou o clube como plataforma eleitoral para o filho Gustavo Perrella – o mesmo que empregava o piloto do helicóptero com 445 kg de cocaína –, que acabou eleito deputado estadual e hoje é Secretário Nacional do Futebol. Na longa jornada à frente da equipe celeste, ganhou títulos, mas viu seu reinado terminar com um rombo de 30 milhões de reais e uma dívida de 112 milhões.

Já Alexandre Kalil ensaiou sua incursão na política ao filiar-se ao PSB em 2013. Chegou a se candidatar a deputado federal há dois anos e fez até logomarca inspirada no escudo do Atlético, mas desistiu do pleito alegando que não nasceu para ser político, embora tenha utilizado o clube para ajudar a eleger vereador o atual presidente alvinegro Daniel Nepomuceno – que, aliás, é um dos mais faltosos da atual legislatura na Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte.

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Em março deste ano, Kalil filiou-se ao PHS mineiro, que é liderado pelo deputado federal Marcelo Aro, responsável por conceder o título de cidadão honorário de BH a Eduardo Cunha quando era vereador da cidade. Aro faltou à sessão na Câmara dos Deputados que cassou o mandato de Cunha, investigado por corrupção pela Operação Lava Jato. Ainda assim, Kalil repete a todo momento que não é político, como se o partido de Aro, grande admirador de Eduardo Cunha, não estivesse por trás de sua candidatura à prefeitura de BH.

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Marcelo Aro, amigo e defensor de Eduardo Cunha, Alexandre Kalil e Daniel Nepomuceno

Marcelo Aro também é diretor de ética e transparência da CBF. O atual mandatário da confederação, Marco Polo Del Nero, e os ex-presidentes Ricardo Teixeira e José Maria Marin foram indiciados pelo FBI por suspeita de corrupção. A histórica oposição à CBF não impediu que Kalil fosse um forte aliado de Marin, hoje preso nos Estados Unidos. “Do presidente José Maria Marin, eu sempre recebi deferência e atenção. E dou a ele deferência e atenção. Em tudo que eu precisei, mesmo quando não conseguiu, ele tentou me ajudar”, disse o então presidente do Atlético.

Em 2013, antes de se candidatar à prefeitura, Alexandre Kalil afirmava que não pediria voto a cruzeirenses. Agora, às vésperas da eleição, diz contar com “o voto de todos”. Típica contradição de político. Mas Kalil segue se apresentando como contraponto à “velha política”. Todo candidato a cargo público é um político por natureza e não há nada de errado nisso. Negar a condição de político não passa de um engodo, um desserviço à democracia, ainda mais partindo de um candidato pelo partido que não teve pudores ao defender ninguém menos que Eduardo Cunha.

Kalil se apoia em sua imagem como gestor, que, na verdade, é bem menos edificante que o mito reverenciado pelo torcedor atleticano. Uma das empresas do cartola-candidato deve mais de 100.000 reais de IPTU e 2 milhões de reais à iniciativa privada, de acordo com o jornal Hoje em Dia. Kalil tergiversou: “Sou empresário, devo, não me envergonho. Vou resolver”. No Atlético, apesar de ter conquistado o título inédito da Libertadores, o dirigente viu a dívida do clube aumentar em 128 milhões de reais durante sua administração. Ele alega que a receita cresceu no mesmo compasso. No entanto, Kalil cometeu o pecado da “velha cartolagem”: gastar mais do que arrecada. Alheio às gestões temerárias e dívidas alavancadas sob sua batuta, Kalil continua tentando se vender ao eleitor como bom administrador.

Administrador que nega a política. Mas foi capaz de sentar à mesa do maior rival, Zezé Perrella, para apoiar a candidatura de Antonio Anastasia ao governo de Minas, em 2010. “Porque Anastasia tá com Aécio [Neves] desde o primeiro dia”, justificou o atleticano ao incorporar o papel de militante do governador tucano. Hoje, entretanto, Kalil teima em bradar que não tem nada a ver com a “velha política”.

Kalil e Perrella são mais parecidos do que o torcedor imagina. Muitos atleticanos lembram aos cruzeirenses que têm todo o direito de votar em Kalil, pois teriam sido eles, do lado azul, os responsáveis por elegerem Perrella, numa espécie de revanche fora dos gramados. Mesmo com 11 candidatos no pleito, outros insistem em dar o voto clubístico por suposta escassez de boas opções. Um cenário de descrença política turbinada pelo discurso hipócrita do ex-dirigente que rejeita o rótulo de político.

O voto em figuras ligadas a clubes de futebol, sem nenhuma atividade pública relevante além da cartolagem, como Kalil e Perrella, representa a falta de esperança na política – que deve ser monitorada e aprimorada, não demonizada. Tal qual Perrella, Kalil representa a velha política dos cartolas. Populista, demagoga, contraditória e vazia. A rivalidade cega o bom senso. Porém, o eleitor deveria pensar duas vezes antes de se comportar como torcedor, sobretudo de dirigente.

Cruzeiro, Mineirão

O churrasco que mudou o destino de Alex

Em uma carta escrita ao ótimo blog Trem Azul, do ESPN FC, o ex-meia Alex relembra um dos episódios mais frustrantes de sua carreira: a dispensa do Cruzeiro, em 2001.

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“Para ‘ajudar’, o Cruzeiro espera até o último dia de férias para, num gesto covarde, o mais covarde que sofri no futebol, me mandar embora pelo telefone. Sem ao menos me dar o direito de pegar minhas coisas e me despedir dos companheiros”, contou o agora comentarista da ESPN Brasil, que fará um jogo de despedida com a camisa celeste neste sábado, no Mineirão.

O que pouca gente sabe é que um churrasco na concentração do Palmeiras, alguns meses antes desse episódio, e a preferência de um treinador rancoroso por outro camisa 10 teriam sido os verdadeiros motivos da demissão de Alex.

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Foi o próprio ex-jogador quem revelou sua versão da história à PLACAR , em 2013, quando ainda defendia o Coritiba. Uma ironia do destino que, nas palavras de Alex, acabou sendo decisiva para sua volta ao clube estrelado e para o seu “melhor ano”:

“O único problema que eu tive com treinador no Brasil foi com o Marco Aurélio, no Cruzeiro. O Marco tinha sido meu treinador no Palmeiras, no começo de 2001. Quando eu saí do Flamengo e voltei para o Palmeiras, ele não me queria. Queria o Adrianinho, da Ponte Preta, que também era camisa 10 e tinha sido atleta dele. Como eu havia jogado no Palmeiras seis meses antes, e o Palmeiras ganhou tudo, o Mustafá [Contursi, ex-presidente] bancou minha volta e passou por cima do Marco, que acabou ficando pouco tempo no clube.

Ele saiu com o sentimento de que Argel, Galeano, Marcão e eu o derrubamos. Teve um treino em Jarinu e, depois da atividade, fizemos um churrasco. Veio a notícia de que o Marco Aurélio tinha caído. Mas o churrasco continuou… Não tinha motivo pra não continuar. E ele entendeu que nós quatro pedimos a cabeça dele ao Mustafá. Eu conversei com o Mustafá quatro vezes na minha vida. Todas as quatro para assinar contrato com o Palmeiras. Depois, nunca mais o vi. Dos presidentes de clube que eu tive, foi o que eu menos encontrei. O que Marco imaginou não tinha lógica.

Passaram-se seis meses e eu fui para o Cruzeiro, contratado pelo Carpegiani. Ele caiu, veio o Ivo Wortmann, que também caiu. E depois, veio quem? O Marco Aurélio. O último jogo do Brasileiro seria contra o Inter, para cumprir tabela. O Marco disse pra eu sair de férias, disse que contava comigo para a próxima temporada. Maravilha. No embarque para a reapresentação, toca o meu telefone e o meu advogado falou assim: ‘Alex, não vai pra Minas porque o Cruzeiro te mandou embora. Não querem nem que você se reapresente’. Depois, o Eduardo Maluf [ex-diretor de futebol] me disse que o pessoal tinha feito uma reunião e chegou à conclusão de que não contaria mais comigo. E não quis nem me receber para rescindir o contrato.

 

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Alex comemora gol com Luxemburgo em 2003. Técnico bancou seu retorno à Toca

Não falei com o Marco, nem com os Perrellas. Mas, para mim, quem me mandou embora foi o Marco [No fim do ano passado, o técnico, que atualmente está sem clube, afirmou que não teve influência na demissão de Alex]. Só voltei ao Cruzeiro em 2002 porque o [Vanderlei] Luxemburgo era o treinador. Foi ele quem me bancou. Eu saí fritado do clube. Ninguém me queria de volta. Nem torcedor, nem diretoria. Só o Luxemburgo. Acabou que a temporada seguinte foi uma das mais vitoriosas da minha carreira e a que eu mais joguei bola. Na Turquia, eu joguei muito. Mas, de lembrança para o torcedor brasileiro, 2003 foi meu melhor ano.”

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“Minha história no Cruzeiro não me permite jogar no Atlético”, diz Alex


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Escravos da bola

Escravos da bola: “Vivemos uma realidade de escravidão no futebol”

Dia Internacional do Trabalhador antecede fim de semana derradeiro para a maioria dos jogadores do país, que enfrenta desemprego em massa após desfecho dos Estaduais

Por Breiller Pires

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O Dia do Trabalhador deste ano precede o fim de semana de encerramento da maioria dos campeonatos estaduais pelo Brasil. Em dois dias, boa parte dos 584 dos 684 clubes registrados na CBF que não disputam nenhuma das divisões do Brasileirão entrará em um longo período de ostracismo, desempregando 82% dos cerca de 20.000 atletas profissionais do país. Como PLACAR revelou em março, essa fatia expressiva da mão de obra da bola enfrenta condições precárias de trabalho, calote dos patrões, falta de alimentação e alojamento adequados. Uma clara expressão da escravidão contemporânea que se instalou no futebol.

Antes postos de emprego desejados pelos craques, clubes tradicionais tornaram-se alvo da cobrança de dívidas trabalhistas e beiram a falência. A Portuguesa se desdobra para quitar débitos com mais de 130 funcionários e evitar que o estádio do Canindé vá a leilão. Recentemente, parte do terreno foi penhorada pelo Tribunal Regional do Trabalho, que cobra 47 milhões de reais do clube referentes a processos de oito atletas. Situação semelhante à do Guarani, de Campinas, que viu o Brinco de Ouro ser arrematado no fim de março por uma empresa de empreendimentos imobiliários depois de ação da Justiça e do Ministério Público do Trabalho.

No Congresso Nacional, tramita a Medida Provisória 671, que prevê contrapartidas como responsabilidade fiscal e quitação de salários para que clubes refinanciem suas dívidas com o governo. No entanto, a MP só deve ser votada pela Câmara dos Deputados em junho. Dirigentes e CBF pressionam para que a medida seja aprovada sem compensações. Enquanto trabalhadores se mobilizam neste 1º de maio contra a lei da terceirização que também corre no Congresso, os jogadores de futebol seguem reféns de clubes mal administrados e estruturados, de uma rotina de atrasos de pagamento e fraudes trabalhistas de toda sorte. PLACAR ouviu quatro representantes do “futebol de verdade”, que dão o tom de desilusão entre a classe dos jogadores no Dia do Trabalhador.

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“Eu comecei no Taboão da Serra e joguei a série B do Brasileiro pelo Grêmio Barueri. Nunca tive carteira assinada. Na verdade, a primeira vez que assinei um contrato foi aqui, no Barcelona da Capela. Quando fui para a Bahia, joguei como amador pelo Serrano, de Vitória da Conquista. Cheguei a viajar 15 horas de ônibus para disputar uma partida no mesmo dia. Refeição, só arroz e feijão. Em dois anos, entre Serrano e Barueri, não recebi nada de salário. O que ganhava era o bicho [premiação por vitórias], de vez em quando. Não vou entrar na Justiça para receber. Quem faz isso acaba ficando ‘queimado’ no meio. Por sorte, minha família me ajuda. Já dei chuteiras para alguns companheiros e vi muita gente boa parar por não ter dinheiro pra botar comida em casa.”

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Rafael atuou pelo Grêmio Barueri e ficou quase dois anos sem receber

“Futebol de verdade não é só aquele que aparece na televisão. Futebol de verdade não traz igualdade, mas sim desigualdade. Isso é real! Desigualdade na distribuição de cotas das federações para clubes menores, desigualdade nos campeonatos, em que jogadores de times grandes e medianos têm uma tabela cheia o ano inteiro, enquanto a maioria dos clubes brasileiros vive só dos Estaduais. Times tradicionais do interior estão fechando as portas, cheios de dívidas. Dirigentes e empresários tratam como lixo a matéria-prima do futebol, que são os jogadores. Somos escravos da bola. Não temos o que comemorar no Dia do Trabalhador.”

Rafael Bitencourt, 21 anos, goleiro do Barcelona da Capela, que disputa a quarta divisão do Campeonato Paulista. O clube estava parado desde 2009 e só retomou as atividades nesta temporada, graças aos cerca de 300.000 reais que recebeu pela negociação de Diego Costa – revelado na equipe paulista – com o Chelsea.

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“Fiz o gol da virada e fui comemorar com a torcida. Ao me aproximar do alambrado, pisei em um buraco e escorreguei. Rompi o tendão do joelho esquerdo. Eu deveria ter operado imediatamente, mas só fui fazer a cirurgia depois de 35 dias. O clube me abandonou desde o dia da lesão. Não bancou nada. Precisei passar por outra cirurgia por causa de um descolamento de enxerto. Tive de fazer uma vaquinha e pegar dinheiro emprestado para pagar os 5.500 reais ao médico. Estou devendo até hoje. E o pior: meu joelho corre risco de artrose. O diagnóstico é de uma nova operação. Fiz o orçamento e ficaria em 6.300 reais, mas não tenho como pagar. Recebo apenas 1.150 reais do INSS. Isso porque pressionei o clube depois da lesão e só assim assinaram minha carteira de trabalho. Como o Corumbaense não pagava o seguro obrigatório do atleta e não depositou um real do meu FGTS, eu fiquei desamparado.”

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Júnior Tevez organizou rifa entre amigos para arrecadar fundos de cirurgia negada pelo Corumbaense

“No futebol, não se importam com o trabalhador, com o ser humano. O que mais dói é que me machuquei defendendo a camisa do time e até hoje não recebi uma ligação sequer. Estou incapacitado para jogar. Não tenho mais esperança de voltar. O Corumbaense destruiu minha carreira. Entrei na Justiça contra o clube, mas não existe nenhuma previsão de me indenizarem. Foram 60 dias de cama, sem poder pôr o pé no chão. Nesse período, passei até fome com minha esposa em Corumbá. Num fim de semana, sobrevivemos à base de água e farinha. Assim que pude, voltei para a Bahia. Se tivesse ficado lá, eu teria morrido de fome.”

Júnior Tevez, 29 anos, ex-atacante do Corumbaense. Ele machucou o joelho após marcar o gol da vitória da equipe diante do Sete de Dourados pela primeira divisão do Campeonato Sul-Mato-Grossense, em fevereiro de 2013. Desde então, não entrou mais em campo. Ninguém da diretoria do clube foi encontrado pela reportagem para comentar o caso.

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“Jogador de futebol também é um trabalhador. Infelizmente, no Brasil, temos que brigar pelos nossos direitos. Em três anos, eu só recebi por quatro meses de trabalho jogando por clubes pequenos. Trabalhamos 90 dias para receber um mês. É o que os dirigentes fazem para não correr o risco de perder o jogador na Justiça [A Lei Pelé estabelece que três meses de atrasos salariais podem motivar o rompimento unilateral de contrato por parte do atleta]. O futebol é surreal. Vi amigo, pai de três filhos, pedir dinheiro emprestado para a família ter o que comer. A imprensa só leva ao conhecimento do torcedor os 2% [de jogadores] que ganham bem e defendem times grandes. Eu não tinha noção disso quando jogava no Corinthians. Clubes que não pagam, não recolhem fundo de garantia, uma bagunça. Cheguei a jogar sem carteira e sem contrato, algo que eu nunca poderia imaginar. Ainda passei por quatro cirurgias e perdi a motivação para seguir na profissão. A partir do momento em que não pagava mais as contas de casa, resolvi parar.”

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Volante formado pelo Corinthians parou de jogar aos 29 anos

Bruno Octávio, 29 anos, bicampeão brasileiro pelo Corinthians (2005 e 2011). Depois do clube alvinegro, rodou por clubes como Bahia, Grêmio Barueri, Araxá e Marcílio Dias, onde encerrou a carreira no ano passado.

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“Vivemos uma realidade de escravidão no futebol. Jogador não tem dignidade, não é respeitado. Os cartolas vagabundos, ladrões, sabem que a Justiça é lenta e que eles não serão responsabilizados pelas mazelas. Estamos tentando mudar isso com a aprovação da MP do futebol [Medida Provisória 671]. Em 2013, fui jogar no Alecrim, do Rio Grande do Norte. Ficaram mais de três meses sem pagar salário e ainda me dispensaram. Só que não me liberaram na Federação, fiquei preso ao clube. Fui obrigado a gravar um vídeo elogiando a diretoria para poder me desvincular do Alecrim. Depois, fizemos um acordo judicial, mas só me pagaram uma parcela da dívida. Tenho dinheiro para receber de outros três clubes. Estou na fila do Botafogo. Mas deve demorar dez anos ou mais para sair.”

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Membro do Bom Senso F.C., Ruy Cabeção já se reuniu com a presidente Dilma Rousseff para cobrar medidas que valorizem o trabalhador nos clubes

“Há dois anos, moro longe da minha família. Não tem cabimento trocar minhas filhas de escola a cada três, quatro meses. Esse é o tempo que os jogadores costumam durar nos clubes nanicos. Essas equipes precisam estar em atividade o ano inteiro, não só por um semestre ou por alguns meses. Estamos perdidos. A Globo, detentora dos direitos de transmissão na TV, não mostra a realidade do futebol para não desvalorizar seu produto. Jogador que não recebe rende menos em campo, a qualidade do jogo cai, o torcedor perde o interesse. Eu estou cansado, já não tenho mais paciência para essa rotina de sacrifício e descaso.”

Ruy Cabeção, 37 anos, meia com passagens por Cruzeiro, Botafogo e Fluminense. É integrante do Bom Senso F.C., movimento de jogadores que reivindica melhorias no futebol. Atualmente, defende o Operário de Várzea Grande-MT. Fez um “pacote” de quatro meses para jogar pelo clube, mas, até o momento, só recebeu por um.

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Escravos da bola: a história de jogadores explorados pelo futebol


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Mineirão

Para apagar reverência à ditadura, Mineirão pode mudar de nome este ano

Por Breiller Pires

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Em setembro, o Mineirão celebrará os 50 anos de sua inauguração. Em março, a redemocratização do Brasil atingiu a marca de três décadas. O elo entre as duas datas é paradoxal e, em um primeiro momento, pode passar despercebido.

O nome oficial do estádio é Governador Magalhães Pinto, uma homenagem ao ex-governante de Minas Gerais. Apoiador do golpe militar de 1964, ele foi responsável por articular no estado a derrubada do então presidente João Goulart e, quatro anos depois, ajudou a instituir o AI-5, que cerceou praticamente todas as liberdades políticas e individuais que ainda restavam no auge da opressão.

À frente do governo mineiro, Magalhães Pinto já havia dado uma prévia de como seria a ditadura no país. Em 1963, militares do estado reprimiram duramente uma manifestação de operários da Usiminas, em Ipatinga. A ação deixou em torno de 30 mortos – incluindo um bebê que estava no colo da mãe – e centenas de feridos.

Como forma de reparar a reverência a sua figura, um projeto de lei do deputado estadual Paulo Lamac pretende substituir o nome do estádio por apenas “Mineirão”, seguindo as diretrizes do relatório divulgado pela Comissão Nacional da Verdade em dezembro do ano passado. O documento cita Magalhães Pinto como um dos executores de crimes às vésperas e durante a ditadura.

Estádio homenageia ex-governador do “Massacre de Ipatinga” | Crédito: Pedro Silveira

Existe a expectativa de que a proposta seja aprovada na Assembleia estadual ainda este ano devido à mobilização pelo cinquentenário do estádio. “É preciso educar e conscientizar os cidadãos sobre uma passagem da história brasileira que violou direitos humanos mais básicos. Mudar o nome do Mineirão será um marco simbólico. Sobretudo nesse período em que muita gente ignora valores democráticos e pede a volta da ditadura”, diz Lamac.

Reinaldo, maior artilheiro do Mineirão e opositor do regime militar quando jogador, apoia a mudança de nome do estádio. “Uma praça esportiva como o Mineirão, que é um bem público, deveria reverenciar gente do futebol, não políticos da ditadura.” Nos anos 70, ele tornou célebre o gesto do punho erguido ao comemorar seus gols em protesto contra as arbitrariedades do governo. “Quem pede a volta da ditadura não sentiu na pele o que eu sofri.”

O projeto está em tramitação desde 2013. No início deste ano, o Ministério Público Federal recomendou urgência na apreciação da proposta pelos parlamentares. Relator da Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia, o deputado João Alberto é o encarregado de colocar a matéria em votação. Ele não atendeu as ligações de PLACAR.

Em caso de êxito, o Mineirão será o primeiro dos dez estádios brasileiros que homenageiam nomes ligados à ditadura a romper com as amarras de um passado perverso. Rebatizar o maior palco do futebol de Minas Gerais como os mineiros afetuosamente o apelidaram é um presente à altura de seus 50 anos e de sua verdadeira história.

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Cruzeiro

Tinga dá a volta por cima

PLACAR CRUZEIRO 2014

O jogo contra o Real Garcilaso ficará marcado para sempre na história de Tinga. Não como um trauma, por causa dos grunhidos de macaco que ouvia da torcida peruana cada vez que tocava na bola. Mas pela virada que o episódio representou em sua vida.

Tinga, além de atleta, tornou-se um militante. Criou a campanha “Chutando o preconceito” e aproveitou o período em tratamento após sofrer uma grave fratura na perna direita para percorrer o país levantando suas bandeiras contra o racismo, a intolerância e a desigualdade social.

Recuperado, hoje o volante completa 37 anos. Ele comemora o aniversário fazendo o que mais gosta: jogando futebol.  Um ser humano que não nega suas origens, seus traços, muito menos a responsabilidade que carrega como jogador.

“Não encaro a vida com revanchismo”

 

Racismo existe desde o tempo do Pelé e antigamente. Hoje aparece mais por causa da tecnologia, da mídia. Antes o futebol não tinha tanta visibilidade. Aconteceu comigo no Peru e acabou se tornando um marco. Mas não gosto de falar só de racismo. Parece que a gente tá defendendo a própria causa. Só que a violência, a falta de educação, a questão do preconceito como um todo nos estádios, a gente acha tudo normal. Aí vêm dizer: “Ah, é coisa do esporte, fulano não sabe levar na esportiva”. Não, não existe isso. O preconceito está em todos os lugares, mas no futebol, que envolve muita paixão, a coisa pega mais. Esse negócio de estádio novo, arena daqui, arena dali, bah… O pessoal tá achando que é arena de batalha, de vale-tudo.

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Não mudou nada em relação ao que era no passado. O torcedor ainda acha que pode fazer tudo no estádio. Acha que violência vale, que pode dizer qualquer tipo de palavra. E é todo mundo: criança, adulto, homem, mulher, rico, pobre. Xinga jogador, xinga juiz. Como se fosse outro mundo, com suas próprias regras. Falta o torcedor entender que, dentro de um estádio, a gente tem de ser o que somos em casa, na rua ou no trabalho.

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O futebol, por ser o esporte de massa do Brasil, deveria se envolver mais socialmente. Ninguém tem o espaço de mídia que tem o jogador. Gratuito! O ator passa na televisão, mas na novela ele interpreta, não é quem ele realmente é. Já o jogador está o tempo todo ali, ao vivo, diante de um microfone, de uma câmera. Se ele quiser se articular, consegue passar muitas mensagens pra ti. Nós, atletas, precisamos ser mais ligados. Nosso universo é fora do normal. Apenas 5% dos jogadores vivem bem. O resto corre atrás de ilusão. Mas esses 5%, que estão em times de ponta, têm muito conformismo. Parece que, se tá bom pra gente, tá bom pra todo mundo. Daqui a pouco o sucesso passa e o jogador também vai deparar com os problemas. Já evoluímos nesse ponto, mas podemos colaborar mais com a sociedade.

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PLACAR CRUZEIRO 2014

Não encaro a vida com revanchismo. Racismo existe, claro. Mas a diferença do Nelson Mandela para os outros foi essa. Ele mudou a história da África do Sul sem caça às bruxas, sem impor outro tipo de segregação. Você nunca vai me ver cobrando punição a ninguém. Não quero saber se puniram o time em 30, 40.000, 1 milhão de reais… Para mim, punição de verdade é fazer o clube se envolver em uma causa, botar uma mensagem na camisa. Aí talvez daria mais prejuízo financeiro do que pagar multa. Quer evoluir? Quer conscientizar? Existem várias maneiras, mas não é dinheiro que vai mudar.

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Vários outros jogadores de ponta já tinham sido vítimas de racismo na Europa. Eu acho que meu caso repercutiu tanto por causa da minha reação. Seria natural que eu saísse de campo xingando, que ameaçasse não jogar mais, que eu tirasse a camisa, que eu me revoltasse. Felizmente eu tive a sorte de, em três segundos, que foi praticamente o tempo entre o juiz apitar o fim do jogo e um repórter chegar com o microfone em minha boca, dar a melhor resposta: “Eu trocaria todos os meus troféus pela igualdade”. Isso é o que marcou. Palavras comovem, mas o que arrasta a multidão são atitudes.

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Muita gente se espantou com meu esclarecimento sobre a questão. Mas não é de hoje que eu me preocupo com as causas sociais. Há 12 anos, me envolvi em meu primeiro projeto social, com o Dunga, na Restinga, o bairro onde eu nasci. Isso vem de muito tempo. No dia em que eu cheguei à Toca, perguntei quantos funcionários tinha. Gosto de ajudar em todos os clubes. Aí me falaram que eram 40. Eu falei p… que pariu! Mas não desanimei. Faço uma cesta básica para cada um. Outros jogadores gostaram da ideia e já ajudam também. A gente sempre pode fazer algo mais.

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Eu tive o azar de quebrar a perna, mas creio que foi Deus quem preparou isso para mim. Não é de hoje que eu me preocupo com as causas sociais. Muito antes de surgir o “Chutando o preconceito” eu já fazia projetos nas comunidades de Porto Alegre. Viajei muito nesses três meses, 70% dos debates eram sobre a questão racial. Estou fazendo algo que nunca imaginei. Levantando discussões, uma causa, uma campanha que extrapola o futebol. A gente tem mania de definir as pessoas com os olhos. Isso é o que precisa mudar, cara. Mas ainda leva tempo.

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Olha, um dia me chamaram para falar sobre racismo e, no fim, era pra gravar um clipe. E nem música de cunho social era. Cara, não faço. Eu tomo muito cuidado. Não quero aparecer, não quero me promover. Quando a presidente Dilma me convidou para uma conversa, ela contou sobre as campanhas que fariam na Copa do Mundo. Uma delas era “Diga não ao racismo”. E eu sugeri que fosse “Diga não preconceito”, que abrangeria uma causa ainda maior. Ela ficou impressionada. Se engana quem pensa que essa luta é para me beneficiar. É, na verdade, por quem é subjugado por causa da cor, do peso, da orientação sexual. O futebol me deu muitas coisas, mas eu tenho amor por servir, por fazer as coisas não para mim, mas para o outro.


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Cruzeiro, Libertadores

O homem por trás do bigode

Willian Bigode Cruzeiro

Carlos Drummond de Andrade diria que “o homem atrás do bigode é sério, simples e forte”. O verso de uma das obras mais famosas do poeta mineiro serviria como descritivo perfeito para Willian, sobretudo depois de uma temporada repleta de provações.

Em pelo menos cinco jogos do Brasileirão, ele jogou no sacrifício por causa de uma lesão no púbis.

“No estágio em que eu mais senti dor, não tínhamos tantas peças de reposição, porque outros jogadores também estavam machucados.”

O atacante cruzeirense ainda sofreu uma fissura na costela no jogo de ida contra o Santos, pela Copa do Brasil, mas, em uma semana, já estava em campo novamente pela partida de volta, na Vila Belmiro. Marcou dois gols que decretaram a classificação celeste para a final.

“Senti tanta dor no primeiro dia que nem dormi. Mas em momento algum eu pensei em ficar fora do time. Me empenhei no tratamento e consegui dar minha contribuição.”

Hoje tricampeão brasileiro (dois títulos pelo Cruzeiro e um pelo Corinthians), Willian celebra a renovação de contrato e a identificação com o clube, sua principal motivação para encarar as dores no campo, e não no departamento médico.

“Depois do jogo contra o Goiás, eu brinquei com o Dago, que é penta: ‘Eu vou chegar, hein?’ Não é fácil ser campeão brasileiro. Aprendi isso no Corinthians. Mas é uma meta que me motiva, assim como o apoio de todos os torcedores. Sempre fui tratado com muito carinho nos clubes em que joguei, mas aqui no Cruzeiro é uma coisa mais forte.”

PLACAR CRUZEIRO 2014

Além da raça e de gols decisivos, um amuleto felpudo no rosto o distingue dos demais…

“O bigode marcou, né? Todo mundo que me vê na rua grita: ‘Ô, Willian Bigode!’. Mas o que tem por trás do bigode, minha entrega, minha disposição, é o que faz a diferença.”

A ambição é proporcional à fama de um dos últimos bigodudos do futebol brasileiro – só por isso o moço já mereceria todo respeito.

“O objetivo agora é ganhar mais títulos, como a Libertadores e a Copa do Brasil. Aqui no Cruzeiro temos qualidade, vontade e organização. O ano de 2014 foi muito bom, mas tenho certeza de que 2015 será ainda melhor.”


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Atlético-MG, Cruzeiro

Precisamos falar sobre homofobia

Por Breiller Pires

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Provocações com contornos discriminatórios enrustidas em apelidos jocosos como “maria”, “franga”, “bambi” e “bicha” são usadas e banalizadas por diversas torcidas. Mas pode-se dizer que o futebol em Minas Gerais “bolsonarizou”.

Curiosa e preocupante a guinada homofóbica dos últimos anos no estado, ironicamente conhecido como um dos mais acolhedores do país. “Bolsonarizar” é ignorar que preconceitos existem e que, a essa altura do campeonato, não podem mais ser encarados com normalidade.

Ignoramos os fatos: não há nenhum jogador declaradamente gay no futebol brasileiro. Não há um ídolo declaradamente gay entre os 20 times da primeira divisão. Você, homem ou mulher, que adora chamar cruzeirense de maria ou atleticano de franga, realmente acha que um gay nunca vestiu as cores do seu time?

Contente-se com a realidade. É bem provável que você já tenha comemorado gols de um artilheiro que prefere homens a mulheres, embora atitudes machistas como a sua contribua para a perpetuação da cultura repressora que se estende do vestiário às arquibancadas.

No ano passado, entrevistei um dos diretores de uma organizada do Cruzeiro. O sujeito disse que em nenhuma hipótese aceitaria um homossexual jogando pelo clube. Imagina o preço a ser pago pelo jogador que resolva sair do armário? Vai pagar com a reputação? Com a carreira? Com a própria vida?

Em um cenário em que “torcedores” ainda são capazes de matar outro apenas por envergar uma camisa diferente da sua, e em que gays continuam sendo diariamente agredidos e achincalhados por religiosos extremistas e “homens de bem” de todos os cantos, não é de se esperar algo diferente.

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“Ah, mas não é homofobia chamar um heterossexual de gay!”

Depois de muitos anos, torcedores do Grêmio, pelas vias tortas do caso Aranha, perceberam que chamar o rival de “macaco”, não importa a cor de sua pele, é um gesto racista. Organizadas do clube baniram o termo de seus cânticos. Em Minas, a música que embalou a conquista da Copa do Brasil pelo Atlético começa com “maria”. Alguns jornais, inclusive, reproduzem a expressão como se fosse algo inofensivo, normal. Não é.

Nossos netos e bisnetos um dia vão olhar para trás e sentirão vergonha do período em que vivemos, assim como hoje nos envergonhamos – embora alguns não pareçam se envergonhar – da escravidão. Ainda nos envergonharemos de piadas sem graça e dos gritos de “bicha” no estádio.

Em setembro, o STJD abriu inquérito para investigar os cânticos homofóbicos das torcidas de Corinthians e São Paulo no último clássico. Ninguém foi punido ou denunciado. Mas, ainda que vagarosamente, parte da sociedade começa a se posicionar contra o viés preconceituoso acobertado pelo futebol.

Por mais que se tente negar, justificar ou atribuí-los ao vocabulário politicamente incorreto do torcedor, termos como “maria”, “rosana”, “franga” e “lurdinha”, todos eles, independentemente do lado, têm conotação homofóbica.

Aproveite o Natal para refletir, para se tocar da realidade de privações e preconceitos que homossexuais encaram no dia a dia até serem inferiorizados, de graça, em nome de provocações tolas camufladas na rivalidade.

Aproveite a virada do ano para evoluir e tirar sarro do rival sem que sua provocação desdenhe da orientação sexual do outro. Estamos quase em 2015. E agora, José?

Imagem de capa: Galo Queer


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